INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

o tempo e o espaço

     A hora mudara e não se dera conta. À hora em que compareceu para a missa de Domingo, não encontrou os fiéis reunidos cá fora, os homens bem vestidos a comentar os jogos da véspera ou as tropelías dos políticos, as senhoras com vestidos e blusas de mangas plissadas e cabeleiras montadas com laca, nem as crianças a correr em volta nas suas alegres brincadeiras, ou as bancas na qual se vendiam tremoços e pevides, fiadas de pinhões, saquinhos de plástico com figos e nozes.
     No lugar, também não encontrou o adro da igreja com o velho castanheiro e o pelourinho de coluna octogonal, nem a igreja, ou a rua circundante com as suas casas antigas. Haviam mudado a aldeia de lugar e não se dera conta.

Stela

     - Roubaste-me - chiou a velha senhora, com a veia do pescoço saliente - tinha aqui as minhas coisas e roubaste-mas todas...
Ignorou a fúria da sua expressão e afagou-lhe os cabelos que enxugara há pouco com um toalhão, mas não conseguiu evitar uma cotovelada que ela lhe deu, e que a atingiu no peito, dolorosamente.
     Recuou dois passos e sentou-se um pouco a esfregar o lugar onde a atingira, enquanto a mulher se agitava, deitada no leito.
     - Acalme-se - pediu mais uma vez - ninguém lhe roubou nada, você é que não se lembra do lugar onde deixa as coisas.
     - Roubaste-me - voltou ela.
Ignorou-a. Saiu do quarto e foi até à cozinha. Agitada pela angústia, preparou-lhe o chá que ela bebia, que sempre bebera à noite quando se deitava. Quando voltou ao quarto, já havia sossegado, e trauteava baixinho qualquer coisa. Já não era nada com ela. Quando pousou ao seu lado a bandeja com o chá, sentiu a sua mão pousar na sua, enquanto a brindava com um sorriso enlevado.
     - Tu és a Stela! - disse, como se tivesse acabado de a reconhecer - Sabes porque é que eu te dei o nome de Stela? Porque Stela é estrela, e tu és a minha estrela, aquela que tem guiado toda a minha vida. Sabes disso, não sabes?
     - Sei, mãe, sei disso! - confirmou, enquanto lhe servia o chá.

"Cortázar e eu", de Martín Gardella, escritor argentino

Contaram-me que na confeitaria London City, junto ás vidraças sobre a Avenida de Mayo, estava exposta a mesa na qual Cortázar costumava sentar-se a escrever. Pensei que, se tomasse o lanche naquele lugar, talvez me pudesse nutrir da sua brilhante inspiração. Depois de subornar um dos empregados, pude-me sentar-me na cadeira destacada e encomendar o que o escritor pedia habitualmente. Entre sorvos de café, comecei a escrever algumas linhas num pequeno bloco de notas. Nesse instante mágico, como se as minhas garatujas o houvessem invocado, Júlio apareceu sentado diante de mim.
- O que é que pretendes escrever? – perguntou-me o escritor.
- Um micro-relato – respondi.
- Esta mesa apenas inspira novelas – confessou – será melhor que procures num outro lugar.
Antes de desaparecer, anotou uma direcção estranha no meu caderno. Sem perder tempo, peguei nas minhas coisas e dirigi-me, entusiasmado, para aquele lugar desconhecido. Ali, deparei-me com um passadiço comprido que desembocava num estranho portão de cor verde.
- Estávamos á tua espera! – disse-me o Cronópio que me abriu a porta, enquanto eu me acomodava a uma mesa para escrever esta história.
Alguns dias depois, voltei a passar pela London City, e fiquei surpreendido ao ver que a mesa de Cortázar já não estava lá.





Em adenda ao conto, este passeio de Lucius de Mello aos lugares de Buenos Aires imortalizados por Borges e Cortázar. E este excerto, traduzido para português, do livro-entrevista de Omar Prego Gadea, La Fascinación de las Palabras (1985).

as palavras

     As palavras andavam pela sua casa, sem que ele soubesse o que fazer com elas. Tentou ser simpático, acomodá-las, fazer com que se sentissem em casa e ficassem por ali. Chegou-lhes cadeiras, sofás, mantas no chão, colchões, mas elas continuavam a vagar pela casa como se estivessem desconfortáveis. Ofereceu-lhes bebidas, o comando da televisão, diversos livros abertos, e páginas, muitas páginas em branco onde elas se poderiam instalar como rainhas opulentas. Mas não quiseram nada disso e não quiseram nada com ele e, uma por uma, foram saindo pelas portas e janelas da casa como se estivessem a evadir-se dalguma prisão. Quando ficou só, reencontrou o silêncio. O silêncio estava sempre ali, ainda que ele, por vezes, conseguisse alhear-se da sua presença. O silêncio não precisava que o tentasse reter ou seduzir. Permanecia ali, apenas, e aos poucos, ia-o devorando.


