Stela

     - Roubaste-me - chiou a velha senhora, com a veia do pescoço saliente - tinha aqui as minhas coisas e roubaste-mas todas...
Ignorou a fúria da sua expressão e afagou-lhe os cabelos que enxugara há pouco com um toalhão, mas não conseguiu evitar uma cotovelada que ela lhe deu, e que a atingiu no peito, dolorosamente.
     Recuou dois passos e sentou-se um pouco a esfregar o lugar onde a atingira, enquanto a mulher se agitava, deitada no leito.
     - Acalme-se - pediu mais uma vez - ninguém lhe roubou nada, você é que não se lembra do lugar onde deixa as coisas.
     - Roubaste-me - voltou ela.
Ignorou-a. Saiu do quarto e foi até à cozinha. Agitada pela angústia, preparou-lhe o chá que ela bebia, que sempre bebera à noite quando se deitava. Quando voltou ao quarto, já havia sossegado, e trauteava baixinho qualquer coisa. Já não era nada com ela. Quando pousou ao seu lado a bandeja com o chá, sentiu a sua mão pousar na sua, enquanto a brindava com um sorriso enlevado.
     - Tu és a Stela! - disse, como se tivesse acabado de a reconhecer - Sabes porque é que eu te dei o nome de Stela? Porque Stela é estrela, e tu és a minha estrela, aquela que tem guiado toda a minha vida. Sabes disso, não sabes?
     - Sei, mãe, sei disso! - confirmou, enquanto lhe servia o chá.

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