O Imbondeiro


     Quando a família decidiu, em conjunto, regressar a Portugal, o avô Anselmo, o ancião da família, sentiu relutância em fazê-lo. Estava há quarenta anos em Angola, ali vira nascer os netos, ali nascera de novo para uma vida que não tinha nada a ver com as suas origens no interior beirão. Porque é que tinha de voltar? Perguntava aos filhos. Estes explicaram-lhe que era mais seguro, que a guerra civil já dizimara muita gente e que, não tardaria, podia acontecer-lhes o mesmo, e então, seria demasiado tarde para decisões ou escolhas. Acedeu, por fim, mas pediu ao filho mais novo, ao André, para levar com ele uma caixa de madeira com solo de Angola. Este concordou, preferindo essa bizarria do pai ao remorso que sentiria se ele ficasse para trás e viesse a descobrir mais tarde que tinha sido chacinado por beligerantes.
     De regresso a Portugal, o velho Anselmo não resistiu muito tempo e faleceu poucos meses depois. Fosse devido ao clima, a que já não estava habituado, ou fosse devido a uma agudização da saudade, essa enfermidade latente na alma dos portugueses e que pode eclodir e desenvolver-se duma forma acelerada e potencialmente mortal.
     Anselmo foi inumado no meio de rochedos escalvados na sua propriedade, a poucas centenas de metros da casa onde a sua família vivera durante gerações. Os filhos concordaram entre eles, que aquele era o lugar mais apropriado. Num relance, rochedos nus no meio do descampado, sob o Sol e o calor seco, pareciam reconstituir um lugar trazido dalgum ponto da savana africana. Durante o velório, André lembrara-se da caixa com solo angolano que pertencia ao pai, e esse solo foi disperso no fundo da cova antes de descerem o féretro.
     A história de Anselmo acabaria aqui, não fosse permanecer no coração dos que o haviam conhecido, e na paisagem daquele ermo na Beira Baixa. Com os anos, e não obstante todas as probabilidades consentidas pelos factores bióticos e abióticos presentes, germinou no ponto exacto da sepultura de Anselmo, um pequeno imbondeiro que cresce de ano para ano, sem sinais de debilidade ou deformação.
     Os filhos e netos de Anselmo acham que essa árvore insólita se deve a alguma semente trazida no solo angolano que estava encerrado na caixa de madeira, mas André, ao invés, acredita que a semente, trouxe-a Anselmo no coração.

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