Caminhantes

- Não compreendo isto…como é que estas pessoas conseguem sobreviver? – Começou por dizer á avó, que baixou o lume do fogão a gás para o ouvir com mais cuidado – eu trabalho de manhã á noite, seis dias por semana, ás vezes até mais, e mesmo assim nunca tenho dinheiro para o que preciso. Hoje de madrugada, quando ia para o trabalho, vi outra vez à beira da estrada o mesmo casal que vi no outro dia. A idade dos dois juntos pouco deve passar dos trinta, cada um deles empurra um carrinho de bebé; muito tranquilos e satisfeitos, como se todos vivessem do ar e não houvesse despesas, comida e roupas, vacinações e médicos, todas essas coisas.
- Não te deverias preocupar com isso – aconselhou a avó, com a sabedoria cumulada durante toda uma vida - Realmente, a culpa disso é o atraso e a ignorância das gentes, tem-se filhos quando ainda não sabe o que é ser mulher ou ser homem, e depois levam-nos á trela…
- Mas não é isso que mexe comigo. Os dois vão a pé a caminho da cidade com os filhos no carrinho, mas nenhum deles parece com ar de quem vai trabalhar, tem um ar airoso de malta em férias, sem preocupações de espécie alguma, como se estivessem a dizer-nos - nós debaixo do céu e Deus dá-nos o que nos faltar. Se nenhum dos dois trabalha, têm que ter alguém que os ajude, que apare os golpes, o que, com quatro crianças como aquelas, é quase uma missão impossível…
- Já te disse para não te preocupares com isso – voltou a avó, sem sinal de impaciência - temos que saber eleger as coisas com que nos devemos preocupar, e nessas não estão, de certeza, a situação daqueles que já morreram.

Mensagens populares deste blogue

Abril de 1918 - o caminho para uma Primavera de sangue

A viagem