Insonhando

   Pela noite dentro, quando o sono era pouco, ou muito à superfície, ele dava por si a nutrir-se de fascínio pelas formas dinâmicas daquele corpo de mulher. Com ela ao seu lado na cama, ele rememorava a facilidade com que se desembaraçavam das roupas, o lirismo da forma como as cuequinhas dela deslizavam pela curva das nádegas, afuselavam nas coxas, para em seguida contornar docemente a barriga das pernas como mãos levíssimas de tecido. Com o peito era o mesmo. Quando lhe despia a camisola, ela esticava os braços sobre a cabeça, costas da mão com costas da mão e o torso arqueado com os seios esticados para ele, e a camisola passava pelos ombros como uma bebida murmurante pelo gargalo escorreito duma garrafa. O próprio acto de despir era uma carícia mais para ambos. E pela noite dentro, quando o sono era pouco, ou muito à superfície, ele dava por si a nutrir-se de fascínio por isso, até o sono sobrevir, ou fugir de vez, alturas em que ele começava a sentir medo de ficar quase-sozinho no escuro como uma criança desamparada e procurava acordá-la para ter companhia.


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