(inspirado no título dum blogue de Claudia Cortalezzi)

Rodeios

         Quando saí da Convenção, a noite ia já muito adiantada, e tinha sérias dúvidas sobre como voltar para o Hotel a uma hora daquelas. Os táxis passavam muito depressa, não via nenhum transporte público e nem sabia qual deles apanhar. Era a primeira vez que ia àquela cidade, e não tinha qualquer referência, para cúmulo, à noite. Começava a enervar-me quando vi aparecer um táxi, que chamei com um gesto. O táxi parou ao pé de mim com um chiar de travões. Entrei e a primeira coisa que vi foi o rosto lívido do taxista, que me pareceu algo nervoso.
    - Não estou aqui para o roubar - comecei por lhe dizer - só queria voltar para o meu hotel, o Condestável, na Avenida dos Capuchos.
   O taxista abanou a cabeça com os olhos pregados aos óculos que tirara para limpar com um pano.
   - Não é isso! O senhor não devia andar na rua, eu não devia andar na rua; e pede-me logo para ir para a Avenida dos Capuchos...vamos ver...vamos ver...
   Arrancou com tanta pressa que as rodas patinaram um pouco, e conduziu com um visível nervosismo pelas ruas da cidade. Parou a seguir a uma curva, no início duma rua com duas faixas e separador ao meio com relva e árvores. Levou um dedo aos lábios para me pedir silêncio, saiu do carro e ficou um momento à escuta lá fora, e logo depois voltou a sentar-se ao volante.
   - Por aqui não pode ser...não me parece seguro.
   Fez inversão de marcha e deu uma volta larga, a cruzar ruas e ruelas a uma velocidade doida. O meu receio de chocarmos ou atropelarmos alguém era compensado pelo facto de não ver mais ninguém na rua, nem a pé nem dentro de carros. Quando parou novamente o carro, repetiu o gesto de há pouco, depois reentrou no carro a abanar a cabeça com desalento. Ligou o rádio no canal da polícia à espera de ouvir alguma coisa, mas a única coisa que saía dali era o restolhar da electricidade estática.
   - Eu não sei o que o impede de me levar de volta ao Hotel, mas devo avisá-lo que, apesar de andar prevenido, não há dinheiro que pague tanta volta que o senhor está a dar - achei por bem esclarecer, mas ele limitou-se a repetir-me o gesto que me remetia ao silêncio.
   Arrancou de novo, estava quase desesperado, e aquilo era contagiante.
   Desta vez, parecia mais seguro sobre o caminho a tomar. Venceu algumas ruas e avenidas, e enveredou por umas ruas mais estreitas, com aspecto antigo. Devia ser a zona histórica da cidade, pensei, impressão que ficou confirmada quando passamos ao lado da Sé em granito, pesada e parda. Junto à Sé tomamos uma rua em espiral que subia o monte defronte a ela. Quando chegamos ao topo, pude descortinar uma torre de menagem iluminada por holofotes, com janelas e seteiras enegrecidas como olhos que dormem. Diante da torre, havia um largo alcatroado sem ninguém, e foi aí que o taxista parou o carro, num recanto escuro debaixo das árvores.
   «Mau - pensei para comigo - é agora que sou assaltado!»
   O taxista não fez caso dos meus receios e cogitações. Voltou a sair do carro, e ficou de novo à escuta. Não me pareceu mais sossegado, o que era inquietante.
   - Vou ali espreitar à frente - disse-me - as chaves ficam na ignição. Tranque as portas por dentro, e se me vir a correr para o carro, deixe-me entrar. Doutra forma, não abra as portas a ninguém!
   Afastou-se com passadas largas e deixei de o ver. Fiquei ali alguns breves minutos, também eu à escuta, mas não aguentei muito mais tempo. Saí do carro, tranquei-o com as chaves, e encaminhei-me na mesma direcção  que o taxista. Estava quase a alcançar o muro baixo que delimitava o largo da torre, quando senti que uma mão me puxava para o lado. Era o taxista, que continuava a apertar com força o meu braço, de raiva.
   - Já que é maluco, mantenha-se no escuro e não deixe que o vejam! - ordenou.
   - Porquê? - perguntei, uma pergunta que já andava a remoer há muito tempo.
   Ele estendeu o braço e apontou o largo iluminado diante da Sé.
   - Vê aqueles vultos no largo? É deles que fugimos, e enquanto não tomarem o caminho para aqui, estamos seguros. Não podemos andar pela cidade enquanto eles andarem por aí...
   Não fiz mais perguntas, e ficamos os dois de vigia, cosidos à escuridão do arvoredo. A noite ameaçava prolongar-se por tempos infinitos.

8'BRO 8: Coerência

     Joana d'Arc, uma jovem camponesa, não conseguia sossegar com aquela voz insistente na sua cabeça a repetir-lhe - "Vai, vai ter com o teu rei. Contigo a defendê-lo dos inimigos, a França e tu terão paz, e não haverá fome nem frio!". Joana obedeceu, tornou-se o braço armado de Carlos VII, a sua espada vitoriosa como a espada dum arcanjo e, mesmo então, no fragor das batalhas mais encarniçadas, a mesma voz ecoava na sua cabeça: "Prossegue, não desistas, a vitória está muito perto, e com ela, tu e a França não terão fome nem frio". Quando a estrela de Joana empalideceu até se extinguir, Joana foi julgada e condenada à fogueira. Concederam-lhe uma última refeição, confessou e foi amarrada ao poste. Quando os verdugos pegaram fogo à lenha, e grossas línguas de fogo se elevavam em volta, a mesma voz voltou: "Eu sempre te prometi que não terias fome nem frio...".

