as palavras

     As palavras andavam pela sua casa, sem que ele soubesse o que fazer com elas. Tentou ser simpático, acomodá-las, fazer com que se sentissem em casa e ficassem por ali. Chegou-lhes cadeiras, sofás, mantas no chão, colchões, mas elas continuavam a vagar pela casa como se estivessem desconfortáveis. Ofereceu-lhes bebidas, o comando da televisão, diversos livros abertos, e páginas, muitas páginas em branco onde elas se poderiam instalar como rainhas opulentas. Mas não quiseram nada disso e não quiseram nada com ele e, uma por uma, foram saindo pelas portas e janelas da casa como se estivessem a evadir-se dalguma prisão. Quando ficou só, reencontrou o silêncio. O silêncio estava sempre ali, ainda que ele, por vezes, conseguisse alhear-se da sua presença. O silêncio não precisava que o tentasse reter ou seduzir. Permanecia ali, apenas, e aos poucos, ia-o devorando.


(inspirado no título dum blogue de Claudia Cortalezzi)

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