A Besta do Extermínio

   A Roberto, zoólogo iniciante, especializado em Etologia, ocorreu-lhe uma dúvida original: o que aconteceria se um grande felino, um tigre ou pantera, fosse colocado diante dum espelho? Que comportamentos ou reacções se poderiam esperar dele?
   A questão parece insignificante, mas para ele assumiu uma importância capital, épica, um pouco como parece este tipo de questões a qualquer novel cientista que gostaria de passar de imediato do gatinhar ao voo, queimando as etapas intermédias e morosas que consomem dezenas de anos da vida útil dum indivíduo.
Dando seguimento à sua questão, mandou forrar um dos lados duma jaula em ferro, com um gigantesco espelho que preenchia um dos seus lados, ao topo. Em seguida, trouxeram a pantera negra, fazendo-a passar da jaula em que se encontrava para aquela, num movimento registado por câmara de vídeo e com Roberto com o bloco de notas numa das mãos e o gravador ligado no bolso da bata.
   A pantera entrou, correndo-se a porta atrás dela, e ficou a olhar para o espelho durante uns cinquenta longuíssimos segundos. De imediato, arqueou o corpo e saltou para a superfície vítrea mas quando todos esperavam ouvir o baque dos dois corpos sólidos, ou o estilhaçar do vidro, nada disso aconteceu. A pantera entrou dentro do espelho, passou para dentro dele.
   Agora, eu e vocês podemos compreender o triste fim que tiveram o Coelho Branco, o Gato de Cheshire, a Rainha de Copas, o Chapeleiro Louco e todas as outras criaturas maravilhosas que moravam no outro lado do espelho.

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