INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

naos=caos

   Na casa onde, durante tantos, anos viveu a Esperança, todas as janelas e portas permanecem fechadas. Na frontaria, um papel da Funerária anuncia o seu falecimento. Uma cruz negro-cinza, o nome, Esperança, e as datas de nascimento e morte. Não há retrato, ninguém se lembrou de lhe tirar um quando ela era feliz e acreditava no futuro e nas pessoas e, para o fim, seria uma maldade fazê-lo quando a sua decrepitude e desesperança eram evidentes.

   Foi um golpe, e é um golpe tremendo vivermos sem a esperança.

   Quem, ou o quê, ocupará o seu lugar?

o caminho de volta

   Era uma vez um menino apressado num caminho de gravilha à entrada dum bosque. O menino encontrou uma tartaruga, uma velha e sábia tartaruga, que lhe disse: "Descansa um pouco. Eu sei de muitas histórias e vou contar-te uma. A história começa assim: Era uma vez um menino apressado num caminho de gravilha à entrada dum bosque...".

Ester

   Ester dormita numa esteira, deitada de costas. As pálpebras cerradas, os seios subindo e descendo ao ritmo da respiração. Ester está nua e parece um devaneio de artista, uma escultura no centro duma rede frágil, um retrato num vitral, no coração dum vitral, de onde irradiam veios de chumbo ou cristal em todas as direcções.
   Ester dormita, mas não dorme completamente. Do nácar da sua pele saem múltiplos fios de seda cujas extremidades se fixam nos objectos em redor - o banco de madeira, a ânfora de jardim, o tronco da nespereira e os seus ramos mais baixos, as pedras mais salientes do relvado, todos os arbustos e plantas em volta.
   Ester dormita, mas não dorme completamente.
   Aguarda.
   Por uma presa.
   E, enquanto o faz, vai repousando, a respiração a sibilar na sua boca entreaberta. De dentes alongados e recurvos.

confidência

   Não sei o que é que vocês pensam sobre o assunto, mas eu cá, sempre soube que não vou assistir ao meu funeral. Irão os familiares mais chegados, que os outros nem em vida quis saber deles. Também irão alguns amigos, poucos, muito poucos, talvez um, se não estiver a dar futebol no canal pago, ou se estiver programado e ele tiver de sair de casa à mesma para ir comprar umas minis porque descobriu que o frigorífico estava deserto. Irão também meia-dúzia de colegas de trabalho, mais por obrigação do que por afeição, e  talvez algum vizinho mais ocioso, e decerto umas vinte pessoas mais, completos estranhos que nunca antes vi e que certamente não reencontrarei, do tipo que sempre comparece nestas situações por mera necrofilia. Representantes do poder político-económico-político, não espero nenhum, e se aparecer, não será a convite; sacerdotes. também não, a menos que uma árvore, um sorriso de mulher, um rochedo, uma paisagem da infância, uma onda marinha ou uma canção na memória, aí se possam deslocar, por iniciativa e vontade próprias, porque essas foram das poucas coisas que inspiraram em mim alguma sorte de sentimento religioso.

   Mas divago, perco-me. Eu não vou assistir ao meu próprio funeral e, por esta altura, já deve ser evidente para vocês a razão disso: abomino situações tristes e deprimentes.

