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A mostrar mensagens de Novembro, 2011

O reencontro

Com delicadeza, com luvas de pelúcia, ela contou-lhe:
   - Vais ser pai!
   Ele galgou, ejectou-se, entrou em órbita, apesar das preocupações tidas. Pai!?? Não tinha coragem para tal. Foi até ao quarto alugado em que vivia, fez as malas e desapareceu. Do quarto, da cidade, do universo dela.
   Os anos passaram, anos que chegassem para as montanhas se erodirem em sedimentos e areia, e os cabelos embranquecerem com a palidez invernal dos dias.
   Reencontrou-a, quase sem se aperceber disso. Viram-se cara a cara numa estação de comboios.
   - A tua filha está comigo! - disse-lhe ela secamente.
  A filha!!?? O que iria ela dizer, certamente gritaria de raiva e revolta, vilipendiando a fuga cobarde do cobarde que era.
   - Não quero vê-la! -defendeu-se.
   - Ela não te faz mal...
   E não fazia. Sentada numa cadeira de rodas, tinha a língua a pender da boca como um farrapo de carne, e o olhar demente dançava entre os candeeiros do tecto.

O exemplar

Nas traseiras do Museu de Cera, há uma porta fechada a sete chaves que, para ser franqueada, tem de se subornar dois ou três funcionários do Museu, e apresentar uma licença especial rubricada por, pelo menos, quatro representantes do poder local. Cumpridos esses trâmites, chega ao pé de nós o discreto funcionário do Museu com o queixo afundado na base do pescoço, e abre a porta, lenta e morosamente, ao ritmo do trinco de cinco voltas da fechadura. Aberta a porta para trás, encontramos uma divisão pequena e uma segunda porta com fechadura de segredo electrónico que nos permite a passagem para um cubículo ainda mais pequeno com uma outra porta, esta com uma corrente e um cadeado entre o puxador e um ferro recurvo na parede. Finalmente, entramos numa sala mais espaçosa com um longo corredor sombrio em frente. O funcionário liga a lanterna de bolso e guia-nos pelo corredor, tendo o cuidado de manter o foco da lanterna apontado ao chão para que não se lembrem de estudar as suas feições.
   …

espírito natalício

No beco sujo e cheio de luxo, o sem-abrigo andrajoso encontrou no chão um casaco preto, quase novo, e silvou de alegria enquanto o vestia. Voltou a por a sua trouxa ás costas, e ainda não tinha dado dois passos, quando descobriu um gorro largado no chão, que enfiou na cabeça, e logo depois umas calças e uma camisola de lã atiradas para um canto. Tendo mudado de roupa e enfiado as velhas no saco, descobriu então a arma, brilhante e de cor da prata, a espreitar entre dois caixotes do lixo. Empunhou-a. Não precisava da arma, mas se a conseguisse vender, obtinha uns trocos para a comida. Com a nova indumentária e empunhando o revólver, chegou à entrada do beco, onde não encontrou mais nada, mas foi encontrado pela polícia.

quem é quem?

Encontrou um velho senil na rua e levou-o à polícia (estava preocupado com ele, porque não parecia saber quem era nem onde morava). Aí, os polícias resolveram a situação com salomónica sabedoria, trocando-lhes os papéis e roupas, após o que deram aos dois instruções precisas sobre quem deveria encontrar quem, antes de os voltarem a ver de novo na esquadra.

a dança do fogo

O corpo ficara gravemente carbonizado. Apenas o rosto fora um pouco poupado, a parte dos lábios, e os olhos, frescos e muito azuis como duas águas-marinhas. Agitava-se para que os filhos se aproximassem, e com os sons rebeldes da sua garganta, procurava dizer-lhes:
   - Acreditem ou não, as chamas dançavam para mim!

sem futuro

Era uma pessoa sorridente mas de uma tristeza devastadora. E como todos os palhaços e gargalhadores profissionais e fabricantes de anedotas; andava desfasado, distante, do lado engraçado da vida, do bom humor e da alegre fruição da vida. E isso fazia dele um absurdo tão grande que não sobreviveu ao ponto final desta frase.



chanadu

Gostava  muito de chá,  de beber diferentes  tipos de chá a distintas  horas do dia e da  noite. Chás de frutos, de ervas chás calmantes, reparadores,  chás para  alguma coisa e para coisa nenhuma apenas,  pelo prazer do calor no peito e o benefícios não declarados dos seus sabores aromáticos também bebia chá de angústia todos os dias a qualquer hora, chás de angústia, sempre que  a filha acabava em casa o seu périplo da droga

chama e gelo

A deusa do Sono não chegava a por os pés no solo, e adejava sobre tudo como um fio de seda a esvoaçar e desse modo se aproximava das pessoas cansadas e tocava-lhes nas pálpebras para que as cerrassem com alívio. Mas a deusa do Sono tinha perpétuos sonhos de amor, e perseguia-os com toda a divindade ou semideus que encontrasse com o desejo a palpitar, ardente, no seu corpo jovem; outras vezes, com o próprio corpo daqueles que acabara de adormecer, suscitando neles sonhos febris e desconexos que reflectiam o acto. O esposo da deusa do Sono, o seu esquecido e atraiçoado esposo, seguia-a por toda a parte e, sempre que conseguia, contrariava a acção da deusa, insinuando nas pessoas uma inquietude nevoenta, fria e e atormentada que emergia numa gelada insónia.

