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A mostrar mensagens de Fevereiro, 2012

tetrapolaridade

Considerava-se uma mulher "quatro estações". O Inverno no branco de neve dos cabelos, o Outono nos seios desinflados, o Verão no calor do seu sexo, e a Primavera nos seus pés incansáveis de menina, sempre impacientes por caminhar e conhecer mais.

Quatro (4) Recursos para Deixar de Ir Morrendo

1 – Descasque a sua vida passada como uma cebola, camada a camada. Vá retirando as camadas mais supérfluas e depois as outras (Devo avisar desde já que o processo não é isento de dor, e pode originar algum sangue). Bem no centro de todas essas camadas há-de encontrar alguma coisa, a recordação dum momento, uma ferida em carne viva, um verso, uma imagem, as instruções dadas por um arcanjo ou um alienígena de olhos rasgados, ou um vácuo imenso. Segure naquilo que encontrar (se tal for humanamente possível), e mantenha-o seguro enquanto reconstitui aleatoriamente as camadas com resultados que podem não ser os melhores. Terminada a operação, o que você trouxe lá do fundo pode ser muito útil para reatar a caminhada, ou não.
Isto poderá permitir que deixe de Ir Morrendoooooooooo, ou, pelo menos, que morra de uma vez só

2 – Nasça de novo como se voltasse a entrar no mundo. Limpe uma divisão da sua casa, de preferência pequena e acolhedora, e coloque aí todos os objectos que puder re…

Um conto nobre

- Para onde ela foi?
   Perguntou ao marquês, à marquesa e aos marquesinhos, ao senhor conde e à senhora condessa, ao cardeal de sangue real e aos seus vinte e quatro filhos, todos os cinco infantes, e a uma vintena de comendadores, viscondes, cavaleiros, arquiduques, e respectivos filhos, familiares, e servidores mais leais.
   Ninguém lhe respondeu. Não sabiam, ou não tinham ouvido a pergunta, atentos como estavam ao clangor metálico da guilhotina.

Um conto realista

"Para onde foi ela?
   Perguntou com a voz lacrimejante ás pedras e ás árvores, ás andorinhas no céu, ás formigas, ao vento, à brisa no lugar do vento, aos rochedos, ao farol no cabo, às pegadas sem nome na areia da praia, à sua sombra alongada, à longa linha d'água no horizonte, ao fragor das ondas, aos estranhos com que se cruzava e ás nuvens no céu.
   Nada nem ninguém lhe respondeu.
   Tal como seria de esperar, porque sabiam, desde o título, que isto não era nenhuma fábula.

separações

No Lar para idosos, o homem de meia-idade abandona o quarto onde o pai está alojado, e arrastando a perna com a ajuda duma bengala, cruza quase todo o edifício até à ala onde se distribuem os quartos individuais das mulheres. Bate a uma porta e uma voz sumida diz para ele entrar. Abre a porta. A mãe está deitada na cama, soerguida por almofadões. Ao seu lado, sobre a colcha, está pousado o tabuleiro do pequeno-almoço. Beija-a na face, e sente-se aliviado por poder sentar-se no cadeirão ao seu lado e dar um pouco de descanso à perna. Ela olha-o como se visse uma aparição, o que ele atribui à luz do sol que se espelha no vidro atrás de si, criando uma aura em redor do seu rosto.
     - O teu pai está bem? - pergunta a mãe.
     - Achei-o com boa cara, mas estive lá pouco tempo. Ele lembrou-se que hoje era Domingo, e que no segundo fim-de-semana de cada mês é contigo que eu devo ficar.

hábitos

Ele entra na sala ao mesmo tempo que ela como num encontro cronometrado. Se ela segura o comando da televisão, ele insinua com gestos que era esse o movimento que pretendia fazer, roda o corpo no sofá e movimenta a cabeça e as mãos como um reflexo seu. Está ali, ao seu lado na sala, de um modo asfixiante, de exa-desesperar, copiando-a ao mínimo pormenor como se troçasse dela. Mas é apenas ali, na sala, que a sua presença sobrepuja tudo como uma maré negra porque fora daquelas quatro paredes é como se não existisse, converte-se numa sombra, uma imagem em trânsito, ténue e breve, o eco do murmúrio duma torneira, uma ou duas palavras desconexas que deixa no ar até se desvanecerem, uma peça de roupa que oscila na maçaneta da porta do quarto,o seu vulto desajeitado e desastrado a arranjar espaço dentro dos lençóis da cama, e aquele corpo encostado ao seu, lasso-e-frio-sem-desejo-nem-intenção. Mas ele sempre fora assim. Mesmo em vida.

