Marcas

   Pequena fila na caixa do supermercado, um casal de idade dispõe os artigos na banda rolante, ela muito domingueira, de vestido pérola, colar de pérolas de vidro e cabelo armado num castelo de laca; e ao seu lado, o marido, de fatiota e lenço no bolso do casaco.O homem não está com meias medidas e e atrai as atenções com uma cantiguinha que improvisa sobre o sol e a chuva, libertando o seu cântico desafinado enquanto agita os ombros ao ritmo do repertório. Atrás deles, arruma-se na fila um casal jovem que os conhece.
   - Como está? - Pergunta o homem mais novo, com uma pergunta clássica do género: responde-qualquer-coisa-vaga-só-para-não-dizeres-que-não-te-dirigi-a-palavra.
   - Ah meu amigo! - responde - por aqui ando, a cantar para alegrar os corações dos outros.
   - Pelo menos está bem disposto... - respondeu o mais novo, com a voz em diminuendo para rematar o breve diálogo.
   - Ah! não é bem assim! - o crescendo da sua voz não augurava nada de bom - ainda hoje estive a chorar, a minha mulher que o diga. Estava a falar com uma moça nossa amiga, e veio à conversa a guerra no Ultramar, e pumba! - comecei a chorar só de falar nisso.
   - Aquilo deixou marcas, não é?
   - Se deixou, só quem lá esteve é que consegue perceber isso. Aquilo não foi só uma guerra, não foi como aquelas excursões armadas que a Nato e a ONU fazem, não senhor, aquilo foi um inferno na terra, pá, aquilo marcou as pessoas dos dois lados como um ferro em brasa na pele duma rês.
   - Pois, é complicado...
   - Complicado? Complicado é preencher o IRS, aquilo foi o diabo, e o diabo não larga as pessoas que estiveram numa guerra, e entra-lhes nos sonhos com a voz e a cara daqueles que nós matamos e torturamos lá. Ou você pensa que aquilo foi uma brincadeira?
   - Não, claro que não, eu ainda não era nascido, mas sei que não foi! Esteve lá muito tempo?
   - Não, eu não cheguei a ir. Quem lá esteve foi um primo meu, o Bicas. Epá! As coisas que o gajo conta, pá?! Nem lhe passam p'la cabeça, pá!!

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