Despertar

   Sentara-se há momentos no banco da paragem dos autocarros, quando vê uma multidão aos gritos a atravessar a rua na sua direcção.
   - É ele, é ele! – gritam, coléricos, brandindo facas e machados.
   Abandona a paragem dum salto e corre rua abaixo, com a multidão no seu encalço.
   Dobra uma esquina e continua a correr.
   - Matem-no, matem-no!
   Ninguém o ajuda, ninguém quer saber, cruza-se com pessoas no passeio, a sair de carros e lojas, passa por polícias, mas ninguém lhe dá importância, e continua a correr e a multidão atrás dele, e cada vez são mais, mais e mais pessoas iradas e armadas que engrossam o número dos seus perseguidores.
   Alcançou o parque da cidade e continua a correr, tentando dissimular-se entre as árvores e arbustos. Anoitece, é uma boa ajuda, mas os seus perseguidores acendem archotes, e gritam a espaços, indicando que ainda o vêem. Aumenta a velocidade da corrida, tropeça na raiz duma árvore e cai, perdendo os sentidos.
   Acorda umas horas mais tarde no meio da mais completa escuridão. Não existem gritos, acusações, incitamentos. Suspira fundo. Tudo não passara dum sonho. Quando se levanta do chão, a luz dum archote encadeia-o, e uma única e gritante voz aguda fá-lo estremecer.
   - Encontrei-o, está aqui, vamos matá-lo!

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