Novas medidas

     Minutos antes de tocarem à campainha, Iturbérzio olhou pela janela e ficou assustado com os rolos de fumo que se viam no seu quintal. A sua corrida para a porta, coincidiu com o toque da campainha. Abriu-a e viu diante de si dois homens com máscara de oxigénio e pastas pretas nas mãos.
     - Não se assuste - disse um deles com uma voz soprada- este fumo dispersa-se num ápice. E era por causa deste e doutros fumos que pretendíamos entrevistá-lo. Vamos entrar com sua licença e tirar estas máscaras mesmo sem a sua licença porque doutro modo não podemos expor o que pretendemos expor no curto espaço de tempo de que dispomos para o fazer com cada cidadão que entrevistamos.
     Entraram, mostraram as credenciais e apresentaram-se de viva voz.
     - Somos representantes duma iniciativa do governo a nível nacional e estamos aqui tal como os nossos colegas noutras casas para sensibilizar as pessoas - falava de rajada, sem pausas nem pontuações, e assim continuou - perante a difícil situação financeira nacional e internacional o Governo prepara-se e esta é apenas uma campanha preambular para criar um imposto especial sobre o ar que se respira e é claro que pode objectar que o ar é de todos e que não se deveria pagar imposto por isso mas o reverso da medalha é que este executivo gasta milhões de euros em programas e em incentivo de programas de manutenção e conservação do ecossistema na aposta em fontes limpas de energia e na prevenção de incêndios ou catástrofes ecológicas e sem esses apoios e esses serviços de prevenção e resposta começarão a multiplicar-se as ocasiões em que o senhor vai à janela e só vê fumo em volta da casa ou que vai à praia com os seus filhos e dá por si a brincar com eles bem no centro duma maré negra que trouxe até vós golfinhos moribundos a vomitar peixe ingerido ou gaivotas e corvos-do-mar moribundos a piarem tristemente e também aumentariam exponencialmente as despesas do seu agregado familiar com problemas respiratórios e de sangue e reacções alérgicas da pele e estômago.
     Parou. Iturbérzio ia formar uma tentativa de réplica, mas um dos visitantes estendeu-lhe um papel com tudo discriminado.
     - Entenda que isto é apenas um contacto preliminar semelhante ao de uma operação estatística. Nos próximos meses o Executivo apresentará a proposta na Assembleia da Republica e então terá mais informação sobre o assunto veiculada pelas vias normais e habituais.
     Parara novamente, e Iturbérzio aproveitou.
     - Eu sei que vocês só estão a dar conhecimento do assunto, mas eu acho isso um absurdo. Qualquer dia, fazem-nos pagar imposto para ter sexo...
     Nenhum deles respondeu, olhavam através dele como se fosse transparente. Um mirou o relógio, enquanto o outro tirava do bolso um pequeno gravador e registava a ideia:
     «Imposto para ter sexo. Over!».
     Deram meia volta sobre os calcanhares como os militares e dirigiram-se para o portão de saída. Pelo caminho, Iturbérzio viu um deles abaixar-se para apanhar alguma coisa que não conseguiu ver o que era.
     (Tratava-se do invólucro duma granada de fumo).

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