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Outros dados, e cartas, no final da página

O reencontro

   Com delicadeza, com luvas de pelúcia, ela contou-lhe:
   - Vais ser pai!
   Ele galgou, ejectou-se, entrou em órbita, apesar das preocupações tidas. Pai!?? Não tinha coragem para tal. Foi até ao quarto alugado em que vivia, fez as malas e desapareceu. Do quarto, da cidade, do universo dela.
   Os anos passaram, anos que chegassem para as montanhas se erodirem em sedimentos e areia, e os cabelos embranquecerem com a palidez invernal dos dias.
   Reencontrou-a, quase sem se aperceber disso. Viram-se cara a cara numa estação de comboios.
   - A tua filha está comigo! - disse-lhe ela secamente.
  A filha!!?? O que iria ela dizer, certamente gritaria de raiva e revolta, vilipendiando a fuga cobarde do cobarde que era.
   - Não quero vê-la! -defendeu-se.
   - Ela não te faz mal...
   E não fazia. Sentada numa cadeira de rodas, tinha a língua a pender da boca como um farrapo de carne, e o olhar demente dançava entre os candeeiros do tecto.

O exemplar

     Nas traseiras do Museu de Cera, há uma porta fechada a sete chaves que, para ser franqueada, tem de se subornar dois ou três funcionários do Museu, e apresentar uma licença especial rubricada por, pelo menos, quatro representantes do poder local. Cumpridos esses trâmites, chega ao pé de nós o discreto funcionário do Museu com o queixo afundado na base do pescoço, e abre a porta, lenta e morosamente, ao ritmo do trinco de cinco voltas da fechadura. Aberta a porta para trás, encontramos uma divisão pequena e uma segunda porta com fechadura de segredo electrónico que nos permite a passagem para um cubículo ainda mais pequeno com uma outra porta, esta com uma corrente e um cadeado entre o puxador e um ferro recurvo na parede. Finalmente, entramos numa sala mais espaçosa com um longo corredor sombrio em frente. O funcionário liga a lanterna de bolso e guia-nos pelo corredor, tendo o cuidado de manter o foco da lanterna apontado ao chão para que não se lembrem de estudar as suas feições.
     Chegados ao fim do corredor, bastou ao funcionário ligar o interruptor e acende-se a luz, fraca, como convinha. Estamos numa sala oval, com uma estátua de cera no centro da sala, mantida intacta pelo ambiente climatizado. Representa um homem sentado a uma secretária a manusear papéis. Tem as mangas da camisa arregaçadas, e olha para as os papéis espalhados pelo tampo com um ar preocupado. Esta estátua já figurou na exposição do Museu, mas foi retirado para não se infligirem danos morais aos visitantes desprevenidos. A estátua representa Arturo  Bromeliano da Costa, um abnegado servidor da Rex Publica, um político, invulgar, para não dizer, rarríssimo. Arturo serviu sempre a cidade e o estado com genuína e desinteressada dedicação. Nunca colheu ou comerciou favores, nunca acumulou cargos e auferimentos de dinheiro, nunca decidiu em função de outros imperativos que não fosse o bem das pessoas e a justiça dos actos. Arturo era uma ameaça, uma existência que incomodava. Um celerado matou-o a golpes de picareta, como a Trotsky. A estátua representa-o no seu trabalhoso ofício de explicador, único trabalho que se lhe conheceu e a sua única fonte de rendimentos. Para os políticos, Arturo é o sinal visível da anarquia, e de todas as forças que ameaçam subverter e colapsar a ordem política e a harmonia social. Quando alguém sobe nos quadros dos Partidos políticos ou se destaca nos corredores do poder, os seus pares trazem-no aqui para terem noção do que devem evitar, do exemplo que não devem seguir. É também por esse motivo que aqui estou, a convite do líder distrital do nosso partido. Enfrento a imagem da besta e, como os outros, cuspo no escarrador aos seus pés, e imprimo a palma das mãos no cabo da picareta que aí se guarda. Cumprido o rito, regresso com os outros ao exterior, todos mais convictos dos nobres ideais e sólidos princípios que nos movem.

