um fragmento

  Quando saí de casa, a minha irmã andava à volta do papagaio, procurando ensinar-lhe palavras e gestos novos. Passiflora, passiflora, pasmem, pasmem, dá-me a pata, a pata, papagaio estúpido, a pata, papagaio estúpido. Com algum sucesso, tinha de o admitir, apesar de não morrer de amores pela ave, nem pela minha irmã.
   Fui ter a casa do Rui, meu amigo e comparsa, e ali os dois aprestamo-nos para irmos à caça de passarinhos. O Rui recebera pelos anos uma espingarda da pressão de ar, ainda reluzente como um facalhão de loja de cutelarias. Como a espingarda que ele tinha antes ainda disparava bem, o Rui emprestou-ma. E partimos no nosso breve safari. Não foi preciso ir muito longe. Uma fronde de figueiras nas traseiras da casa dele, junto ao caminho para o rio, albergava todos os pássaros que poderíamos desejar.
   Acoitamo-nos por detrás do tronco caído e carcomido duma árvore, e foi só disparar a gosto. Colocar chumbo na arma, fechá-la, apontar e disparar. Aos primeiros disparos, falhei um bocado, até aprender a compensar a força da brisa que soprava do fundo do vale, e o desvio da mira torta. Depois, foi só competirmos, disputando no número de presas abatidas, que íamos contabilizando com voz trocista e desafiadora. Quando nos cansamos do exercício, Rui desdobrou um saco de ráfia que trazia consigo e mergulhamos no mato sobre as figueiras para resgatar alguns dos pássaros abatidos.
   No quintal da casa do Rui, ateei a lenha miúda do grelhador, e enquanto esta ardia e fumava com força, o Rui amanhou os passarinhos. Com a brasa feita, foi só colocá-los na grelha, pincelados com um molho de frasco que foi buscar à cozinha, e que era uma criação da mãe dele, e tirá-los à medida que ficavam no ponto.
   Foi esse o nosso lanche. Avezinhas assadas, acompanhadas com pão. Estavam uma delícia, só dava um pouco de trabalho por causa dos ossinhos. À socapa, o Rui trouxe também da cozinha, uma garrafa de aguardente, que bebericamos no final, usando a tampa vermelha como cálice, bebemos bastante, até sentirmos que a cabeça nos doía, o que não exigiu muito, dada a nossa idade e a pouca veterania das nossas bebedices.
   Quando finalmente voltei a casa, estava empanturrado, e um pouco aturdido. Àquela hora do entardecer, a minha irmã estava outra vez a ensinar o papagaio, se é que não ficara ali o tempo todo. Fantástico, fantástico, abana a cabeça, abana a cabeça, a cabeça, papagaio estúpido, papagaio estúpido.
   Por estranho que pareça, fui assaltado por uma sensação de pânico ao ver a maldita ave, ao ouvir a sua voz roufenha, sepulcral. Puxei-a pelo braço, afastando-a da ave de olhar sinistro, e murmurei-lhe ao ouvido com um ar muito grave:
   -Não o ensines a disparar a pressão de ar! Estás proibida!

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