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Objectos inanimados (uma fábula bondosa)




   Todos os objectos que rodeavam as pessoas estavam cientes de si e dos seres e substâncias que os rodeavam e preenchiam, mas não havia nem intenção nem sinal de saírem dessa sua inanição. Quando o começaram a fazer, foi com cautelosa timidez, na escuridão da noite e na penumbra dos silêncios. 


   Progressivamente, as pessoas começaram a notar incongruências no seu mundo, bizarrias, que atribuíam a esquecimentos pessoais ou a brincadeiras de terceiros, em carne e osso ou nalguma forma espectral e assustadora. As camas em que dormiam e os móveis domésticos amanheciam em posições inusuais; pela noite fora, conseguia-se ouvir, por vezes, o murmúrio abafado das maçanetas de porta que abriam e fechavam, divertidas; dos talheres que brincavam nas gavetas, da roupa nos armários que se enrolava em jogos fofos.Pela rua fora, acontecia o mesmo.Quando sentiam que não tinham olhos humanos pousados neles, as gruas sob a luz da lua rodavam incessantemente sem sopro de vento, os carros dançavam e chegavam a ser encontrados pela manhã apoiados sobre um dos lados ou sobre o tejadilho. Aliás, todas as ruas e estradas, sobretudo as mais escuras e vazias, eram palco de pequenos fenómenos, desde candeeiros altos de metal que se contorciam por vontade própria, a tampas circulares de esgoto que rodavam pelas ruas como aros conduzidos por crianças invisíveis.


   Era evidente, para quem começava a ter consciência do que se estava a passar, que esse estado de coisas acabaria por ter um fim, por evoluir para uma situação ainda mais grave e incontrolável. E esse dia acabou por chegar, da pior forma possível e de forma simultânea em quase todas as partes do mundo. Uma manhã chegou, em que os objectos não escondiam mais as suas diabruras e exibiam os seus movimentos autóctones diante dos olhos de todos. E as pessoas observaram-nos com terror, rodeados e cercados como estavam, por todos eles. Em incontáveis olhares humanos podia-se ler o medo, o terror gelado e profundo, o desespero que se perlava nas suas lágrimas assustadas.


   Mas não se ouviu ninguém gritar, nenhum humano protestou, pelo menos, de forma clara. Na noite que precedera a manhã do terror, todas as suas línguas haviam sido cortadas pelas tesouras (elas nunca haviam escondido dos outros objectos, as suas pretensões à tirania).

Dicionário

                O “seu” dicionário não tinha muitas palavras, e entre estas, havia muitas quase virginais, intocadas, outras devassadas e p...