espírito natalício

     No beco sujo e cheio de luxo, o sem-abrigo andrajoso encontrou no chão um casaco preto, quase novo, e silvou de alegria enquanto o vestia. Voltou a por a sua trouxa ás costas, e ainda não tinha dado dois passos, quando descobriu um gorro largado no chão, que enfiou na cabeça, e logo depois umas calças e uma camisola de lã atiradas para um canto. Tendo mudado de roupa e enfiado as velhas no saco, descobriu então a arma, brilhante e de cor da prata, a espreitar entre dois caixotes do lixo. Empunhou-a. Não precisava da arma, mas se a conseguisse vender, obtinha uns trocos para a comida. Com a nova indumentária e empunhando o revólver, chegou à entrada do beco, onde não encontrou mais nada, mas foi encontrado pela polícia.

quem é quem?

     Encontrou um velho senil na rua e levou-o à polícia (estava preocupado com ele, porque não parecia saber quem era nem onde morava). Aí, os polícias resolveram a situação com salomónica sabedoria, trocando-lhes os papéis e roupas, após o que deram aos dois instruções precisas sobre quem deveria encontrar quem, antes de os voltarem a ver de novo na esquadra.

a dança do fogo

   O corpo ficara gravemente carbonizado. Apenas o rosto fora um pouco poupado, a parte dos lábios, e os olhos, frescos e muito azuis como duas águas-marinhas. Agitava-se para que os filhos se aproximassem, e com os sons rebeldes da sua garganta, procurava dizer-lhes:
   - Acreditem ou não, as chamas dançavam para mim!

sem futuro

     Era uma pessoa sorridente mas de uma tristeza devastadora. E como todos os palhaços e gargalhadores profissionais e fabricantes de anedotas; andava desfasado, distante, do lado engraçado da vida, do bom humor e da alegre fruição da vida. E isso fazia dele um absurdo tão grande que não sobreviveu ao ponto final desta frase.



chanadu

Gostava 
muito de chá, 
de beber
diferentes 
tipos de chá a distintas 
horas do dia e da 
noite.
Chás de frutos,
de ervas
chás calmantes,
reparadores, 
chás para 
alguma coisa e para
coisa nenhuma
apenas, 
pelo prazer
do calor no peito
e o benefícios não
declarados
dos seus
sabores
aromáticos
também bebia
chá de angústia
todos
os dias
a qualquer hora,
chás de angústia,
sempre que 
a filha
acabava
em casa
o seu
périplo
da
droga

chama e gelo

     A deusa do Sono não chegava a por os pés no solo, e adejava sobre tudo como um fio de seda a esvoaçar e desse modo se aproximava das pessoas cansadas e tocava-lhes nas pálpebras para que as cerrassem com alívio. Mas a deusa do Sono tinha perpétuos sonhos de amor, e perseguia-os com toda a divindade ou semideus que encontrasse com o desejo a palpitar, ardente, no seu corpo jovem; outras vezes, com o próprio corpo daqueles que acabara de adormecer, suscitando neles sonhos febris e desconexos que reflectiam o acto. O esposo da deusa do Sono, o seu esquecido e atraiçoado esposo, seguia-a por toda a parte e, sempre que conseguia, contrariava a acção da deusa, insinuando nas pessoas uma inquietude nevoenta, fria e e atormentada que emergia numa gelada insónia.