panaceia

Um cientista encheu de alegria o governo do seu país quando decidiu oferecer -lhe a exploração dum gigantesco filão de ouro que os seus complexos instrumentos haviam detectado a 380 pés de profundidade, e cujo valor estimava que fosse suficiente para saldar completamente a dívida nacional.
   Ninguém prestou atenção a um jovem economista que estagiava num dos ministérios, que não se cansava de repetir que o investimento necessário à exploração daquele filão era três vezes superior ao valor total da dívida.

avebecedário

Um ássaro levou ara o cimo da árvore todas as letras que encontrou ara armá-las e construir um ninho. Conseguiu levar todas todas menos o  , que dessa não encontrou nenhuma.

os enganos da penumbra

paraíso,
é reencontrarmos depois da morte todas as pequenas e grandes alegrias que experimentamos e as pessoas e lugares que estiveram na sua origem.

inferno,
é descobrirmos que, afinal, ainda nem sequer morremos, e que tudo isso não foi mais do que uma erupção de luminosas memórias antes de nos dissolvermos no nada.

as nossas maravilhas

Imagem
Temos gente de todo o tipo, muitos capazes de vender a mãe por um carro topo de gama ou um alfinete de bebé, temos compadrios, padrinhos nepotistas e putativa gente séria, boys for the jobs e jobs para qualquer boy, temos riqueza onde ela é "precisa" e pobreza onde ela caiba. Temos desgovernantes e desgovernados. Com tudo isto, ninguém poderá dizer que Portugal não possui o que é preciso para ser dividamente apreciado no estrangeiro.

um poema de Jaime Salazar Sampaio

aquele português valente que encontrei outro dia
em paris, mostrou-me um artigo de jornal
onde todos os problemas portugueses, todos,
se resolviam em francês.
mexi com força o açúcar na chávena e o nosso
compatriota desapareceu.
de que lhe vale ser português (e valente)
se basta eu agitar a colher no café, 
para ele se perder no boulevard saint michel
ou na rua das pretas?
há muitos anos (vinte? trinta?) vivemos nós todos 
num país que não existe. Somos nove milhões,
quase, e não damos pela coisa.
alimentamo-nos de raiva, caruncho, montes
de anedotas e um vago amor à humanidade
que, pelo seu lado, talvez também não exista
(o amor? a humanidade?... como quiserem, é sempre duvidoso).


Poema retirado de "O Viajante Imóvel" (Plátano Editora, 1979).
Mais textos de Jaime Salazar Sampaio, no Micro-Leituras.

50 anos

O orador bebeu um trago de água, e admirou com complacência a sala cheia. Estudantes universitários, colegas, investigadores, jornalistas, curiosos.
   «Cinquenta anos, meus amigos, é, em História, o período de tempo mínimo e indispensável para se ter uma perspectiva um pouco mais objectiva e descomprometida dum facto, da sua real importância e de todas as suas implicações».
   Em seguida, com o cansaço nos gestos, arrumou e pôs de parte os papéis, e voltou a admirar os seus ouvintes.
   «Completa hoje cinquenta e um anos que nasceu a pessoa que se encontra perante vós, e permitam-me a divagação desenquadrada e fora de contexto, mas devo confessar-vos que me considero uma pessoa que não gosta de outras pessoas, que sente fascínio e devoção pelo conhecimento mas que arrasta a frustrante função de ter de o partilhar e expor a outros, uma frustração que se insere numa frustração em muito maior escala, que é aquela que sinto em cada dia  e em cada minuto por cada tarefa, acção ou gesto…

doença tramada

Prometia as coisas, garantia tudo, e depois alheava-se do que tinha dito e feito, e se alguém lho fazia ver, desculpava-se, a queixar-se de que sofria duma omite aguda.

O achado

Escavaram na praia aquilo que restava duma embarcação comercial romana. Achado fabuloso, a descoberta duma vida. Entre os destroços descobriram ânforas, dezenas delas, intactas, armazenadas em fiadas regulares, com as rolhas intactas e ainda cheias de vinho. Beberam o que conseguiram antes da chegada dos centuriões.

sui generis

Movido por uma feroz consciência ecológica perante o mundo natural, as impolutas águas, as florestas luxuriantes e as espécies animais que o rodeavam; Adão, o primeiro homem, pensou várias vezes em matar-se, mas o veneno para ratos ainda não tinha sido inventado.

A qualquer hora, em qualquer Estação do ano

Leu muito, escreveu muito e defendeu com unhas e dentes os seus rebentos até finalmente atingir a celebridade. Agora é um autor consagrado e rico que se passeia orgulhosamente pelas avenidas e salões com o seu sobretudo de pele de zibelina, o monóculo graduado, o chapéu de aba descaída; nunca dispensando de trazer no bolso do sobretudo um exemplar minúsculo de chumbo, o chumbo da mesma arma que fez tombar a celebridade.