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A mostrar mensagens de Dezembro, 2011

quase-crónica 2

- Não te afastes muito, Rosa! - bradou-lhe Miguel da entrada do casarão convertido em Abrigo, trazia dois sacos com roupas e parecia muito atarefado. Rosa sabia, sorriu-lhe e acenou que não. A noite começava a cair e Rosa afastava-se com passadas tímidas, sorrateiras. Que sabia ele? A rua chamava-a, literalmente. Foi quando a passarada se acomodava na copa das árvores do passeio, que ela a ouviu distintamente, ouviu a sua menina a rir-se e a trautear uma cantilena infantil. Onde estaria ela? A malandra brincava certamente ás escondidas, como em tempos o faziam as duas na casa antiga. Apurou o ouvido e conseguiu perceber de novo as notas límpidas do seu riso.
   - Onde estás? - perguntou para o ar, e só lhe respondeu o chilrear ensurdecedor dos pássaros.
   Agachou-se ao pé dum carro estacionado, e espreitou por baixo. Nada. E outro mais adiante, e nada. Espreitava pelos gradeamentos das vivendas, às portas entreabertas dos prédios, ás esquinas das ruelas, e nada.
   - Anda, minha m…

Marcas

Pequena fila na caixa do supermercado, um casal de idade dispõe os artigos na banda rolante, ela muito domingueira, de vestido pérola, colar de pérolas de vidro e cabelo armado num castelo de laca; e ao seu lado, o marido, de fatiota e lenço no bolso do casaco.O homem não está com meias medidas e e atrai as atenções com uma cantiguinha que improvisa sobre o sol e a chuva, libertando o seu cântico desafinado enquanto agita os ombros ao ritmo do repertório. Atrás deles, arruma-se na fila um casal jovem que os conhece.
   - Como está? - Pergunta o homem mais novo, com uma pergunta clássica do género: responde-qualquer-coisa-vaga-só-para-não-dizeres-que-não-te-dirigi-a-palavra.
   - Ah meu amigo! - responde - por aqui ando, a cantar para alegrar os corações dos outros.
   - Pelo menos está bem disposto... - respondeu o mais novo, com a voz em diminuendo para rematar o breve diálogo.
   - Ah! não é bem assim! - o crescendo da sua voz não augurava nada de bom - ainda hoje estive a chorar…

Reunião de família

Os convivas sentaram-se todos à mesa, estranhos convivas, na verdade. Na ala direita da mesa, um leão sentado, um rinoceronte, um hipopótamo e um zebu. E defronte a eles, também sentados como podiam, em cadeiras ou no chão, um elefante, uma girafa, um touro da Hircânia, e um corpulento javali. Era um verdadeiro jantar, porque eram animais mas também pessoas de verdade. Comiam como animais e conversavam efusivamente como peixeiras ou barbeiros em função. Na mesa ainda havia um lugar vago, e um prato (diminuto) vazio. O comensal a quem ele se destinava chegou atrasado, subiu por uma das pernas da mesa e posicionou-se junto ao prato com as patinhas dianteiras de barata a esfregarem-se uma na outra.
     - Gregor, pobre Gregor - susurrou o leão para o rinoceronte, o seu parente mais próximo entre os Samsa - sempre com os seus complexos de inferioridade.

A Besta do Extermínio

A Roberto, zoólogo iniciante, especializado em Etologia, ocorreu-lhe uma dúvida original: o que aconteceria se um grande felino, um tigre ou pantera, fosse colocado diante dum espelho? Que comportamentos ou reacções se poderiam esperar dele?
   A questão parece insignificante, mas para ele assumiu uma importância capital, épica, um pouco como parece este tipo de questões a qualquer novel cientista que gostaria de passar de imediato do gatinhar ao voo, queimando as etapas intermédias e morosas que consomem dezenas de anos da vida útil dum indivíduo.
Dando seguimento à sua questão, mandou forrar um dos lados duma jaula em ferro, com um gigantesco espelho que preenchia um dos seus lados, ao topo. Em seguida, trouxeram a pantera negra, fazendo-a passar da jaula em que se encontrava para aquela, num movimento registado por câmara de vídeo e com Roberto com o bloco de notas numa das mãos e o gravador ligado no bolso da bata.
   A pantera entrou, correndo-se a porta atrás dela, e ficou a …

