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O reencontro

   Com delicadeza, com luvas de pelúcia, ela contou-lhe:
   - Vais ser pai!
   Ele galgou, ejectou-se, entrou em órbita, apesar das preocupações tidas. Pai!?? Não tinha coragem para tal. Foi até ao quarto alugado em que vivia, fez as malas e desapareceu. Do quarto, da cidade, do universo dela.
   Os anos passaram, anos que chegassem para as montanhas se erodirem em sedimentos e areia, e os cabelos embranquecerem com a palidez invernal dos dias.
   Reencontrou-a, quase sem se aperceber disso. Viram-se cara a cara numa estação de comboios.
   - A tua filha está comigo! - disse-lhe ela secamente.
  A filha!!?? O que iria ela dizer, certamente gritaria de raiva e revolta, vilipendiando a fuga cobarde do cobarde que era.
   - Não quero vê-la! -defendeu-se.
   - Ela não te faz mal...
   E não fazia. Sentada numa cadeira de rodas, tinha a língua a pender da boca como um farrapo de carne, e o olhar demente dançava entre os candeeiros do tecto.

3 comentários:

  1. Ai! Um soco, um susto, uma dor!
    Muito bom, José.

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  2. Aqui está o José a captar e descrever muito bem o desconcerto da vida.
    Sem querer fazer qualquer juízo de valor, suponho que o sujeito da história continuaria igual a si próprio.

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  3. sem dúvida, Maria, a ameaça de mudança já é uma mudança intolerável...

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O Processo de Jesué Nazareno

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