Empate

   Dois pontos no mapa, podemos assinalá-los com um X e um Y ou atribuir-lhes coordenadas angulares ou decimais. 


   Duas pessoas que não se conhecem, partem do ponto X em direcção ao ponto Y por duas estradas diferentes.


   A primeira é um jovem. Olha-se para o seu carro e constata-se que ele pretende, nitidamente, dar nas vistas, chamar a atenção. Cor azul-eléctrico, flamas vermelhas pintadas no capô e nos lados do carro, jantes especiais, escape duplo, potente sistema de som permeabilizado pelos vidros rebaixados.


   A segunda pessoa é uma mulher de meia-idade que se dirige para o trabalho no seu pequeno carro utilitário, cuja tinta, de cor vermelha, está já queimada pelo Sol e adquiriu zonas rosadas e quase brancas. O motor também carbura mal, o que se nota na saída do tubo de escape, as rodas gemem nas curvas e as mudanças custam a entrar.


   Tendo em conta que a mulher de meia-idade não chegou ao destino, porque teve um acidente pelo caminho, poderíamos considerar que o primeiro condutor, o jovem com o carro armadilhado, foi bem mais sucedido que o segundo, porque chegou ao ponto Y ileso e com o carro incólume.


   Por outro lado, se pormenorizarmos que o carro da mulher de meia-idade teve uma falha nos travões que a atirou contra uma velhinha de bengala e um cão vadio e um grupo de ginastas em corrida, que atravessavam uma passadeira da estrada, temos por força de concluir que foi melhor sucedida do que o jovem, porque atraiu mais as atenções.

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