memento

   A avó, apesar da idade avançada, mantinha uma invejável saúde física e mental, produto, dizia ela, de ter sido criada com sopa de couves e leite de burra. Nos últimos tempos, no entanto, a avó tem fraquejado, não por ter achaques ou lapsos de memória, mas porque começou a sentir receio, e apenas receio, de se esquecer das coisas, e assim poder decepcionar os outros e a si mesma.
   Vai daí, a avó começou a deixar pela casa, lembretes das tarefas que a esperavam. Se no dia seguinte, pensava fazer sopa (daquelas sopas deliciosas dela, muito caldosas e com sal bem no limite do aceitável), então deixava a panela em cima do bico do fogão. Se era dia de cozer pão no forno de lenha, então bastava a concha da farinha no balcão da cozinha. E outras rotinas eram garantidas por outros sinais. A bandeja com chávenas de chá para a terceira Quinta-Feira do mês, quando o senhor prior vinha visitá-la e jogar uma partida de dominó, as linhas de tricô na véspera de ir visitar a prima Berta que morava quatro casas abaixo na rua, ou a bolsa das moedas quando começava a achar que era altura de ir ao merceeiro. O que nós nunca percebemos, era porque é que, na véspera de aparecer lá por casa o primo Diamantino, ela deixava penduradas na maçaneta da porta do quarto, uma das suas cuecas de gola alta.


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