Rotina rota (ou como se avisa nos filmes: Baseado em Factos Reais)

       Todos os dias da semana, a rotina de Hermínio estava tecida com liames tão débeis que, um dia, tinha mesmo de se romper. E esse dia aconteceu mais depressa do que ele estava à espera. Como a mulher entrava cedo ao serviço, cabia-lhe a ele despachar os três filhos, que tinham, respectivamente, dois, cinco e nove anos. O mais velho vestia-se sozinho, mas tinha de lhe preparar a papa da primeira refeição. Aos outros dois, vestia-os, calçava-os, dava-lhes de comer. Até sair de casa, era um corropio de mochilas, sacos, brinquedos, biberão, fraldas, dentes por lavar, cotonetes nos ouvidos, cremes na cara. Por volta das oito e trinta conseguia tê-los a todos dentro do carro, mais a bagagem que enfiava na mala atrás. Deixava primeiro o mais velho na escola, porque era o único que tinha horário, ficava dentro do carro até ele entrar no recinto, depois corria para o infantário e deixava o do meio, mas tinha de ir lá dentro com o o mais novo ao colo e a mochila dele pendurada do ombro porque tinha de ser confiado pessoalmente à educadora e ali ninguém lhe deixava qualquer margem de manobra para cedências. Entregue o número dois, corria até ao outro lado da cidade para entregar o mais pequeno à sogra. Terminada esta tarefa, e já se tinha afastado uma centena de metros de carro quando foi assaltado pela certeza de que se tinha esquecido dalguma coisa importante. Voltou a casa da sogra. Entreguei o menino, não foi? - Sim - E as fraldas descartáveis? - Sim - Não sabe se hoje ele tem vacinação? - Não, é Quinta, tu avisaste-me ontem! Pediu desculpas, e correu ao infantário. O filho estava a brincar na sala em cima dum tapete com outras trinta crianças, a educadora fez-lhe o favor de sair da cozinha e interromper o precioso café para lhe confirmar que não faltava nada, que estava tudo em ordem, e não havia nenhum detalhe incongruente, como chinelos nos pés ou calças de pijama vestidos. Saiu, só faltava um. Foi ao portão da escola primária. O mais velho estava na aula, tinha de esperar pelo recreio. Esperou. Quando soou a campainha, a funcionária foi pedir autorização, e lá o deixaram entrar. Falou com ele, e com a professora, e não, não faltava nada, trouxera tudo, livros e material escolar. E a ginástica, não precisas do fato-de-treino? Ainda perguntou, na dúvida, mas o filho lembrou-lhe que a ginástica era no dia seguinte. Antes de desistir da indagação, voltou à casa da sogra. Não falta mesmo nada? É que eu tenho a certeza de que me esqueci dalguma coisa...Desta vez, a sogra masquiu, com um ar de desaprovação - Se calhar, esqueceste-te de ir trabalhar, porque já são onze horas, mas antes, devias ir primeiro a casa tirar o pijama.

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