A nostalgia do Sol

   Os humanos são uma coisa rara, pensou, enquanto se refugiava da chuva na frutaria do senhor Alves. São capazes de andar horas à torreira do Sol, mas uma gota de chuva obriga-os sempre a correr.
   - Chove a cântaros!!- exclamou em voz sonora, empregando correctamente essa expressão pitoresca.
   - É verdade, está no tempo dela! - retrucou o senhor Alves, de forma previsível.
   - Faz falta à agricultura, e as barragens estavam vazias - prosseguiu a Dona Amélia, uma freguesa, aproveitando a onda - e se ela não vier agora, o próximo ano será um ano tramado! Mas é pena não haver Sol para nos aquecer...sabia tão bem um pouquinho de Sol...
   Um súbito silêncio de conversa esgotada coroou as suas palavras. Entre um e outro, o refugiado meteu algumas cebolas num saco de plástico para justificar a entrada no estabelecimento. Lá do fundo daquele mutismo desconfortável, emergiu o senhor Alves com uma tirada filosófica:
   - Infelizmente, não somos nós que procuramos o Sol, mas é o Sol que nos procura!
   A frase aturdiu-o, porque baralhava os seus conceitos, e subvertia a lógica mais elementar. Pagou as cebolas com a quantia exacta que o senhor Alves lhe pediu, antes de sair para a chuva e voltar ao seu apartamento. Aí, sentou-se à janela a olhar a chuva. No horizonte, entre nuvens carregadas, começava a ganhar espaço uma nesga de céu claro.
- Não somos nós que procuramos o Sol, mas é o Sol que nos procura! - 
   Um novo conceito engatilha uma atitude correspondente, exige e carece de uma resposta adequada. Saiu do apartamento com um banco de madeira na mão, parou na despensa do condomínio e retirou dela um escadote sujo de tinta. Assim ajaezado, subiu as escadas até ao terraço do prédio, armou o escadote, e equilibrou o banco no degrau cimeiro. Parara de chover, uma pausa que se adivinhava breve entre dois aguaceiros. O Sol espreitava timidamente por entre as nuvens.
   Subiu os degraus do escadote, e deste, alcandorou-se em cima do banco de madeira. Abriu os botões da camisa, expondo o peito, que se abriu com um zumbido electrónico, deixando a descoberto o interior metálico e brilhante do andróide.
   - Estou aqui, Sol! - gritou para o astro. A plenos pulmões. Sendo esta, mais uma expressão pitoresca que assimilara na sua linguagem.

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