8'BRO 7: O meses do ano

       As crenças e ditos populares contêm sempre algo de verdadeiro que cabe aos mais instruídos destrinçar e apurar. É crença generalizada que o clima que faz nos primeiros dias do ano correspondem, como na relação micro/macroscosmo, ao clima que fará nos meses desse ano que correspondem a cada um desses dias (exemplo: 1ºdia / Janeiro, 2º dia / Fevereiro, e por aí fora). Como possuo alguma formação científica, dei-me ao trabalho de registar minuciosamente as condições de tempo em Portugal Continental nos primeiros dias de Janeiro deste ano, no geral e por distritos. Concluída a primeira tranche do trabalho, aguardei o transcorrer dos meses, sempre a apontar e registar. Nesta altura do ano, com praticamente dois meses para o final, já me é possível apresentar algumas conclusões provisórias e sujeitas a correcção.
    Devo começar por referir que a crença apontada possui uma veracidade impressionante. O estado de tempo dos primeiros dias do ano corresponde no geral ao clima do mês correspondente. O dia 1 de Janeiro, por exemplo, foi um dia de temperaturas amenas e condições de vento fraco e agitação média das águas do mar, verde no espectro dos extremos de temperatura. Tal como o mês de Janeiro. Poder-se-à argumentar que apenas se registou a continuação das condições climáticas desse primeiro dia, mas os riscos de se simplificar demasiado são notórios pelo que se segue. O quarto e quinto dia foram invulgarmente quentes para esta altura do ano, tal como os meses de Abril e Maio. Pelo contrário, Junho, Julho e Agosto pareceram um Verão deslocado, porque as temperaturas foram inferiores ao que esperava para estes meses, tal como baixou a média de temperatura o sexto, sétimo e oitavo dia do ano, voltando estas a subir para o nono e décimo dia de Janeiro, tal como o clima para Setembro e Outubro.
    Nesta altura, posso ainda acrescentar que o décimo e décimo primeiro dia do ano foram muito frios e chuvosos, e, não é para vos assustar, porque ainda estamos em Outubro, mas o décimo segundo dia do ano foi caracterizado por vendavais um pouco por todo o lado e temperaturas com máximos de temperatura negativa (em Ermesinde e nas Penhas Douradas, por exemplo), e que o décimo terceiro dia, que corresponderá ao décimo terceiro mês, foi de uma rotunda e completa catástrofe climatológica.
     Continuamos a aguardar os desenvolvimentos do clima, que registamos com minúcia, para completar o nosso estudo. E, para o ano, talvez o repitamos para confirmar (ou não) as conclusões deste.

8'BRO 6: o fim da viagem

     Para migrar rio abaixo para um novo assentamento da família, o patriarca da família e os seus filhos viajaram dois dias a pé até ao rio. Com machados abateram uma árvore gigante da margem, e com as enxós escavaram o miolo tenro da árvore até esculpir por completo uma piroga grande. Voltaram para a aldeia para irem buscar o resto da família. Juntaram os parcos haveres em trouxas e fizeram o percurso até ao rio, homens, mulheres e crianças  com o que demoraram três dias. Quando chegaram ao pé da piroga grande, a piroga há pouco tempo árvore e, a menos tempo, piroga, estava agarrada ao chão por pequenas raízes que a madeira havia lançado ao chão. O patriarca pensou no assunto, e mandou construir em volta da piroga a nova aldeia, como se tivessem chegado ao fim da viagem. Em volta da piroga, ou em volta da árvore, se quiserem, porque a família voltara a erguer a piroga, que enterraram até a um terço da altura com as raízes no seio da terra, e a natureza seguiu o seu curso.

8'BRO 5: hobby

   Se um dia destes, passeando vós pela borda do mar, ou no centro histórico dalguma cidade a admirar as igrejas e monumentos, é perfeitamente natural que vos cruzem com o Seixas. Como as pessoas não trazem o nome tatuado na testa, vou descrever-vos quem o Seixas é, não a sua aparência, porque isso seria quase uma delação. O Seixas é um homem afável-social-dado-generoso-cativante-bem-humorado-prestável-e-simpático (apetecia-me exagerar no hífen), domina diversas línguas e possui cultura e leituras que cheguem para manter uma conversa aprazível com qualquer pessoa (ou qualquer-pessoa, se preferirem). Com tudo isto, podem notar como simpatizo com o Seixas. O Seixas está onde é preciso. Se vê alguns turistas a fotografar um monumento ou uma rua da cidade, aborda-os na língua em que falam, e dá-lhes informações com o à-vontade dum guia turístico ou dum historiador, ou faz sugestões sobre lugares a visitar, e pontos estratégicos donde podem tirar fotografias esplêndidas. Da mesma forma, o Seixas pode estar ao pé de vós quando, com uma máquina fotográfica à trela, admiram os barcos numa marina ou um pôr-do-sol sobre o mar, ou se esforçam para tirar uma foto num lugar inesquecível à vossa cara-metade, ou o inverso. Mas o Seixas faz tudo de uma forma elegantemente subtil, inteligente e desarmante, aborda uma pessoa como se não o estivesse a fazer, convocava-vos para uma troca de impressões como se tivessem sido vocês a tomar a iniciativa. Nesse jogo de cumplicidade que ele tece com os outros, torna-se normal que vocês lhe perguntem qual o melhor ângulo para fixar uma rua ou estátua, que lhe peçam para tirar uma fotografia convosco enlaçados à vossa cara-metade, ou que colabore a vosso pedido para capturar o melhor frame dum barco na marina ou do sol poente sobre o mar. Debitando vocabulário de fotógrafo profissional, o Seixas ajuda-vos, colabora, responde com humana simpatia. E logo que se vê a segurar a máquina fotográfica que vocês lhe confiaram, o Seixas - porque é isso que ele gosta de fazer - desata a fugir a sete pés, tão depressa e para tão longe que vocês dificilmente voltam a por-lhe a vista em cima.