n-a-t-a-l

Não quero que se deixem influenciar por mim, nem pretendo crocitar como uma ave agourenta, mas posso afirmar-vos que o Natal já não existe, foi destruído. Por quem? Por muitas pessoas e por nenhuma em especial. Eu vi! Vi tudo o que fizeram! Entraram portas adentro pela casa das minhas evocações, e destruíram a árvore de natal e os enfeites, despedaçaram no presépio as figuras toscas e os relevos em pedra e musgo que sustentavam casebres, moinhos, pontes e castelos. À árvore - pinheiro autêntico a cheirar a resina e a caruma - não satisfeitos em derrubá-la para a despojar de todo o enfeite, esgravataram no seu tronco como lémures ansiosos até exumarem nele pálidas lagartas que me apresentaram como uma iguaria inestimável, para que eu me apercebesse da podridão que lavrava sob a epiderme das decorações. Mas não foram só as decorações ou os enfeites que foram destruídos, foi tudo! A música, os risos, a ansiedade primaveril e luminosa, o odor dos cozinhados, a tentação alegre dos doces e …

o ponto de não-retorno

A sua relação afectiva e sexual com Odete era marcada pela intermitência. Odete vinha ter com ele, ou ele ia ter com ela. Para cá e para lá. Na casa dum ou na do outro, no carro, nalgum lugar, lá iam tecendo a tapeçaria pálida dos seus quereres e sentires.Uma vez ela sugerira-lhe que vivessem juntos, e não passara da sugestão aventada, e esquecida; noutra ocasião, calhou a ele concluir a meio duma conversa, que seria mais confortável viverem os dois no mesmo sítio - sim, confortável fora a palavra que usara, como se mencionasse um colchão ortopédico ou uma almofada para pôr debaixo do rabinho num jogo de futebol. Talvez por isso, a proposta velada não teve seguimento. E as coisas arrastavam-se nesta urdidura surda, quando ele se viu sentado no barbeiro à espera de vez enquanto folheava uma revista com sete meses de idade. No rodapé duma entrevista, para preencher espaço vazio, mencionava-se um colorido facto histórico - Hernán Cortés, querendo motivar os seus homens a empreenderem …

Carrêgo

Quis o acaso que eu tivesse parado o carro à porta do café da aldeia, quando Juan Amalte se aproximava pelo passeio, a arrastar-se com movimentos penosos. Figura bizarra, a do Juan Amalte, cujo nome e história me contaram depois, a meu pedido. Imaginem o homem mais doente que possam imaginar, e podem titulá-lo de Juan Amalte sem qualquer injustiça. Torto, retorcido, os olhos raiados de sangue, apoiado num cajado grosso com toda a força dos seus braços porque as pernas já quase não o sustinham, e bastaria olhar com um pouco mais de atenção para descortinar na pele das mãos, do pescoço e da cara, altos sobre a pele, dos tumores emergentes que se formavam.
   Entrei no café para comer qualquer coisa e Amalte entrou também. Já todos sabiam ao que ele vinha. Juntaram-se à sua volta - homens e mulheres de diferentes idades - e imprimiram as mãos sobre o seu corpo enquanto ele gemia e gritava de dor e, logo em seguida, para meu completo espanto, começaram a insultá-lo e expulsaram-no dali…

Sedimentos

O número quatro da Rua das Bétulas, no bairro "operário" da cidade, é uma vivenda de dois pisos, com alpendres, telheiros e sacadas por todo o lado. Os primeiros moradores da casa de que as pessoas se lembram, era um casal que aí vivia, os Sousa. Diz-se que haviam vivido em Inglaterra e que no interior da casa isso era notório. Uma sala ampla com um balcão corrido num dos lados, com copos e canecas de vidro dependuradas como num pub, aparatos e acessórios de sistemas de aquecimento, muitos vidros e vidraças para receber a luz do Sol por ténue ou breve que ela surja. Mas o que os próprios Sousa apontavam como inequivocamente britânico era o papel-de-parede que revestia quase todas as divisões, e todas as que compunham o quadrilátero das paredes exteriores da casa. O primeiro papel de parede que eles elegeram tinha o motivo dum tecido de xadrês, o escocês, como nos kilts dos ditos e nas camisas de flanela dos pescadores portugueses. Como a humidade grassava naquela casa e …

O escanção

Pegou no copo alto com veneno e ergueu-o contra a luz, agitando para lhe admirar a cor e os tons, em seguida, aspirou a sua fragrância, com delicadeza, não para encher os pulmões mas para reter as suas modulações mais ténues. Por fim, e contrariando tudo o que havia aprendido ao longo dos anos, encheu a boca e engoliu sofregamente todo o líquido do copo.