A nostalgia do Sol

   Os humanos são uma coisa rara, pensou, enquanto se refugiava da chuva na frutaria do senhor Alves. São capazes de andar horas à torreira do Sol, mas uma gota de chuva obriga-os sempre a correr.
   - Chove a cântaros!!- exclamou em voz sonora, empregando correctamente essa expressão pitoresca.
   - É verdade, está no tempo dela! - retrucou o senhor Alves, de forma previsível.
   - Faz falta à agricultura, e as barragens estavam vazias - prosseguiu a Dona Amélia, uma freguesa, aproveitando a onda - e se ela não vier agora, o próximo ano será um ano tramado! Mas é pena não haver Sol para nos aquecer...sabia tão bem um pouquinho de Sol...
   Um súbito silêncio de conversa esgotada coroou as suas palavras. Entre um e outro, o refugiado meteu algumas cebolas num saco de plástico para justificar a entrada no estabelecimento. Lá do fundo daquele mutismo desconfortável, emergiu o senhor Alves com uma tirada filosófica:
   - Infelizmente, não somos nós que procuramos o Sol, mas é o Sol que nos procura!
   A frase aturdiu-o, porque baralhava os seus conceitos, e subvertia a lógica mais elementar. Pagou as cebolas com a quantia exacta que o senhor Alves lhe pediu, antes de sair para a chuva e voltar ao seu apartamento. Aí, sentou-se à janela a olhar a chuva. No horizonte, entre nuvens carregadas, começava a ganhar espaço uma nesga de céu claro.
- Não somos nós que procuramos o Sol, mas é o Sol que nos procura! - 
   Um novo conceito engatilha uma atitude correspondente, exige e carece de uma resposta adequada. Saiu do apartamento com um banco de madeira na mão, parou na despensa do condomínio e retirou dela um escadote sujo de tinta. Assim ajaezado, subiu as escadas até ao terraço do prédio, armou o escadote, e equilibrou o banco no degrau cimeiro. Parara de chover, uma pausa que se adivinhava breve entre dois aguaceiros. O Sol espreitava timidamente por entre as nuvens.
   Subiu os degraus do escadote, e deste, alcandorou-se em cima do banco de madeira. Abriu os botões da camisa, expondo o peito, que se abriu com um zumbido electrónico, deixando a descoberto o interior metálico e brilhante do andróide.
   - Estou aqui, Sol! - gritou para o astro. A plenos pulmões. Sendo esta, mais uma expressão pitoresca que assimilara na sua linguagem.

O direito inalienável ao trabalho

   - Tu não pareces entender. Preciso agir, fazer-me contratado e cumprir o contrato que celebro e com quem celebro. Eu preciso de trabalhar, de fazer algo de útil, de ser útil. Percebes isso?
   - Percebo, não choramingues mais. Eu arranjo-te as munições que precisas para a arma até ao entardecer! Mas têm de ser pagas na hora, não depois de fazeres o teu serviço!

Empate

   Dois pontos no mapa, podemos assinalá-los com um X e um Y ou atribuir-lhes coordenadas angulares ou decimais. 


   Duas pessoas que não se conhecem, partem do ponto X em direcção ao ponto Y por duas estradas diferentes.


   A primeira é um jovem. Olha-se para o seu carro e constata-se que ele pretende, nitidamente, dar nas vistas, chamar a atenção. Cor azul-eléctrico, flamas vermelhas pintadas no capô e nos lados do carro, jantes especiais, escape duplo, potente sistema de som permeabilizado pelos vidros rebaixados.


   A segunda pessoa é uma mulher de meia-idade que se dirige para o trabalho no seu pequeno carro utilitário, cuja tinta, de cor vermelha, está já queimada pelo Sol e adquiriu zonas rosadas e quase brancas. O motor também carbura mal, o que se nota na saída do tubo de escape, as rodas gemem nas curvas e as mudanças custam a entrar.


   Tendo em conta que a mulher de meia-idade não chegou ao destino, porque teve um acidente pelo caminho, poderíamos considerar que o primeiro condutor, o jovem com o carro armadilhado, foi bem mais sucedido que o segundo, porque chegou ao ponto Y ileso e com o carro incólume.


   Por outro lado, se pormenorizarmos que o carro da mulher de meia-idade teve uma falha nos travões que a atirou contra uma velhinha de bengala e um cão vadio e um grupo de ginastas em corrida, que atravessavam uma passadeira da estrada, temos por força de concluir que foi melhor sucedida do que o jovem, porque atraiu mais as atenções.

