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Outros dados, e cartas, no final da página

estória paralela

(Franz Kafka, de Andy Warhol)

    Franz, jovem franzino e infeliz, ouviu do seu amigo Max Brod uma história pitoresca, e que era mais ou menos a seguinte: Quando o romancista francês Ponson du Terrail criou as aventuras de Rocambole, eram tantos os personagens que participavam do enredo que ele teve a ideia de mandar fazer umas figurinhas em madeira para os representar, figuras que ele dispunha em cima da secretária como peças de xadrez enquanto escrevia. Quando decidia juntar dois personagens, unia-os com uma fita vermelha, quando matava um personagem, deitava-o sobre o tampo da mesa. Fiado nesse método, Ponson du Terrail estruturou toda a trama dos livros de Rocambole, ignorando que a mulher que lhe limpava a casa e que tomava as figuras como vagos bibelôs, anarquizou o método, colocando de pé figuras que encontrava deitadas, e juntando ou separando outras com aquelas insignificantes fitas vermelhas. Era essa razão pela qual as aventuras de Rocambole eram tão confusas, com personagens que voltavam à história depois de terem estado mortas, ou então, que deixavam de aparecer de um capítulo para o outro, como se se tivessem volatilizado, para não mencionar a lista impressionante de casamentos, separações e episódios de viuvez da história, que nenhum leitor era capaz de perceber.


   Inspirado por essa história curiosa contada pelo amigo, Franz Kafka decidiu seguir o exemplo do escritor francês, mas com as devidas precauções. Pediu a um carpinteiro de Praga que recortasse numa fina folha de madeira uma silhueta vagamente humana que, a seu pedido, foi colada e pregada a um pequena calha em él para que se sustivesse em pé; calha, que por sua vez, foi colada e pregada ao tampo da mesa em que Franz habitualmente escrevia. Franz escreveu na figura um capa maiúsculo, como em Kafka, como em Josef K., ou no agrimensor K., e consubstancial a Gregor Samsa e a todas as suas criações intentadas ou pensadas.


   Dessa forma, Kafka nunca perdeu o fio à meada de K., aos seus dramas e desventuras, e é curioso verificar que, tantos anos depois da morte de Kafka, a figura de K. mantém-se de pé sobre o tampo da mesa.

1 comentário:

  1. Que maravilha José,
    não há como dizer mais!

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