8'BRO 4: (entre)

  (quando os olhos se habituam ao quarto na penumbra, as formas emergem da escuridão como cadáveres frios depois dum naufrágio, mas as películas de pó tocadas pela luz débil que se coa pelo buraco da fechadura incendeiam-se diante das nossas pupilas, e precipitam-se riscando a escuridão aos pés da cama e sobre os nossos pés, fazendo-nos sentir o calor fosfórico e irreal desses asteróides longínquos).



8'BRO 3: Tentativa e erro

    Fim de tarde na rua pedonal vocacionada para o comércio. O pequeno redemoinho de vento que se formara sem aviso na esquina duma rua confluente, rodou com fúria por entre os transeuntes assustados e entrou pela porta duma livraria, e lá dentro prosseguiu com a devastação - livros pelos ares, estantes esvaziadas, folhas a dançar e a rodopiar no ar como derviches extáticos, papéis que silvavam generosamente para acompanhar os gritos agudos da livreira. Da mesma forma imprevista como se formara, o redemoinho dissolveu-se dentro da livraria.
   Chegara a hora de enquadrar o desastre, estimar os danos, contabilizar os prejuízos. Muitos livros danificados, mas apenas um em falta, um romance de Alejo Carpentier. Procurou-se melhor nos montículos de livros derribados e nas alturas das estantes, e teve-se a mais certa das certezas - faltava a obra de Carpentier.
   À força de tantas eclosões e viagens, os redemoinhos estão a ficar cada dia mais sábios na hora de escolher.

8'BRO 2: debater-se

   - Sinto-me aborrecido - desabafou com o pajem - são tristes os dias dum guerreiro quando não há guerras nem batalhas para travar. E as armas...as armas definham e enferrujam, temos de estar sempre a polir a lâmina das espadas, e a manter preparada a armadura, o cavalo, as hostes. O sangue coalha-nos nas veias, criamos gordura como porcos para a matança, cheiramos a bafio e a ranço como a vossa comida.
   - O que pensais fazer senhor? Invadir algum couto vizinho? Participar em justas de cavaleiros?
   - Não, já sei! - exclamou com um súbito entusiasmo - Já sei o que vou fazer! Há muito tempo que não luto contra mim mesmo, e é disso que preciso neste momento, uma luta feroz e encarniçada até ao completo esgotamento das forças, uma batalha que só terá o seu fim quando o oponente jazer por terra sem mais forças ou armas para combater.
   - E acha isso prudente, meu senhor?
   - Claro que sim,conquanto tu lhe vistas a armadura...

8'Bro 1: música-ambiente



   - Há formas diversas de dobrar roupa.
   Explicou-lhe a engomadeira, enquanto os dois bebiam um vermute aos pés da cama. Levantou-se e colocou-se ao pé duma pilha de roupa em cima duma cadeira.
   - As pessoas adquirem tiques ou movimentos próprios quando o fazem, gestos que mecanizaram depois de os inventarem ou receberem doutros. Há algumas que não são capazes de dobrar uma camisola ou uma camisa de manga comprida sem esta jazer em cima duma superfície plana como uma mesa ou a tábua de passar a ferro, mas até é simples, basta saber segurá-la pelos pontos-chave e dobra-se sem qualquer dificuldade.
   Desdobrara e voltara a dobrar uma camisa para exemplificar, fazendo-a bailar no ar diante do seu corpo nu como a mantilha duma dançarina exótica.
   - E às t'shirts prefiro fazer assim...
   Segurou-a pelos ombros, com as costas viradas para ele, prendeu a parte superior entre o queixo e a raiz do pescoço, e dobrou-a em três penadas, expondo e ocultando os seios carnudos com os mamilos espetados.
   - E à minha madrasta, já vi dobrar calças assim.
   E demonstrou com um par de calças, afastou as pernas nuas junto a si, lindas e alvas como uma aparição ao luar, estendeu as calças entre o antebraço e a face lateral das coxas, e dobrou-as sobre o braço.
   Sorriu, por fim, as calças atiradas para cima da cama, dobradas como pertencia.
   - Ainda bem que não temos de dobrar a pele - considerou - daria muito trabalho e não ficaríamos muito bem sem ela assim, estendida.
   Aflorou com as costas duma mão o braço musculado, as espáduas, a pele intumescida do membro.
- Assim não dá para dobrar - ciciou com o olor do vermute, mordiscando-lhe o lábio inferior.