Desafio

   Ela voltou a casa, depois de ir levar os filhos à escola. Aproveitou estar um dia de céu limpo e abriu para trás as janelas da sala de estar para arejar a divisão enquanto a limpava. Andou atarefada a tirar a alcatifa e a arrumar os livros da estante, e quando foi buscar o espanador, notou que já tinha um outro na sala, pousado no chão a um dos cantos. Por brincadeira, usou os dois espanadores, um em cada mão, enquanto a manhã avançava ao ritmo dolente da voz calma e envolvente de Nat King Cole que saía do leitor de cê-dês. As coisas estavam a correr bem, até bem de mais. Veio-lhe isso à ideia quando um pobre pardal entrou pela janela aberta e pousou nos píncaros da estante-biblioteca. Fechou rapidamente a porta para o interior da casa e com os dois espanadores, esgrimiu o ar junto a ele, a tentar empurrá-lo de novo para o exterior. Mas o pequeno pássaro fez-se difícil, voou dali para a televisão, e para as almofadas do sofá, daqui para a portinhola aberta da salamandra e daqui para para incontáveis sítios mais, mas agora deixando sempre o desenho a grafite das suas patitas sujas com a fuligem da salamandra. Cansada de perseguir o passarito, sentou-se num sofá a olhar para ele, enquanto abanava com desalento os dois espanadores como se fossem duas asas coloridas.
   Finalmente, como se desse o jogo por concluído, o pardal esvoaçou para o aro da janela aberta, e virou-se para o interior, fitando-a. Esperava que ela o seguisse.

A bola de cristal

   - Diga-me o que vê aí?! - pediu-lhe, um pouco assustada com a expressão grave da vidente que acariciava o globo de vidro com as mãos finas e ossudas.
   - Você é uma mulher nova e trabalha...trabalha...
   - Num escritório! Como é que sabia?
   - Silêncio, por favor! Preciso concentrar-me. No local de trabalho, tem vindo a criar-se há poucas semanas, um forte ambiente de tensão...
   - Por causa dos aumentos! Só aumentaram o ordenado de cinco pessoas, e todas próximas ás chefias. É inadmissível aquilo, porque todos trabalhamos forte e feio!
   - Mas vejo alterações para breve no seu local de trabalho...
   - É muito verdadeiro. A Ana Sofia vai entrar em licença de maternidade e está previsto eu ir fazer o lugar dela no processamento de salários. Nunca aqui tinha vindo, mas a senhora é o máximo dos máximos!!
   - Peço-lhe silêncio uma vez mais, a bola é um canal que o meu espírito perscruta, mas preciso do silêncio.
   - Desculpe-me...E afectos? O que me pode dizer sobre isso?
   - Há uma pessoa no escritório interessada em si.
   - É o Saraiva! Não é mal parecido, embora todos digam que é um tarado sem sorte com as mulheres. Diz quem viu, que a casa dele parece um armazém de revistas e filmes pornográficos.
   - Por isso mesmo, tem de agir com cautela, e talvez nem ligar. Mas há outra pessoa...hum...acho que não é do escritório...é mais atraente que o Saraiva, e acaba de sair dum casamento ou duma relação complicada...
   - Já sei, é o Nunes, é bombeiro e separou-se agora da companheira, costumo encontrá-lo no ginásio e estou sempre a galá-lo ás escondidas.
   - O interesse é mútuo, e já é altura de passar à acção.
   - Obrigado, dona, muito obrigado. Tenho de ir agora. Posso dar-lhe um abraço?
   Levantaram-se as duas, e a consulente abraçou-a com força, não conseguindo disfarçar a comoção e a alegria que sentia pelas boas notícias. Quando ia a sair da sala, a vidente chamou-a e, limpando discretamente uma lágrima teimosa, avisou:
   - Quando sair daqui, não atravesse a rua antes de chegar ao Estádio, ou algo de muito mau pode acontecer!

vida de celulóide

    Em sua casa vivia um boneco malévolo e diabólico, que durante a noite o tentava matar com facas e machadinhas de cortar carne. Era mau e feio como as cobras. Enquanto assistia ao último filme da maratona de filmes que começara a ver cinco horas atrás, lembrou-se por fim: isso não existe, é apenas um boneco de película, o Chucky! Como é que eu me pude enganar??
    Mais tranquilo, viu o resto do filme no canal temático, foi à casa-de-banho soltar o lastro das cervejas que havia bebido, e só então foi abrir a arca de madeira que se agitava no meio do corredor. Ao levantar a tampa, saiu lá de dentro uma figura pequena de cabelos despenteados, e  rosto sujo e arranhado de tanto lutar. Mas não era o boneco diabólico. Era o seu filho.

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...