A nostalgia do Sol

Os humanos são uma coisa rara, pensou, enquanto se refugiava da chuva na frutaria do senhor Alves. São capazes de andar horas à torreira do Sol, mas uma gota de chuva obriga-os sempre a correr.
   - Chove a cântaros!!- exclamou em voz sonora, empregando correctamente essa expressão pitoresca.
   - É verdade, está no tempo dela! - retrucou o senhor Alves, de forma previsível.
   - Faz falta à agricultura, e as barragens estavam vazias - prosseguiu a Dona Amélia, uma freguesa, aproveitando a onda - e se ela não vier agora, o próximo ano será um ano tramado! Mas é pena não haver Sol para nos aquecer...sabia tão bem um pouquinho de Sol...
   Um súbito silêncio de conversa esgotada coroou as suas palavras. Entre um e outro, o refugiado meteu algumas cebolas num saco de plástico para justificar a entrada no estabelecimento. Lá do fundo daquele mutismo desconfortável, emergiu o senhor Alves com uma tirada filosófica:
   - Infelizmente, não somos nós que procuramos o Sol, mas é o Sol que nos procu…

O direito inalienável ao trabalho

- Tu não pareces entender. Preciso agir, fazer-me contratado e cumprir o contrato que celebro e com quem celebro. Eu preciso de trabalhar, de fazer algo de útil, de ser útil. Percebes isso?
   - Percebo, não choramingues mais. Eu arranjo-te as munições que precisas para a arma até ao entardecer! Mas têm de ser pagas na hora, não depois de fazeres o teu serviço!

Empate

Dois pontos no mapa, podemos assinalá-los com um X e um Y ou atribuir-lhes coordenadas angulares ou decimais. 


   Duas pessoas que não se conhecem, partem do ponto X em direcção ao ponto Y por duas estradas diferentes.


   A primeira é um jovem. Olha-se para o seu carro e constata-se que ele pretende, nitidamente, dar nas vistas, chamar a atenção. Cor azul-eléctrico, flamas vermelhas pintadas no capô e nos lados do carro, jantes especiais, escape duplo, potente sistema de som permeabilizado pelos vidros rebaixados.


   A segunda pessoa é uma mulher de meia-idade que se dirige para o trabalho no seu pequeno carro utilitário, cuja tinta, de cor vermelha, está já queimada pelo Sol e adquiriu zonas rosadas e quase brancas. O motor também carbura mal, o que se nota na saída do tubo de escape, as rodas gemem nas curvas e as mudanças custam a entrar.


   Tendo em conta que a mulher de meia-idade não chegou ao destino, porque teve um acidente pelo caminho, poderíamos considerar que o primeiro cond…

Desafio

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Ela voltou a casa, depois de ir levar os filhos à escola. Aproveitou estar um dia de céu limpo e abriu para trás as janelas da sala de estar para arejar a divisão enquanto a limpava. Andou atarefada a tirar a alcatifa e a arrumar os livros da estante, e quando foi buscar o espanador, notou que já tinha um outro na sala, pousado no chão a um dos cantos. Por brincadeira, usou os dois espanadores, um em cada mão, enquanto a manhã avançava ao ritmo dolente da voz calma e envolvente de Nat King Cole que saía do leitor de cê-dês. As coisas estavam a correr bem, até bem de mais. Veio-lhe isso à ideia quando um pobre pardal entrou pela janela aberta e pousou nos píncaros da estante-biblioteca. Fechou rapidamente a porta para o interior da casa e com os dois espanadores, esgrimiu o ar junto a ele, a tentar empurrá-lo de novo para o exterior. Mas o pequeno pássaro fez-se difícil, voou dali para a televisão, e para as almofadas do sofá, daqui para a portinhola aberta da salamandra e daqui par…

A bola de cristal

- Diga-me o que vê aí?! - pediu-lhe, um pouco assustada com a expressão grave da vidente que acariciava o globo de vidro com as mãos finas e ossudas.
   - Você é uma mulher nova e trabalha...trabalha...
   - Num escritório! Como é que sabia?
   - Silêncio, por favor! Preciso concentrar-me. No local de trabalho, tem vindo a criar-se há poucas semanas, um forte ambiente de tensão...
   - Por causa dos aumentos! Só aumentaram o ordenado de cinco pessoas, e todas próximas ás chefias. É inadmissível aquilo, porque todos trabalhamos forte e feio!
   - Mas vejo alterações para breve no seu local de trabalho...
   - É muito verdadeiro. A Ana Sofia vai entrar em licença de maternidade e está previsto eu ir fazer o lugar dela no processamento de salários. Nunca aqui tinha vindo, mas a senhora é o máximo dos máximos!!
   - Peço-lhe silêncio uma vez mais, a bola é um canal que o meu espírito perscruta, mas preciso do silêncio.
   - Desculpe-me...E afectos? O que me pode dizer sobre isso?
   - Há uma pe…

vida de celulóide

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Em sua casa vivia um boneco malévolo e diabólico, que durante a noite o tentava matar com facas e machadinhas de cortar carne. Era mau e feio como as cobras. Enquanto assistia ao último filme da maratona de filmes que começara a ver cinco horas atrás, lembrou-se por fim: isso não existe, é apenas um boneco de película, o Chucky! Como é que eu me pude enganar??
    Mais tranquilo, viu o resto do filme no canal temático, foi à casa-de-banho soltar o lastro das cervejas que havia bebido, e só então foi abrir a arca de madeira que se agitava no meio do corredor. Ao levantar a tampa, saiu lá de dentro uma figura pequena de cabelos despenteados, e  rosto sujo e arranhado de tanto lutar. Mas não era o boneco diabólico. Era o seu filho.