Novas medidas

     Minutos antes de tocarem à campainha, Iturbérzio olhou pela janela e ficou assustado com os rolos de fumo que se viam no seu quintal. A sua corrida para a porta, coincidiu com o toque da campainha. Abriu-a e viu diante de si dois homens com máscara de oxigénio e pastas pretas nas mãos.
     - Não se assuste - disse um deles com uma voz soprada- este fumo dispersa-se num ápice. E era por causa deste e doutros fumos que pretendíamos entrevistá-lo. Vamos entrar com sua licença e tirar estas máscaras mesmo sem a sua licença porque doutro modo não podemos expor o que pretendemos expor no curto espaço de tempo de que dispomos para o fazer com cada cidadão que entrevistamos.
     Entraram, mostraram as credenciais e apresentaram-se de viva voz.
     - Somos representantes duma iniciativa do governo a nível nacional e estamos aqui tal como os nossos colegas noutras casas para sensibilizar as pessoas - falava de rajada, sem pausas nem pontuações, e assim continuou - perante a difícil situação financeira nacional e internacional o Governo prepara-se e esta é apenas uma campanha preambular para criar um imposto especial sobre o ar que se respira e é claro que pode objectar que o ar é de todos e que não se deveria pagar imposto por isso mas o reverso da medalha é que este executivo gasta milhões de euros em programas e em incentivo de programas de manutenção e conservação do ecossistema na aposta em fontes limpas de energia e na prevenção de incêndios ou catástrofes ecológicas e sem esses apoios e esses serviços de prevenção e resposta começarão a multiplicar-se as ocasiões em que o senhor vai à janela e só vê fumo em volta da casa ou que vai à praia com os seus filhos e dá por si a brincar com eles bem no centro duma maré negra que trouxe até vós golfinhos moribundos a vomitar peixe ingerido ou gaivotas e corvos-do-mar moribundos a piarem tristemente e também aumentariam exponencialmente as despesas do seu agregado familiar com problemas respiratórios e de sangue e reacções alérgicas da pele e estômago.
     Parou. Iturbérzio ia formar uma tentativa de réplica, mas um dos visitantes estendeu-lhe um papel com tudo discriminado.
     - Entenda que isto é apenas um contacto preliminar semelhante ao de uma operação estatística. Nos próximos meses o Executivo apresentará a proposta na Assembleia da Republica e então terá mais informação sobre o assunto veiculada pelas vias normais e habituais.
     Parara novamente, e Iturbérzio aproveitou.
     - Eu sei que vocês só estão a dar conhecimento do assunto, mas eu acho isso um absurdo. Qualquer dia, fazem-nos pagar imposto para ter sexo...
     Nenhum deles respondeu, olhavam através dele como se fosse transparente. Um mirou o relógio, enquanto o outro tirava do bolso um pequeno gravador e registava a ideia:
     «Imposto para ter sexo. Over!».
     Deram meia volta sobre os calcanhares como os militares e dirigiram-se para o portão de saída. Pelo caminho, Iturbérzio viu um deles abaixar-se para apanhar alguma coisa que não conseguiu ver o que era.
     (Tratava-se do invólucro duma granada de fumo).

Rotina rota (ou como se avisa nos filmes: Baseado em Factos Reais)

       Todos os dias da semana, a rotina de Hermínio estava tecida com liames tão débeis que, um dia, tinha mesmo de se romper. E esse dia aconteceu mais depressa do que ele estava à espera. Como a mulher entrava cedo ao serviço, cabia-lhe a ele despachar os três filhos, que tinham, respectivamente, dois, cinco e nove anos. O mais velho vestia-se sozinho, mas tinha de lhe preparar a papa da primeira refeição. Aos outros dois, vestia-os, calçava-os, dava-lhes de comer. Até sair de casa, era um corropio de mochilas, sacos, brinquedos, biberão, fraldas, dentes por lavar, cotonetes nos ouvidos, cremes na cara. Por volta das oito e trinta conseguia tê-los a todos dentro do carro, mais a bagagem que enfiava na mala atrás. Deixava primeiro o mais velho na escola, porque era o único que tinha horário, ficava dentro do carro até ele entrar no recinto, depois corria para o infantário e deixava o do meio, mas tinha de ir lá dentro com o o mais novo ao colo e a mochila dele pendurada do ombro porque tinha de ser confiado pessoalmente à educadora e ali ninguém lhe deixava qualquer margem de manobra para cedências. Entregue o número dois, corria até ao outro lado da cidade para entregar o mais pequeno à sogra. Terminada esta tarefa, e já se tinha afastado uma centena de metros de carro quando foi assaltado pela certeza de que se tinha esquecido dalguma coisa importante. Voltou a casa da sogra. Entreguei o menino, não foi? - Sim - E as fraldas descartáveis? - Sim - Não sabe se hoje ele tem vacinação? - Não, é Quinta, tu avisaste-me ontem! Pediu desculpas, e correu ao infantário. O filho estava a brincar na sala em cima dum tapete com outras trinta crianças, a educadora fez-lhe o favor de sair da cozinha e interromper o precioso café para lhe confirmar que não faltava nada, que estava tudo em ordem, e não havia nenhum detalhe incongruente, como chinelos nos pés ou calças de pijama vestidos. Saiu, só faltava um. Foi ao portão da escola primária. O mais velho estava na aula, tinha de esperar pelo recreio. Esperou. Quando soou a campainha, a funcionária foi pedir autorização, e lá o deixaram entrar. Falou com ele, e com a professora, e não, não faltava nada, trouxera tudo, livros e material escolar. E a ginástica, não precisas do fato-de-treino? Ainda perguntou, na dúvida, mas o filho lembrou-lhe que a ginástica era no dia seguinte. Antes de desistir da indagação, voltou à casa da sogra. Não falta mesmo nada? É que eu tenho a certeza de que me esqueci dalguma coisa...Desta vez, a sogra masquiu, com um ar de desaprovação - Se calhar, esqueceste-te de ir trabalhar, porque já são onze horas, mas antes, devias ir primeiro a casa tirar o pijama.

estória paralela 2

     Um empreendimento imobiliário em Cornwall, Inglaterra, levou à escavação duma área imensa para se construírem os alicerces das futuras casas. Enquanto as escavadoras estavam em acção, uma delas trouxe á superfície o fragmento dum rochedo com uma espada cravada até à bainha. A espada, à qual não se concedeu uma importância de maior, foi libertada do sua prisão de pedra e estimada pelos especialistas como datando do século V ou VI. Continua a ser estudada, mas é claro que, apesar da sugestão, essa espada não podia ser a Excalibur do rei Artur, que este retirou da pedra e empunhou até à morte.
     Ou podia.
     Podia ser que um homem astuto, como dizem ter sido Merlin, a tivesse ocultado no meio da vegetação, e tivesse criado uma réplica cravada num montículo de lama seca, para que o rei por ele escolhido, a extraísse sem esforço, para espanto e veneração dos que esperavam o seu advento.
     Podia ser...

