chama e gelo

     A deusa do Sono não chegava a por os pés no solo, e adejava sobre tudo como um fio de seda a esvoaçar e desse modo se aproximava das pessoas cansadas e tocava-lhes nas pálpebras para que as cerrassem com alívio. Mas a deusa do Sono tinha perpétuos sonhos de amor, e perseguia-os com toda a divindade ou semideus que encontrasse com o desejo a palpitar, ardente, no seu corpo jovem; outras vezes, com o próprio corpo daqueles que acabara de adormecer, suscitando neles sonhos febris e desconexos que reflectiam o acto. O esposo da deusa do Sono, o seu esquecido e atraiçoado esposo, seguia-a por toda a parte e, sempre que conseguia, contrariava a acção da deusa, insinuando nas pessoas uma inquietude nevoenta, fria e e atormentada que emergia numa gelada insónia.

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