um fragmento

  Quando saí de casa, a minha irmã andava à volta do papagaio, procurando ensinar-lhe palavras e gestos novos. Passiflora, passiflora, pasmem, pasmem, dá-me a pata, a pata, papagaio estúpido, a pata, papagaio estúpido. Com algum sucesso, tinha de o admitir, apesar de não morrer de amores pela ave, nem pela minha irmã.
   Fui ter a casa do Rui, meu amigo e comparsa, e ali os dois aprestamo-nos para irmos à caça de passarinhos. O Rui recebera pelos anos uma espingarda da pressão de ar, ainda reluzente como um facalhão de loja de cutelarias. Como a espingarda que ele tinha antes ainda disparava bem, o Rui emprestou-ma. E partimos no nosso breve safari. Não foi preciso ir muito longe. Uma fronde de figueiras nas traseiras da casa dele, junto ao caminho para o rio, albergava todos os pássaros que poderíamos desejar.
   Acoitamo-nos por detrás do tronco caído e carcomido duma árvore, e foi só disparar a gosto. Colocar chumbo na arma, fechá-la, apontar e disparar. Aos primeiros disparos, falhei um bocado, até aprender a compensar a força da brisa que soprava do fundo do vale, e o desvio da mira torta. Depois, foi só competirmos, disputando no número de presas abatidas, que íamos contabilizando com voz trocista e desafiadora. Quando nos cansamos do exercício, Rui desdobrou um saco de ráfia que trazia consigo e mergulhamos no mato sobre as figueiras para resgatar alguns dos pássaros abatidos.
   No quintal da casa do Rui, ateei a lenha miúda do grelhador, e enquanto esta ardia e fumava com força, o Rui amanhou os passarinhos. Com a brasa feita, foi só colocá-los na grelha, pincelados com um molho de frasco que foi buscar à cozinha, e que era uma criação da mãe dele, e tirá-los à medida que ficavam no ponto.
   Foi esse o nosso lanche. Avezinhas assadas, acompanhadas com pão. Estavam uma delícia, só dava um pouco de trabalho por causa dos ossinhos. À socapa, o Rui trouxe também da cozinha, uma garrafa de aguardente, que bebericamos no final, usando a tampa vermelha como cálice, bebemos bastante, até sentirmos que a cabeça nos doía, o que não exigiu muito, dada a nossa idade e a pouca veterania das nossas bebedices.
   Quando finalmente voltei a casa, estava empanturrado, e um pouco aturdido. Àquela hora do entardecer, a minha irmã estava outra vez a ensinar o papagaio, se é que não ficara ali o tempo todo. Fantástico, fantástico, abana a cabeça, abana a cabeça, a cabeça, papagaio estúpido, papagaio estúpido.
   Por estranho que pareça, fui assaltado por uma sensação de pânico ao ver a maldita ave, ao ouvir a sua voz roufenha, sepulcral. Puxei-a pelo braço, afastando-a da ave de olhar sinistro, e murmurei-lhe ao ouvido com um ar muito grave:
   -Não o ensines a disparar a pressão de ar! Estás proibida!

fait-divers

   Sala de espera do consultório do médico. Pego timidamente num jornal pousado numa mesinha e leio as gordas. E digo timidamente, porque esperava ser chamado a qualquer instante. Mas não sou. Como a espera se prolongasse, começo a ler as magras e, uma hora depois, quando finalmente sou chamado para a consulta, já começara a ler as anorécticas.

En attendant

   Todos os infortúnios possíveis aconteceram naquele dia ao homem de semblante pardo que sustentava um deselegante e desconforme chapéu de coco. Acabara de chegar à cidade e um homem saiu-lhe ao encontro, aparentemente para lhe pedir esmola, mas furtou-lhe a carteira e desapareceu na multidão. Queixou-se a um polícia, mas de nada lhe valeu. Foi repreendido pela sua falta de cuidado, e intimado a aparecer na esquadra no dia seguinte para explicar como é que deixara que lhe roubassem a carteira com tanta facilidade. Quando voltou a caminhar pelo passeio movimentado em direcção à entrevista que tinha agendada, foi de novo roubado e, desta feita, não foi a pequena carteira que desapareceu mas essa sua pesada mala que arrastava com grande custo, e o malfeitor não foi um pseudo-pedinte, mas um homem de aspecto miserável com uma corda atada ao pescoço cuja ponta era puxada por um outro homem, talvez seu dono ou senhor. Nenhum dos dois fugiu dele, nem mostrou culpa pelo acto. O escravo tirou-lhe calmamente a pasta da mão, e o seu dono aquiesceu com a benevolência dum homem que vê o seu cachorro a urinar na perna doutro homem.
   O homem de semblante pardo achou por bem nada fazer e muito menos queixar-se à polícia. No fim de contas, a mala era extremamente pesada e difícil de carregar, e até podia acontecer que ele e os dois homens se voltassem a encontrar, o que significaria que aquele gesto criminoso se revelaria afinal, muito providencial.
   Assim pensava o homem se semblante pardo quando ouviu a sair da goela duma viela um aflitivo grito de criança. Entrou nela para ir em socorro do infante e deu de caras com um grupo de malfeitores, que se servia dos gritos duma criança para atrair as suas vítimas. Duas delas jaziam já no chão, mortas, e o mesmo destino foi-lhe atribuído com um cirúrgico corte de navalha na jugular. Morto o homem de semblante pardo a quem, em vida, todos conheceram por Godot, os bandidos procuraram nele alguma coisa de valor - uma carteira, um anel de ouro ou um relógio de prata, e nada encontrando que valesse a pena, contentaram-se em lhe furtar os sapatos e esse chapéu de coco deselegante e desconforme. Os corpos dos homens foram deixados na viela, e as pessoas que os viam, não lhes tocavam, antes passavam ao largo com medo que tivessem perecido de tifo ou cólera. Godot e os outros esperaram uma eternidade para terem um enterro decente.

