Carrêgo

   Quis o acaso que eu tivesse parado o carro à porta do café da aldeia, quando Juan Amalte se aproximava pelo passeio, a arrastar-se com movimentos penosos. Figura bizarra, a do Juan Amalte, cujo nome e história me contaram depois, a meu pedido. Imaginem o homem mais doente que possam imaginar, e podem titulá-lo de Juan Amalte sem qualquer injustiça. Torto, retorcido, os olhos raiados de sangue, apoiado num cajado grosso com toda a força dos seus braços porque as pernas já quase não o sustinham, e bastaria olhar com um pouco mais de atenção para descortinar na pele das mãos, do pescoço e da cara, altos sobre a pele, dos tumores emergentes que se formavam.
   Entrei no café para comer qualquer coisa e Amalte entrou também. Já todos sabiam ao que ele vinha. Juntaram-se à sua volta - homens e mulheres de diferentes idades - e imprimiram as mãos sobre o seu corpo enquanto ele gemia e gritava de dor e, logo em seguida, para meu completo espanto, começaram a insultá-lo e expulsaram-no dali com murros e pontapés. Enquanto o pobre homem subia a rua como podia, as pessoas no interior do café retomaram a sua compostura habitual como se nada se tivesse passado.
   Rebuscando alguma coragem, perguntei à dona do estabelecimento a razão daquela cena e o papel daquele homem estranho. Juan Amalte, explicou-me ela sem pejo, era o carrêgo da aldeia, pagavam-lhe para receber no seu corpo as faltas e os crimes das pessoas, e enquanto o fazia, a sua saúde e aparência definhavam de inúmeras formas diferentes. Quando a carga que tinha sobre si se tornava quase insuportável, ele abandonava a aldeia e subia à montanha onde, depois de processos e rezas que só ele conhecia, se banhava no Olho d'Água onde nascia o rio Pane que passava junto à aldeia, da parte do levante. Quando descia da montanha, Juan era um outro homem, forte e saudável como um estivador, e reinstalava-se na sua casa de sempre, vivendo confortavelmente do que os outros lhe davam.
   O meu trabalho como caixeiro-viajante, e os compromissos que já tinha agendado, não permitiram que me demorasse por ali até à volta de Juan Amalte, mas anotei mentalmente que teria de voltar àquela aldeia para voltar a ver o carrêgo dos seus habitantes. Por motivos vários que se prendem com a carteira de clientes e com as flutuações do negócio, apenas consegui fazê-lo largos meses depois e, mal lá entrei, dirigi-me de novo ao café, a única referência que tinha no local. A dona não me reconheceu, mas contei-lhe que havia lá estado antes e perguntei-lhe por onde andava o Juan Amalte.
   Ela contou-me então que Juan Amalte já não morava na aldeia, fora banido dela para todo o sempre, mas ela achava que ele não tinha a culpa e que fora uma injustiça de todo o tamanho. A vida da aldeia passara por uma fase sombria, com vários crimes de sangue que ninguém conseguiu deslindar, mas que todos acreditavam prender-se com terrenos e questões de partilhas. Depois desses crimes ocorrerem, Juan Amalte voltou a carregar com as faltas de todos e subiu à montanha para se purificar e, desta vez, teve de ser ajudado a subir por dois familiares porque não conseguia sequer andar. Naquele dia triste em que Juan se banhou na nascente do rio Pane, toda a criatura, animal ou homem, que bebeu das suas águas, morreu envenenada.

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