Sedimentos

    O número quatro da Rua das Bétulas, no bairro "operário" da cidade, é uma vivenda de dois pisos, com alpendres, telheiros e sacadas por todo o lado. Os primeiros moradores da casa de que as pessoas se lembram, era um casal que aí vivia, os Sousa. Diz-se que haviam vivido em Inglaterra e que no interior da casa isso era notório. Uma sala ampla com um balcão corrido num dos lados, com copos e canecas de vidro dependuradas como num pub, aparatos e acessórios de sistemas de aquecimento, muitos vidros e vidraças para receber a luz do Sol por ténue ou breve que ela surja. Mas o que os próprios Sousa apontavam como inequivocamente britânico era o papel-de-parede que revestia quase todas as divisões, e todas as que compunham o quadrilátero das paredes exteriores da casa. O primeiro papel de parede que eles elegeram tinha o motivo dum tecido de xadrês, o escocês, como nos kilts dos ditos e nas camisas de flanela dos pescadores portugueses. Como a humidade grassava naquela casa e o papel-de-parede desfazia-se como papel à chuva, os motivos do papel-de-parede foram sendo mudados ao mesmo ritmo, unicolores lisos, com listas, com motivos de flor-de-lis, de orquídeas, de animais da savana, silhuetas de andorinhas, de borboletas, de nuvens, de nus, de nozes, de ninfas... Os papéis iam-se sobrepondo em camadas, regendo o mais recente sem que o mais antigo fosse arrancado, e as paredes foram-se libertando da tirania dos ângulos e linhas rectas para apresentarem superfícies arredondadas, boleadas e curvilíneas como a anatomia de raparigas na tenra adolescência. É claro que estas remodelações tiveram um fim, morreram como morrem as pessoas. Neste caso, morreu apenas um dos membros do casal e o cônjuge foi viver para casa dum dos filhos. O número quatro da Rua das Bétulas esteve um tempo sem ninguém até ser comprada por um casal jovem, que se casara há menos de um ano. Este casal, que não partilhava os gostos anglófilos dos Sousas, nem a sua predilecção obsidiante pelo papel-de-parede, determinou desde o primeiro segundo no interior daquela casa, que toda aquela papelada tinha de ser removida por completo. Contrataram-se operários para o trabalho, que começaram a cortar o papel camada a camada, arrancando-a como se descascassem uma cebola. E o facto é que, quando chegaram ao último, ou melhor, quando arrancaram o último papel de parede, o escocês como o kilt dos ditos e as camisas de flanela dos pescadores, descobriram que não havia mais nada por trás, apenas a visão desembaraçada do jardim exterior da casa.

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