INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

Até ao fim

   O velho prédio está de tal forma decrépito, que a edilidade decidiu evacuar os seus habitantes, e emparedar as janelas e portas do piso térreo. Mas o prédio continua lá, como se um último alento de moribundo o impedisse de ruir. E mesmo a cair aos pedaços, o edifício conserva traços duma majestade perdida prestes a dissolver-se no vazio, no gradeamento em ferro das varandas oitocentistas que se contorcem em espirais oníricas, ou nos estores acastanhados que pendem nas janelas como pálpebras sonolentas, que somos levados a imaginar como antes foram, novos e brancos, a descerrar-se diante de manhãs de sol para revelar rostos fechados ou alegres, como nos retratos dos velhos álbuns de família.
   A porta principal, barricada por tijolos e cimentos, ergue-se uns dois metros para dentro da face do prédio, proporcionando uma reentrância que durante gerações serviu de abrigo aos moradores que fugiam da chuva ou da canícula, ou, ao invés, lhes concedia uma breve terra-de-ninguém, onde as pessoas se agasalhavam ou aos filhos, se abria um chapéu de chuva, ou se namorava a medo na confidência das paredes mudas. Na parede da direita, estende-se o dominó de caixas de correio de testa quadrangular, a maior parte delas, vandalizadas, ou abertas pela ferrugem na chapa e ferragens.
    Dizer que o prédio ainda está morto, seria afirmar que já nada ou ninguém o habita, o que não é, de todo, verdade.
   Todas as manhãs, mais perto da hora de almoço, o prédio recebe a visita duma anciã que nele morou durante décadas a fio, e ali criou os seus filhos e netos. A velha senhora, arrasta-se passeio acima até à entrada do prédio, sobe ofegante os parcos degraus até às caixas de correio, e abre uma delas com uma pequena chave. Olha lá para dentro, como se esperasse encontrar alguma coisa e, como se não se fiasse nos seus olhos, mete a mão e tacteia o interior. Faz sempre uma cara de desalento. Depois fecha cuidadosamente a caixa e guarda a sua preciosa chave na bolsa, para saber onde está quando a quiser voltar a usar na manhã seguinte.
   Ninguém sabe que carta é que ela espera, nem nunca ninguém se atreveu a perguntar-lhe. Aventam-se hipóteses, um filho perdido no mundo, um amante de outros tempos, uma pessoa amiga que pode mudar a sua vida.
   Naturalmente, que deve ser alguma carta importante, um caso de vida ou de morte.
   E a senhora continua a vir todas as manhãs, espera e acredita.
   Talvez seja isso, o que a agarra à vida.
   E ao prédio, com ela.

Geena

                No rincão das matas enegrecidas, onde as árvores carbonizadas se assemelhavam a costelas fraturadas do corpo de uma ...