Abrir e ver

     Os cientistas aguardaram que morresse o "homem-que-nunca-chorou". Sentiam uma natural curiosidade científica por aquele fenómeno. Como o "homem-que-nunca-chorou" não tinha família, perguntaram-lhe de viva voz se autorizava a autópsia e, diante do seu obstinado silêncio, iniciaram-na. Abriram os sacos lacrimais junto aos olhos, estavam intactos mas o sal petrificara-se na saída por onde deveriam fluir as lágrimas, o que era uma explicação credível para a ausência de pranto. A surpresa maior veio quando examinaram o resto do corpo, porque encontraram vestígios de sal por todo ele, em volta dos órgãos e no meandro das veias e nervos. Faziam lembrar, à escala microscópica, o leito seco de rios salgados.

O Imbondeiro


     Quando a família decidiu, em conjunto, regressar a Portugal, o avô Anselmo, o ancião da família, sentiu relutância em fazê-lo. Estava há quarenta anos em Angola, ali vira nascer os netos, ali nascera de novo para uma vida que não tinha nada a ver com as suas origens no interior beirão. Porque é que tinha de voltar? Perguntava aos filhos. Estes explicaram-lhe que era mais seguro, que a guerra civil já dizimara muita gente e que, não tardaria, podia acontecer-lhes o mesmo, e então, seria demasiado tarde para decisões ou escolhas. Acedeu, por fim, mas pediu ao filho mais novo, ao André, para levar com ele uma caixa de madeira com solo de Angola. Este concordou, preferindo essa bizarria do pai ao remorso que sentiria se ele ficasse para trás e viesse a descobrir mais tarde que tinha sido chacinado por beligerantes.
     De regresso a Portugal, o velho Anselmo não resistiu muito tempo e faleceu poucos meses depois. Fosse devido ao clima, a que já não estava habituado, ou fosse devido a uma agudização da saudade, essa enfermidade latente na alma dos portugueses e que pode eclodir e desenvolver-se duma forma acelerada e potencialmente mortal.
     Anselmo foi inumado no meio de rochedos escalvados na sua propriedade, a poucas centenas de metros da casa onde a sua família vivera durante gerações. Os filhos concordaram entre eles, que aquele era o lugar mais apropriado. Num relance, rochedos nus no meio do descampado, sob o Sol e o calor seco, pareciam reconstituir um lugar trazido dalgum ponto da savana africana. Durante o velório, André lembrara-se da caixa com solo angolano que pertencia ao pai, e esse solo foi disperso no fundo da cova antes de descerem o féretro.
     A história de Anselmo acabaria aqui, não fosse permanecer no coração dos que o haviam conhecido, e na paisagem daquele ermo na Beira Baixa. Com os anos, e não obstante todas as probabilidades consentidas pelos factores bióticos e abióticos presentes, germinou no ponto exacto da sepultura de Anselmo, um pequeno imbondeiro que cresce de ano para ano, sem sinais de debilidade ou deformação.
     Os filhos e netos de Anselmo acham que essa árvore insólita se deve a alguma semente trazida no solo angolano que estava encerrado na caixa de madeira, mas André, ao invés, acredita que a semente, trouxe-a Anselmo no coração.

A mulher

     Escreve. No Word, por hábito. Tinha manuscrito umas notas no moleskine, e agora tenta encadeá-las numa história ou conto.
     - Desculpe, interrompo? - Pergunta uma mulher que estica a cabeça pela porta que deixara aberta.
     (Uma porta de madeira maciça, de cor cerejeira, e dobradiças e puxadores em latão dourado, ou cor de bronze, que sempre gostara mais desses tons metálicos discretos, como os que deveriam apresentar as armas dos Aqueus).
     Ignora a mulher, e encadeia as notas do rascunho manuscrito, dedilhando rapidamente no teclado. Mas a mulher não se vai embora.
     - Interrompo, ou posso entrar?
     (Ela deve ter uns sessenta anos, pele sardenta no pescoço e bochecas, cabelos de um louro a fugir para o castanho, produto de sucessivas e desastrosas colorações. Também podia ter cabelos negros, como a Amélia, uma criada que houvera na casa dos pais, e que metia assim a cabeça pelo aro das portas, sempre receosa de estar a incomodar)
     - Posso entrar? - Voltou a perguntar.
     Assim não dava, não ia conseguir continuar com o que estava a escrever.
     - Não pode! - respondeu por fim - deixe-me a sós e, se eu precisar de si, chamo-a!
     Ela obedeceu. A mulher, o personagem feminino, eclipsou-se discretamente da sua história, permitindo que ele continuasse a escrevê-la.

