Desafio

   Ela voltou a casa, depois de ir levar os filhos à escola. Aproveitou estar um dia de céu limpo e abriu para trás as janelas da sala de estar para arejar a divisão enquanto a limpava. Andou atarefada a tirar a alcatifa e a arrumar os livros da estante, e quando foi buscar o espanador, notou que já tinha um outro na sala, pousado no chão a um dos cantos. Por brincadeira, usou os dois espanadores, um em cada mão, enquanto a manhã avançava ao ritmo dolente da voz calma e envolvente de Nat King Cole que saía do leitor de cê-dês. As coisas estavam a correr bem, até bem de mais. Veio-lhe isso à ideia quando um pobre pardal entrou pela janela aberta e pousou nos píncaros da estante-biblioteca. Fechou rapidamente a porta para o interior da casa e com os dois espanadores, esgrimiu o ar junto a ele, a tentar empurrá-lo de novo para o exterior. Mas o pequeno pássaro fez-se difícil, voou dali para a televisão, e para as almofadas do sofá, daqui para a portinhola aberta da salamandra e daqui para para incontáveis sítios mais, mas agora deixando sempre o desenho a grafite das suas patitas sujas com a fuligem da salamandra. Cansada de perseguir o passarito, sentou-se num sofá a olhar para ele, enquanto abanava com desalento os dois espanadores como se fossem duas asas coloridas.
   Finalmente, como se desse o jogo por concluído, o pardal esvoaçou para o aro da janela aberta, e virou-se para o interior, fitando-a. Esperava que ela o seguisse.

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