Ester

   Ester dormita numa esteira, deitada de costas. As pálpebras cerradas, os seios subindo e descendo ao ritmo da respiração. Ester está nua e parece um devaneio de artista, uma escultura no centro duma rede frágil, um retrato num vitral, no coração dum vitral, de onde irradiam veios de chumbo ou cristal em todas as direcções.
   Ester dormita, mas não dorme completamente. Do nácar da sua pele saem múltiplos fios de seda cujas extremidades se fixam nos objectos em redor - o banco de madeira, a ânfora de jardim, o tronco da nespereira e os seus ramos mais baixos, as pedras mais salientes do relvado, todos os arbustos e plantas em volta.
   Ester dormita, mas não dorme completamente.
   Aguarda.
   Por uma presa.
   E, enquanto o faz, vai repousando, a respiração a sibilar na sua boca entreaberta. De dentes alongados e recurvos.

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