En attendant

   Todos os infortúnios possíveis aconteceram naquele dia ao homem de semblante pardo que sustentava um deselegante e desconforme chapéu de coco. Acabara de chegar à cidade e um homem saiu-lhe ao encontro, aparentemente para lhe pedir esmola, mas furtou-lhe a carteira e desapareceu na multidão. Queixou-se a um polícia, mas de nada lhe valeu. Foi repreendido pela sua falta de cuidado, e intimado a aparecer na esquadra no dia seguinte para explicar como é que deixara que lhe roubassem a carteira com tanta facilidade. Quando voltou a caminhar pelo passeio movimentado em direcção à entrevista que tinha agendada, foi de novo roubado e, desta feita, não foi a pequena carteira que desapareceu mas essa sua pesada mala que arrastava com grande custo, e o malfeitor não foi um pseudo-pedinte, mas um homem de aspecto miserável com uma corda atada ao pescoço cuja ponta era puxada por um outro homem, talvez seu dono ou senhor. Nenhum dos dois fugiu dele, nem mostrou culpa pelo acto. O escravo tirou-lhe calmamente a pasta da mão, e o seu dono aquiesceu com a benevolência dum homem que vê o seu cachorro a urinar na perna doutro homem.
   O homem de semblante pardo achou por bem nada fazer e muito menos queixar-se à polícia. No fim de contas, a mala era extremamente pesada e difícil de carregar, e até podia acontecer que ele e os dois homens se voltassem a encontrar, o que significaria que aquele gesto criminoso se revelaria afinal, muito providencial.
   Assim pensava o homem se semblante pardo quando ouviu a sair da goela duma viela um aflitivo grito de criança. Entrou nela para ir em socorro do infante e deu de caras com um grupo de malfeitores, que se servia dos gritos duma criança para atrair as suas vítimas. Duas delas jaziam já no chão, mortas, e o mesmo destino foi-lhe atribuído com um cirúrgico corte de navalha na jugular. Morto o homem de semblante pardo a quem, em vida, todos conheceram por Godot, os bandidos procuraram nele alguma coisa de valor - uma carteira, um anel de ouro ou um relógio de prata, e nada encontrando que valesse a pena, contentaram-se em lhe furtar os sapatos e esse chapéu de coco deselegante e desconforme. Os corpos dos homens foram deixados na viela, e as pessoas que os viam, não lhes tocavam, antes passavam ao largo com medo que tivessem perecido de tifo ou cólera. Godot e os outros esperaram uma eternidade para terem um enterro decente.

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