A dignidade dos que foram

     Os pássaros enormes voltaram a pousar no muro alvo de cal. Depois dos corvos, eram estes que traziam mais preocupado, o casal de trabalhadores. Não ligavam nenhuma ao espantalho muito semelhante a uma pessoa, nem a ameaças ou gritos lançados de longe, das janelas do andar superior da casa onde os dois moravam, do lado oposto do muro. Os pássaros só saíam do solo, ou abandonavam as suas posições no muro quando alguém os corria a brandir e a esgrimir com a enxada. Aves teimosas e temerárias, sobranceiras, a desafiá-los o tempo todo, enquanto lambiam as penas das asas ou esfregavam os dentes do bico nas garras pontiagudas de uma cor semelhante ao bronze. Ele e a mulher revezavam-se para as manter à distância. Se um se demorava no interior da casa, o outro tinha forçosamente de andar cá por fora para manter a autoridade. A maior parte das vezes calhava aos dois trabalhar no exterior, com a pá, a enxada e o carro-de-mão. O casal estava encarregue de zelar pelo recinto, e cabiam-lhe todas as tarefas inerentes ao lugar. A população crescia, a população dos que ali estavam enterrados também, e havia que desalojar para a vala colectiva os ossos dos sepulcros mais antigos (ossos, e não apenas ossos) para arranjar espaço para mais sepulturas. E sempre e enquanto o faziam, havia que manter à distância aquelas aves indesejáveis. 

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