desporto-rainha


     Fim-de-semana era altura de sofrer pelo futebol. Renato ficava irrequieto, nervoso, trocava as palavras, suava da palma das mãos. Não via a hora de se sentar no sofá diante da televisão com o cachecol do clube em volta do pescoço e submeter-se à descarga psico-voltaica de noventa e tal minutos de sofrimento.
     Quando chegava a hora da transmissão televisiva, Renato já estava mais para lá do que para cá. Comera mal, tinha o estômago embrulhado e, regra geral, tinha um acesso de diarreia durante o jogo se a sua equipa sofria um golo, ou se o árbitro assinalava algum penalty contra ela. Num dessas torturas futebolísticas, Dona Ermelinda, a mãe de Renato, sentou-se ao seu lado no sofá, compadecida das suas lágrimas e do grito que soltara quando a equipa sofrera um golo. Dona Ermelinda passou o braço pelos ombros do filho, não sabendo mais o que fazer. Nesse preciso instante, zás, a sua equipa marca o primeiro golo, Renato grita de alegria, a esperança renasce. A bola volta ao grande círculo, faltam quinze minutos para o final, a partida recomeça, três, quatro toques, um centro para a grande área adversária, e GGGOOOOLLLLOOO!!. Empate. Renato está aos saltos em cima do sofá, abraça a mãe. Ainda festeja e nem vê bem o que se está a passar no jogo, quando a equipa marca de novo, GGGOOOOOOLLLLLLLLLLLLLOOOOOOOOOOO, e ainda uma outra vez antes do soar o apito final GGGGGGGGGGOOOOOOOOOOOOLLLLLLLLLLLLOOOOOOOOOOOOOOOO!!!!!!!!!!!.  Vitória! Vitória! Vitória!
     Renato festeja, Renato canta e cântica, Renato dança, Renato sai para beber um copo com os amigos, e só regressa na manhã seguinte, com a pele do rosto amarfanhada como um jornal velho e carregando uma ressaca maior do que ele. Dona Ermelinda levanta-se para lhe fazer um café forte, que era o mais indicado para ele limpar do estômago as borras da bebida.
     - Tu és o meu talismã, o meu feitiço, o meu encantamento - diz ele à mãe - a partir de hoje, vejo todos os jogos contigo ao meu lado. Enquanto estiveres comigo, a minha equipa nunca perde!
     Dona Ermelina aceitou. Se era só isso o que era preciso para filho andar contente...
     Mas aquele não era um segredo doméstico. No fim-de-semana seguinte, Renato tem vinte correlegionários em casa para assistir com ele ao jogo. A cerveja é à descrição. A equipa entra em campo e faz uma exibição sem mácula, triunfando com uma diferença de dois golos. Festança para o resto da noite.  
     Novo jogo na semana seguinte, o número de espectadores frente ao jogo duplicara, e a equipa de futebol corresponde ao que se espera e ganha por quatro bolas a zero. A casa quase vem abaixo com os gritos de alegria, os carros com simpatizantes vêem festejar para aquela rua com buzinadelas e toques porque, por todo o lado, já se espalhou a nova da boa estrela da Dona Ermelinda.
     Na semana que se segue, já não cabe mais gente na casa de Renato, mas as pessoas acomodam-se como podem e agrupam-se nos jardins, no passeio, na rua defronte. Havia sido montado um sistema de altifalantes para propagar o som da transmissão do jogo. Espera-se mais uma vitória, nada mais do que uma vitória, triunfo que representaria um salto importante na caminhada para o título de campeão nacional. Murmura-se que a notoriedade de Renato e de Dona Ermelinda já chegara à capital, e que era capaz de aparecer por ali uma equipa de reportagem televisiva - se é que já não estava por ali sem dar nas vistas, a colher testemunhos e a documentar a noticia.
     O jogo começa. Ansiedade geral, nervosismo em ponto de rebuçado. Aos cinco minutos, sofrem o primeiro golo, uma injustiça, porque estavam a jogar melhor e mais vistoso. Nada está perdido, um golo dá para dar a volta como a cobra que se esgueira da vara. Segundo golo sofrido, um golo estúpido, uma carambola sem jeito nenhum. Dona Ermelinda aperta os ombros do filho. A boca deste treme como se tivesse adquirido um novo tique. E Pumba! Terceira vez que a bola entra nas redes, poucos minutos antes do intervalo. O árbitro apita para o descanso. A rua esvazia-se, a casa e os jardins da casa também. Dona Ermelinda e Renato continuam sentados no sofá, ainda esperando, ele, uma recuperação milagrosa. Começa o segundo tempo. A equipa não está a jogar nada, e quase de rajada, entram os golos. Quarto Golo. Quinto. Sexto golo. O jogo descamba, todos têm a cabeça quente, há agressões no campo, batalha campal nas bancadas, carga dos policiais sobre a assistência. Acaba o jogo. Uma derrota por seis bolas a zero. Mãe e filho continuam sentados no sofá, mergulhados num silêncio fundo. Como da primeira vez, Dona Ermelinda não sabe o que fazer para mitigar o sofrimento do filho. Por fim, ele levanta-se sem explicação, vai ao quarto dela e traz um espelho de corpo inteiro que coloca diante dos dois. Olha a mãe pelo reflexo, espera descobrir uma alma do outro mundo, ou uma criatura extraterrestre. Mas não consegue, e decide enfrentá-la. Segura-a pelos ombros, e olha-a bem fundo nos olhos. A sua voz inquire, inquisitorial:
     - Quem és tu? Eu sei que não és a minha mãe! Quem és tu e o que é que fizeste da minha pobre mãe?

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