responsabilidade

   - Já és um homenzinho! - declarou a mãe - e já podes ajudar, tomando conta dos teus irmãos mais novos...
   - Eu sei! - concordou, sentindo o peso da responsabilidade sobre os ombros.
  A mãe, mais tranquila, deixou-os. Os irmãos mais novos dentro da pequena jaula e ele, junto à porta da jaula, de guarda, para que eles não escapassem.
  Eles e ele à espera que chegasse o talhante.

Como eu vejo o conto

(como se isso importasse)

Idealizo o conto como uma sinuosa linha do horizonte que desenha a orgânica silhueta de casas e árvores ou mesmo a fluída superfície das ondas, uma linha que podemos encontrar ou construir, sendo que, quando acontece encontrá-la, construímos o conto ao nosso modo, recriamos o que nos é oferecido. 
Essa linha inicia-se e termina em todo o tipo de seres, experiências e mundos e inclusive, por impossível que isso pareça, entre esses mundos podemos também encontrar - eventualmente - o mundo real.

cidade invisível

   Há três anos, mais coisa, menos coisa, que tenta encontrar a saída da cidade onde se encontra. Não sabe como foi ali parar, nem sequer, como ela se chama. E o mais estranho é que quando pergunta o seu nome, respondem-lhe que se chama Cidade Eterna, mas quando inquire ao seu interlocutor se ele refere a Roma, este nega sempre, com extrema e tranquila polidez.


Mão que fere - 1

   O seu pai tem a mão pesada, e quando encontrava oportunidade ou pretexto, arriava-lhe de bom grado. Depois disso, o pai ficava a pensar no assunto, e as conclusões a que chegava eram quase sempre as mesmas: “Tanta gente com bons filhos, que os estimam e cuidam deles, e a mim tinha logo de me calhar um que gosta de bater!”.

Mão que fere - 2

   O seu pai tem a mão pesada e bate-lhe a gosto e a contragosto, quando está chateado e quando está feliz. E as coisas foram andando nesse pé enquanto ele crescia, e ganhava corpo e voz; e um dia, por fim, depois de levar uma surra do pai, endireitou a coluna vertebral e prometeu-lhe: “Se me voltas a bater, ficas sem uma mão!”. O pai riu-se, divertido. Essa foi, para o seu pai, a parte divertida da história. Menos piada achou, quando os amigos o brindaram com a alcunha de maneta.


Despertar

   Sentara-se há momentos no banco da paragem dos autocarros, quando vê uma multidão aos gritos a atravessar a rua na sua direcção.
   - É ele, é ele! – gritam, coléricos, brandindo facas e machados.
   Abandona a paragem dum salto e corre rua abaixo, com a multidão no seu encalço.
   Dobra uma esquina e continua a correr.
   - Matem-no, matem-no!
   Ninguém o ajuda, ninguém quer saber, cruza-se com pessoas no passeio, a sair de carros e lojas, passa por polícias, mas ninguém lhe dá importância, e continua a correr e a multidão atrás dele, e cada vez são mais, mais e mais pessoas iradas e armadas que engrossam o número dos seus perseguidores.
   Alcançou o parque da cidade e continua a correr, tentando dissimular-se entre as árvores e arbustos. Anoitece, é uma boa ajuda, mas os seus perseguidores acendem archotes, e gritam a espaços, indicando que ainda o vêem. Aumenta a velocidade da corrida, tropeça na raiz duma árvore e cai, perdendo os sentidos.
   Acorda umas horas mais tarde no meio da mais completa escuridão. Não existem gritos, acusações, incitamentos. Suspira fundo. Tudo não passara dum sonho. Quando se levanta do chão, a luz dum archote encadeia-o, e uma única e gritante voz aguda fá-lo estremecer.
   - Encontrei-o, está aqui, vamos matá-lo!

