O exemplar

     Nas traseiras do Museu de Cera, há uma porta fechada a sete chaves que, para ser franqueada, tem de se subornar dois ou três funcionários do Museu, e apresentar uma licença especial rubricada por, pelo menos, quatro representantes do poder local. Cumpridos esses trâmites, chega ao pé de nós o discreto funcionário do Museu com o queixo afundado na base do pescoço, e abre a porta, lenta e morosamente, ao ritmo do trinco de cinco voltas da fechadura. Aberta a porta para trás, encontramos uma divisão pequena e uma segunda porta com fechadura de segredo electrónico que nos permite a passagem para um cubículo ainda mais pequeno com uma outra porta, esta com uma corrente e um cadeado entre o puxador e um ferro recurvo na parede. Finalmente, entramos numa sala mais espaçosa com um longo corredor sombrio em frente. O funcionário liga a lanterna de bolso e guia-nos pelo corredor, tendo o cuidado de manter o foco da lanterna apontado ao chão para que não se lembrem de estudar as suas feições.
     Chegados ao fim do corredor, bastou ao funcionário ligar o interruptor e acende-se a luz, fraca, como convinha. Estamos numa sala oval, com uma estátua de cera no centro da sala, mantida intacta pelo ambiente climatizado. Representa um homem sentado a uma secretária a manusear papéis. Tem as mangas da camisa arregaçadas, e olha para as os papéis espalhados pelo tampo com um ar preocupado. Esta estátua já figurou na exposição do Museu, mas foi retirado para não se infligirem danos morais aos visitantes desprevenidos. A estátua representa Arturo  Bromeliano da Costa, um abnegado servidor da Rex Publica, um político, invulgar, para não dizer, rarríssimo. Arturo serviu sempre a cidade e o estado com genuína e desinteressada dedicação. Nunca colheu ou comerciou favores, nunca acumulou cargos e auferimentos de dinheiro, nunca decidiu em função de outros imperativos que não fosse o bem das pessoas e a justiça dos actos. Arturo era uma ameaça, uma existência que incomodava. Um celerado matou-o a golpes de picareta, como a Trotsky. A estátua representa-o no seu trabalhoso ofício de explicador, único trabalho que se lhe conheceu e a sua única fonte de rendimentos. Para os políticos, Arturo é o sinal visível da anarquia, e de todas as forças que ameaçam subverter e colapsar a ordem política e a harmonia social. Quando alguém sobe nos quadros dos Partidos políticos ou se destaca nos corredores do poder, os seus pares trazem-no aqui para terem noção do que devem evitar, do exemplo que não devem seguir. É também por esse motivo que aqui estou, a convite do líder distrital do nosso partido. Enfrento a imagem da besta e, como os outros, cuspo no escarrador aos seus pés, e imprimo a palma das mãos no cabo da picareta que aí se guarda. Cumprido o rito, regresso com os outros ao exterior, todos mais convictos dos nobres ideais e sólidos princípios que nos movem.

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