Caminhantes

- Não compreendo isto…como é que estas pessoas conseguem sobreviver? – Começou por dizer á avó, que baixou o lume do fogão a gás para o ouvir com mais cuidado – eu trabalho de manhã á noite, seis dias por semana, ás vezes até mais, e mesmo assim nunca tenho dinheiro para o que preciso. Hoje de madrugada, quando ia para o trabalho, vi outra vez à beira da estrada o mesmo casal que vi no outro dia. A idade dos dois juntos pouco deve passar dos trinta, cada um deles empurra um carrinho de bebé; muito tranquilos e satisfeitos, como se todos vivessem do ar e não houvesse despesas, comida e roupas, vacinações e médicos, todas essas coisas.
- Não te deverias preocupar com isso – aconselhou a avó, com a sabedoria cumulada durante toda uma vida - Realmente, a culpa disso é o atraso e a ignorância das gentes, tem-se filhos quando ainda não sabe o que é ser mulher ou ser homem, e depois levam-nos á trela…
- Mas não é isso que mexe comigo. Os dois vão a pé a caminho da cidade com os filhos no carrinho, mas nenhum deles parece com ar de quem vai trabalhar, tem um ar airoso de malta em férias, sem preocupações de espécie alguma, como se estivessem a dizer-nos - nós debaixo do céu e Deus dá-nos o que nos faltar. Se nenhum dos dois trabalha, têm que ter alguém que os ajude, que apare os golpes, o que, com quatro crianças como aquelas, é quase uma missão impossível…
- Já te disse para não te preocupares com isso – voltou a avó, sem sinal de impaciência - temos que saber eleger as coisas com que nos devemos preocupar, e nessas não estão, de certeza, a situação daqueles que já morreram.

Um decálogo

Na Web pode-se encontrar diversos decálogos e conselhos sobre o ofício da escrita e, muito particularmente, sobre a elaboração de contos. Linco esta página da Ciudad Seva, que concede muita matéria para reflexão; e transcrevo um decálogo elaborado pelo escritor colombiano Esteban Dublín, que me pareceu de uma humildade e sensatez invulgares. Intitulou-o: "10 MANERAS DE SER PARA ESCRIBIR MICRORELATOS" (os sublinhados são meus):


1. Sé respetuoso. La literatura ha dado grandes maestros que pueden enseñarte. Antes de escribir, por favor, lee.
2. Sé implacable. Escribe tu historia como la sientes. Cuando escribes con sinceridad, dejas que hable tu corazón.
3. Sé inconforme. Aun cuando creas que tu micro está listo, reléelo y enfréntate a él. Puede ser una batalla feroz, pero al final, ambos terminarán ganando.
4. Sé riguroso. No dejes ninguna palabra al azar. Tienes muchas cosas para decir y poco tiempo para convencer.
5. Sé iluso. Deja que tu imaginación llegue donde tu razón no te deja. Lo peor que puede pasar es que encuentres algo nuevo que decir.
6. Sé humilde. No subestimes la inteligencia del lector. Por más grande que te sientas, siempre lo tendrás a él como tu juez.
7. Sé travieso. Diviértete con lo que escribes. Si logras sacarle una sonrisa al lector, no importa cómo denominen tu texto. Ya hiciste algo grande.
8. Sé persistente. Si tu historia no convence, escribe otra. En algún momento, la cadena se soltará a tu favor.
9. Sé agradecido. Tienes dones y facultades que otros ni siquiera imaginan. Hay problemas reales en el mundo más allá de que a unos cuantos no les guste lo que escribiste.
10. Sé necio. Nadie puede decirte como escribir.

A dignidade dos que foram

     Os pássaros enormes voltaram a pousar no muro alvo de cal. Depois dos corvos, eram estes que traziam mais preocupado, o casal de trabalhadores. Não ligavam nenhuma ao espantalho muito semelhante a uma pessoa, nem a ameaças ou gritos lançados de longe, das janelas do andar superior da casa onde os dois moravam, do lado oposto do muro. Os pássaros só saíam do solo, ou abandonavam as suas posições no muro quando alguém os corria a brandir e a esgrimir com a enxada. Aves teimosas e temerárias, sobranceiras, a desafiá-los o tempo todo, enquanto lambiam as penas das asas ou esfregavam os dentes do bico nas garras pontiagudas de uma cor semelhante ao bronze. Ele e a mulher revezavam-se para as manter à distância. Se um se demorava no interior da casa, o outro tinha forçosamente de andar cá por fora para manter a autoridade. A maior parte das vezes calhava aos dois trabalhar no exterior, com a pá, a enxada e o carro-de-mão. O casal estava encarregue de zelar pelo recinto, e cabiam-lhe todas as tarefas inerentes ao lugar. A população crescia, a população dos que ali estavam enterrados também, e havia que desalojar para a vala colectiva os ossos dos sepulcros mais antigos (ossos, e não apenas ossos) para arranjar espaço para mais sepulturas. E sempre e enquanto o faziam, havia que manter à distância aquelas aves indesejáveis. 