frugalidade

- Comemos demais nestes dias - avaliou a mulher ao seu lado na cama.
- Não comemos nada!!
- É claro que sim. Primeiro foi o Natal e o festim da Passagem do ano, depois os jantares, os aniversários, e as festas das chouriças.
- Nham! Não comemos nada por aí além!
- Muito, comemos muito, quilos e quilos de carne e peixe, bolos e doces. Reconhece!
- Comemos um pouquito mas não mais do que noutras alturas do ano.
- Está bem, não vamos discutir agora, porque sinto-me demasiado cheia para me irritar. Vou ver um pouco de televisão. Onde é que deixaste o comando?
- Ficou em cima da cómoda...
- Tu é que o deixaste lá, por isso, cabe-te a ti rolar até á cómoda para o ir buscar!

Esfinges

   Viu dois cães debaixo das arcadas, na zona histórica da cidade. Estavam ao fresco, fugindo do sol que castigava o largo a descoberto. Olhou-os com desdém (um quase-asco). Olhavam para ele com olhos de gente, suplicantes olhos de gente. Quando ia passar ao seu lado, um deles esticou para ele a patinha e, em troca, recebeu um valente pontapé nas costelas.
   - Porque é que nos estás a bater? - perguntou o companheiro - só estamos a pedir esmola!

Treino de campo

   Há quatro dias que o deixaram sozinho no deserto para o seu treino de campo.
   Já não há víveres, nem água. Não existe ninguém, pessoa ou criatura.
   Desconhece quando o virão buscar, ou se alguma vez o farão.
   Tem sede e tem fome, e na sombra duma lapa, contempla a sua própria mão que segura o fuzil; e ela parece-lhe convidativamente  rosada e sumarenta.

Sawyer / sour


  O menino louro percorria a berma do riacho com a sua cana de pesca, procurando um bom lugar para se sentar e tentar a sua sorte. O caminho era acidentado, porque tinha de escalar as pequenas rochas da margem, e não podia contorná-las por fora, porque era muito denso o emaranhado de arbustos, árvores e trepadeiras da mata. Numa dessas pequenas escaladas, e sempre sem tirar os olhos das águas turvas para avaliar a abundância de peixes, viu algo estranho no fundo das águas - uma flor. Era estranho, parecia mesmo uma margarida com o seu coração acastanhado e a sua coroa de pétalas brancas, mas isso era impossível, as margaridas não cresciam debaixo de água, a menos que um braço de rio tivesse acabado de cruzar as suas margens habituais e a tivesse submergido no processo. Ficou um instante, pasmado, a olhá-la. Pensava na margarida, e pensava em Becky, de olhos castanhos e cabelo encaracolado, a mordiscar um fio de erva enquanto os dois conversavam empoleirados no tabuado da vedação de madeira. Becky...pousou a cana na rocha, depositou em cima dela o chapéu de palha e as sandálias velhas e mergulhou no rio. Pensou que seria simples apanhar aquela flor, mas quando a sua mão estendida ia apanhá-la, um torvelinho da corrente, empurrou-o de lado e atirou-o contra uma rocha. Lutou para nadar até à superfície mas o seu corpo ficou outra vez enrolado nas águas e sentiu-se a ser arrastado pelos seixos do fim e atirado novamente contra uma rocha. Perdeu os sentidos, e quando acordou estava sentado num lugar na penumbra. O rio e a sua corrente desenrolavam-se a pouca distância, mas não ouvia o seu som porque parecia estar do outro lado dum vidro espesso. Avistou os seus pertences em cima da rocha, e a curva do rio onde despontava a margarida. Começava a inquietar-se por não saber onde se encontrava, quando sentiu um braço meigo cingir-lhe o peito, e uma presença querida junto a si, que o envolvia no aroma de lavanda que os cabelos da sua mãe sempre libertavam.

