n-a-t-a-l

    Não quero que se deixem influenciar por mim, nem pretendo crocitar como uma ave agourenta, mas posso afirmar-vos que o Natal já não existe, foi destruído. Por quem? Por muitas pessoas e por nenhuma em especial. Eu vi! Vi tudo o que fizeram! Entraram portas adentro pela casa das minhas evocações, e destruíram a árvore de natal e os enfeites, despedaçaram no presépio as figuras toscas e os relevos em pedra e musgo que sustentavam casebres, moinhos, pontes e castelos. À árvore - pinheiro autêntico a cheirar a resina e a caruma - não satisfeitos em derrubá-la para a despojar de todo o enfeite, esgravataram no seu tronco como lémures ansiosos até exumarem nele pálidas lagartas que me apresentaram como uma iguaria inestimável, para que eu me apercebesse da podridão que lavrava sob a epiderme das decorações. Mas não foram só as decorações ou os enfeites que foram destruídos, foi tudo! A música, os risos, a ansiedade primaveril e luminosa, o odor dos cozinhados, a tentação alegre dos doces e bolos dispostos na mesa grande da família. Esta gente destruiu tudo, esgarçou, estilhaçou, estraçalhou, pisoteou tudo. Antes de me deixarem a sós com as ruínas das minhas memórias, houve um de entre eles que se aproximou de mim, deu-me duas pancadinhas no ombro e, como se pretendesse animar-me, lembrou:
   - O que é que tu estavas à espera? Tornaste-te um adulto!

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