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Outros dados, e cartas, no final da página

"Cortázar e eu", de Martín Gardella, escritor argentino

Contaram-me que na confeitaria London City, junto ás vidraças sobre a Avenida de Mayo, estava exposta a mesa na qual Cortázar costumava sentar-se a escrever. Pensei que, se tomasse o lanche naquele lugar, talvez me pudesse nutrir da sua brilhante inspiração. Depois de subornar um dos empregados, pude-me sentar-me na cadeira destacada e encomendar o que o escritor pedia habitualmente. Entre sorvos de café, comecei a escrever algumas linhas num pequeno bloco de notas. Nesse instante mágico, como se as minhas garatujas o houvessem invocado, Júlio apareceu sentado diante de mim.
- O que é que pretendes escrever? – perguntou-me o escritor.
- Um micro-relato – respondi.
- Esta mesa apenas inspira novelas – confessou – será melhor que procures num outro lugar.
Antes de desaparecer, anotou uma direcção estranha no meu caderno. Sem perder tempo, peguei nas minhas coisas e dirigi-me, entusiasmado, para aquele lugar desconhecido. Ali, deparei-me com um passadiço comprido que desembocava num estranho portão de cor verde.
- Estávamos á tua espera! – disse-me o Cronópio que me abriu a porta, enquanto eu me acomodava a uma mesa para escrever esta história.
Alguns dias depois, voltei a passar pela London City, e fiquei surpreendido ao ver que a mesa de Cortázar já não estava lá.





Em adenda ao conto, este passeio de Lucius de Mello aos lugares de Buenos Aires imortalizados por Borges e Cortázar. E este excerto, traduzido para português, do livro-entrevista de Omar Prego Gadea, La Fascinación de las Palabras (1985).

Geena

                No rincão das matas enegrecidas, onde as árvores carbonizadas se assemelhavam a costelas fraturadas do corpo de uma ...