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confidência

   Não sei o que é que vocês pensam sobre o assunto, mas eu cá, sempre soube que não vou assistir ao meu funeral. Irão os familiares mais chegados, que os outros nem em vida quis saber deles. Também irão alguns amigos, poucos, muito poucos, talvez um, se não estiver a dar futebol no canal pago, ou se estiver programado e ele tiver de sair de casa à mesma para ir comprar umas minis porque descobriu que o frigorífico estava deserto. Irão também meia-dúzia de colegas de trabalho, mais por obrigação do que por afeição, e  talvez algum vizinho mais ocioso, e decerto umas vinte pessoas mais, completos estranhos que nunca antes vi e que certamente não reencontrarei, do tipo que sempre comparece nestas situações por mera necrofilia. Representantes do poder político-económico-político, não espero nenhum, e se aparecer, não será a convite; sacerdotes. também não, a menos que uma árvore, um sorriso de mulher, um rochedo, uma paisagem da infância, uma onda marinha ou uma canção na memória, aí se possam deslocar, por iniciativa e vontade próprias, porque essas foram das poucas coisas que inspiraram em mim alguma sorte de sentimento religioso.

   Mas divago, perco-me. Eu não vou assistir ao meu próprio funeral e, por esta altura, já deve ser evidente para vocês a razão disso: abomino situações tristes e deprimentes.

Geena

                No rincão das matas enegrecidas, onde as árvores carbonizadas se assemelhavam a costelas fraturadas do corpo de uma ...