A mulher

     Escreve. No Word, por hábito. Tinha manuscrito umas notas no moleskine, e agora tenta encadeá-las numa história ou conto.
     - Desculpe, interrompo? - Pergunta uma mulher que estica a cabeça pela porta que deixara aberta.
     (Uma porta de madeira maciça, de cor cerejeira, e dobradiças e puxadores em latão dourado, ou cor de bronze, que sempre gostara mais desses tons metálicos discretos, como os que deveriam apresentar as armas dos Aqueus).
     Ignora a mulher, e encadeia as notas do rascunho manuscrito, dedilhando rapidamente no teclado. Mas a mulher não se vai embora.
     - Interrompo, ou posso entrar?
     (Ela deve ter uns sessenta anos, pele sardenta no pescoço e bochecas, cabelos de um louro a fugir para o castanho, produto de sucessivas e desastrosas colorações. Também podia ter cabelos negros, como a Amélia, uma criada que houvera na casa dos pais, e que metia assim a cabeça pelo aro das portas, sempre receosa de estar a incomodar)
     - Posso entrar? - Voltou a perguntar.
     Assim não dava, não ia conseguir continuar com o que estava a escrever.
     - Não pode! - respondeu por fim - deixe-me a sós e, se eu precisar de si, chamo-a!
     Ela obedeceu. A mulher, o personagem feminino, eclipsou-se discretamente da sua história, permitindo que ele continuasse a escrevê-la.

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