Advertência

- Não te esqueças de que hoje vamos comer a casa dos meus pais.
- Eu sei! Já preparei o antídoto!

Até ao fim

   O velho prédio está de tal forma decrépito, que a edilidade decidiu evacuar os seus habitantes, e emparedar as janelas e portas do piso térreo. Mas o prédio continua lá, como se um último alento de moribundo o impedisse de ruir. E mesmo a cair aos pedaços, o edifício conserva traços duma majestade perdida prestes a dissolver-se no vazio, no gradeamento em ferro das varandas oitocentistas que se contorcem em espirais oníricas, ou nos estores acastanhados que pendem nas janelas como pálpebras sonolentas, que somos levados a imaginar como antes foram, novos e brancos, a descerrar-se diante de manhãs de sol para revelar rostos fechados ou alegres, como nos retratos dos velhos álbuns de família.
   A porta principal, barricada por tijolos e cimentos, ergue-se uns dois metros para dentro da face do prédio, proporcionando uma reentrância que durante gerações serviu de abrigo aos moradores que fugiam da chuva ou da canícula, ou, ao invés, lhes concedia uma breve terra-de-ninguém, onde as pessoas se agasalhavam ou aos filhos, se abria um chapéu de chuva, ou se namorava a medo na confidência das paredes mudas. Na parede da direita, estende-se o dominó de caixas de correio de testa quadrangular, a maior parte delas, vandalizadas, ou abertas pela ferrugem na chapa e ferragens.
    Dizer que o prédio ainda está morto, seria afirmar que já nada ou ninguém o habita, o que não é, de todo, verdade.
   Todas as manhãs, mais perto da hora de almoço, o prédio recebe a visita duma anciã que nele morou durante décadas a fio, e ali criou os seus filhos e netos. A velha senhora, arrasta-se passeio acima até à entrada do prédio, sobe ofegante os parcos degraus até às caixas de correio, e abre uma delas com uma pequena chave. Olha lá para dentro, como se esperasse encontrar alguma coisa e, como se não se fiasse nos seus olhos, mete a mão e tacteia o interior. Faz sempre uma cara de desalento. Depois fecha cuidadosamente a caixa e guarda a sua preciosa chave na bolsa, para saber onde está quando a quiser voltar a usar na manhã seguinte.
   Ninguém sabe que carta é que ela espera, nem nunca ninguém se atreveu a perguntar-lhe. Aventam-se hipóteses, um filho perdido no mundo, um amante de outros tempos, uma pessoa amiga que pode mudar a sua vida.
   Naturalmente, que deve ser alguma carta importante, um caso de vida ou de morte.
   E a senhora continua a vir todas as manhãs, espera e acredita.
   Talvez seja isso, o que a agarra à vida.
   E ao prédio, com ela.

Intuição

   Foi a intuição, primeiro do que a ciência, quem lhe fez saber que um novo ser crescia dentro de si. Sentiu alegria e felicidade porque sempre o desejara. Ainda antes de ir ao médico, limpou e arejou o quarto que sempre destinara para ser o futuro quarto de uma eventual criança. Lavou bonecos de pelúcia que haviam sido seus, decorou o quarto com o que tinha à mão, e saiu para ir comprar roupinhas de bebé, amarelas, que é a cor mais certa da incerteza.Os dias que se seguiram empregou-os de forma idêntica. A decorar, planear, comprar, preparar a vinda da nova criatura. E no meio de tanta azáfama, lá arranjou algum tempo para ir por fim ao médico. A resposta veio alguns dias depois. De facto, um novo ser dilatava-se no seu ventre, mas não era um bebé, mas um cancro.
   Havia dias, em que se cansava de ter sempre razão.

Rainha

                Subiu lesto os parcos degraus que separavam o átrio do hotel do recinto sobrelevado onde haviam instalado a receção. Ab...