Rodeios

         Quando saí da Convenção, a noite ia já muito adiantada, e tinha sérias dúvidas sobre como voltar para o Hotel a uma hora daquelas. Os táxis passavam muito depressa, não via nenhum transporte público e nem sabia qual deles apanhar. Era a primeira vez que ia àquela cidade, e não tinha qualquer referência, para cúmulo, à noite. Começava a enervar-me quando vi aparecer um táxi, que chamei com um gesto. O táxi parou ao pé de mim com um chiar de travões. Entrei e a primeira coisa que vi foi o rosto lívido do taxista, que me pareceu algo nervoso.
    - Não estou aqui para o roubar - comecei por lhe dizer - só queria voltar para o meu hotel, o Condestável, na Avenida dos Capuchos.
   O taxista abanou a cabeça com os olhos pregados aos óculos que tirara para limpar com um pano.
   - Não é isso! O senhor não devia andar na rua, eu não devia andar na rua; e pede-me logo para ir para a Avenida dos Capuchos...vamos ver...vamos ver...
   Arrancou com tanta pressa que as rodas patinaram um pouco, e conduziu com um visível nervosismo pelas ruas da cidade. Parou a seguir a uma curva, no início duma rua com duas faixas e separador ao meio com relva e árvores. Levou um dedo aos lábios para me pedir silêncio, saiu do carro e ficou um momento à escuta lá fora, e logo depois voltou a sentar-se ao volante.
   - Por aqui não pode ser...não me parece seguro.
   Fez inversão de marcha e deu uma volta larga, a cruzar ruas e ruelas a uma velocidade doida. O meu receio de chocarmos ou atropelarmos alguém era compensado pelo facto de não ver mais ninguém na rua, nem a pé nem dentro de carros. Quando parou novamente o carro, repetiu o gesto de há pouco, depois reentrou no carro a abanar a cabeça com desalento. Ligou o rádio no canal da polícia à espera de ouvir alguma coisa, mas a única coisa que saía dali era o restolhar da electricidade estática.
   - Eu não sei o que o impede de me levar de volta ao Hotel, mas devo avisá-lo que, apesar de andar prevenido, não há dinheiro que pague tanta volta que o senhor está a dar - achei por bem esclarecer, mas ele limitou-se a repetir-me o gesto que me remetia ao silêncio.
   Arrancou de novo, estava quase desesperado, e aquilo era contagiante.
   Desta vez, parecia mais seguro sobre o caminho a tomar. Venceu algumas ruas e avenidas, e enveredou por umas ruas mais estreitas, com aspecto antigo. Devia ser a zona histórica da cidade, pensei, impressão que ficou confirmada quando passamos ao lado da Sé em granito, pesada e parda. Junto à Sé tomamos uma rua em espiral que subia o monte defronte a ela. Quando chegamos ao topo, pude descortinar uma torre de menagem iluminada por holofotes, com janelas e seteiras enegrecidas como olhos que dormem. Diante da torre, havia um largo alcatroado sem ninguém, e foi aí que o taxista parou o carro, num recanto escuro debaixo das árvores.
   «Mau - pensei para comigo - é agora que sou assaltado!»
   O taxista não fez caso dos meus receios e cogitações. Voltou a sair do carro, e ficou de novo à escuta. Não me pareceu mais sossegado, o que era inquietante.
   - Vou ali espreitar à frente - disse-me - as chaves ficam na ignição. Tranque as portas por dentro, e se me vir a correr para o carro, deixe-me entrar. Doutra forma, não abra as portas a ninguém!
   Afastou-se com passadas largas e deixei de o ver. Fiquei ali alguns breves minutos, também eu à escuta, mas não aguentei muito mais tempo. Saí do carro, tranquei-o com as chaves, e encaminhei-me na mesma direcção  que o taxista. Estava quase a alcançar o muro baixo que delimitava o largo da torre, quando senti que uma mão me puxava para o lado. Era o taxista, que continuava a apertar com força o meu braço, de raiva.
   - Já que é maluco, mantenha-se no escuro e não deixe que o vejam! - ordenou.
   - Porquê? - perguntei, uma pergunta que já andava a remoer há muito tempo.
   Ele estendeu o braço e apontou o largo iluminado diante da Sé.
   - Vê aqueles vultos no largo? É deles que fugimos, e enquanto não tomarem o caminho para aqui, estamos seguros. Não podemos andar pela cidade enquanto eles andarem por aí...
   Não fiz mais perguntas, e ficamos os dois de vigia, cosidos à escuridão do arvoredo. A noite ameaçava prolongar-se por tempos infinitos.

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