o ponto de não-retorno

   A sua relação afectiva e sexual com Odete era marcada pela intermitência. Odete vinha ter com ele, ou ele ia ter com ela. Para cá e para lá. Na casa dum ou na do outro, no carro, nalgum lugar, lá iam tecendo a tapeçaria pálida dos seus quereres e sentires.Uma vez ela sugerira-lhe que vivessem juntos, e não passara da sugestão aventada, e esquecida; noutra ocasião, calhou a ele concluir a meio duma conversa, que seria mais confortável viverem os dois no mesmo sítio - sim, confortável fora a palavra que usara, como se mencionasse um colchão ortopédico ou uma almofada para pôr debaixo do rabinho num jogo de futebol. Talvez por isso, a proposta velada não teve seguimento. E as coisas arrastavam-se nesta urdidura surda, quando ele se viu sentado no barbeiro à espera de vez enquanto folheava uma revista com sete meses de idade. No rodapé duma entrevista, para preencher espaço vazio, mencionava-se um colorido facto histórico - Hernán Cortés, querendo motivar os seus homens a empreenderem a conquista do império Asteca, mandou incendiar os navios que os haviam levado até ali. Era um sinal claro e inequívoco do que tinham de fazer, tal como aquela nota de rodapé deflagrou aos seus olhos como um sinal providencial daquilo que ele próprio tinha de fazer.
   Umas horas depois, o tempo que precisou para ter o cabelo cortado e a barba feita, elegantizar-se e ultimar alguns preparativos, pegou no seu velhinho Fiat 127, e partiu ao encontro de Odete com a viatura a roncar e fumar como uma locomotiva velha. Eram já onze e trinta da noite quando lá chegou. Odete morava num quarto alugado na periferia da cidade, num prédio a apenas trinta metros da Escola onde agora leccionava com as mesmas regalias e estabilidade dum soldado raso da Legião Estrangeira. Seria problemático incendiar o carro diante do prédio, pelo que procurou um lugar vazio, o que só veio a encontrar no parque de estacionamento, completamente deserto, dum supermercado vizinho. Embebeu um pano com gasolina, e pendurou-o à saída do depósito como uma mecha monstruosa, e pegou-lhe fogo, fugindo dali a sete pés. A uma distância prudente, assistiu à explosão do pobre carro, com a expressão grave e soberana dum conquistador predestinado a derrubar impérios.
   Procurou Odete na sua morada. Odete não quis saber do seu carro nem de Cortéz. Odete já não o queria na vida dela porque se cansara e já não estava só. Sem protestar, voltou ao parque de estacionamento, e foi observar o rescaldo do seu carro incinerado. Na palma da mão, virava e revirava uma fina aliança em ouro, o único ouro que pudera trazer do seu império Asteca.

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