Dar corda

     Hora de ponta, com os dois no carro de regresso a casa sob um Sol inclemente de fim de tarde. O homem está ao volante, mas começa a denotar lentidão de reflexos e reacção, demora nos gestos. A mulher pede para ele encostar. "Deve ser do calor...", pensa ela, enquanto lhe levanta a camisola, aplica-lhe a chave nas costas e dá à corda até lhe repor a energia e as forças. Nessa noite, na cama de casal, a cena repete-se, com ele enganchado entre as suas coxas em plena penetração. Era demais. Como ainda estava dentro da garantia, no dia seguinte, foi entregá-lo à loja, para reparação. No impresso, inquirem a natureza da anomalia, e ela escreve: "hipersensibilidade ás variações térmicas".

pequeno mundo

     Quando a solidão aperta na casa grande, ajoelha-se diante da casa das bonecas, limpa os pequeníssimos móveis, pega em cada figura e sacode o pó das suas roupas e escova ternamente os seus cabelos com uma escova de bonecas. Logo em seguida, recoloca cada uma das figuras no sítio ou dispõem-nas em novos lugares, sentadas a uma mesa ou num sofá, deitadas nas caminhas ou a subir ou descer as escadas. Quando se inclina para as deitar na cama, embala-as primeiro nos braços como se fossem uma filha, a sua filha.

Conto tradicional da Nova Guiné

     Dois meninos, Hänsel e Gretel, andam perdidos pela selva e vão dar a uma cabana que uma feiticeira construíra como uma casa apetecível: sustentada por alicerces e armação de ossos, possuía lindos nacos de carne vermelha a forrar por fora as paredes e o telhado.

desporto-rainha


     Fim-de-semana era altura de sofrer pelo futebol. Renato ficava irrequieto, nervoso, trocava as palavras, suava da palma das mãos. Não via a hora de se sentar no sofá diante da televisão com o cachecol do clube em volta do pescoço e submeter-se à descarga psico-voltaica de noventa e tal minutos de sofrimento.
     Quando chegava a hora da transmissão televisiva, Renato já estava mais para lá do que para cá. Comera mal, tinha o estômago embrulhado e, regra geral, tinha um acesso de diarreia durante o jogo se a sua equipa sofria um golo, ou se o árbitro assinalava algum penalty contra ela. Num dessas torturas futebolísticas, Dona Ermelinda, a mãe de Renato, sentou-se ao seu lado no sofá, compadecida das suas lágrimas e do grito que soltara quando a equipa sofrera um golo. Dona Ermelinda passou o braço pelos ombros do filho, não sabendo mais o que fazer. Nesse preciso instante, zás, a sua equipa marca o primeiro golo, Renato grita de alegria, a esperança renasce. A bola volta ao grande círculo, faltam quinze minutos para o final, a partida recomeça, três, quatro toques, um centro para a grande área adversária, e GGGOOOOLLLLOOO!!. Empate. Renato está aos saltos em cima do sofá, abraça a mãe. Ainda festeja e nem vê bem o que se está a passar no jogo, quando a equipa marca de novo, GGGOOOOOOLLLLLLLLLLLLLOOOOOOOOOOO, e ainda uma outra vez antes do soar o apito final GGGGGGGGGGOOOOOOOOOOOOLLLLLLLLLLLLOOOOOOOOOOOOOOOO!!!!!!!!!!!.  Vitória! Vitória! Vitória!
     Renato festeja, Renato canta e cântica, Renato dança, Renato sai para beber um copo com os amigos, e só regressa na manhã seguinte, com a pele do rosto amarfanhada como um jornal velho e carregando uma ressaca maior do que ele. Dona Ermelinda levanta-se para lhe fazer um café forte, que era o mais indicado para ele limpar do estômago as borras da bebida.
     - Tu és o meu talismã, o meu feitiço, o meu encantamento - diz ele à mãe - a partir de hoje, vejo todos os jogos contigo ao meu lado. Enquanto estiveres comigo, a minha equipa nunca perde!
     Dona Ermelina aceitou. Se era só isso o que era preciso para filho andar contente...
     Mas aquele não era um segredo doméstico. No fim-de-semana seguinte, Renato tem vinte correlegionários em casa para assistir com ele ao jogo. A cerveja é à descrição. A equipa entra em campo e faz uma exibição sem mácula, triunfando com uma diferença de dois golos. Festança para o resto da noite.  
     Novo jogo na semana seguinte, o número de espectadores frente ao jogo duplicara, e a equipa de futebol corresponde ao que se espera e ganha por quatro bolas a zero. A casa quase vem abaixo com os gritos de alegria, os carros com simpatizantes vêem festejar para aquela rua com buzinadelas e toques porque, por todo o lado, já se espalhou a nova da boa estrela da Dona Ermelinda.
     Na semana que se segue, já não cabe mais gente na casa de Renato, mas as pessoas acomodam-se como podem e agrupam-se nos jardins, no passeio, na rua defronte. Havia sido montado um sistema de altifalantes para propagar o som da transmissão do jogo. Espera-se mais uma vitória, nada mais do que uma vitória, triunfo que representaria um salto importante na caminhada para o título de campeão nacional. Murmura-se que a notoriedade de Renato e de Dona Ermelinda já chegara à capital, e que era capaz de aparecer por ali uma equipa de reportagem televisiva - se é que já não estava por ali sem dar nas vistas, a colher testemunhos e a documentar a noticia.
     O jogo começa. Ansiedade geral, nervosismo em ponto de rebuçado. Aos cinco minutos, sofrem o primeiro golo, uma injustiça, porque estavam a jogar melhor e mais vistoso. Nada está perdido, um golo dá para dar a volta como a cobra que se esgueira da vara. Segundo golo sofrido, um golo estúpido, uma carambola sem jeito nenhum. Dona Ermelinda aperta os ombros do filho. A boca deste treme como se tivesse adquirido um novo tique. E Pumba! Terceira vez que a bola entra nas redes, poucos minutos antes do intervalo. O árbitro apita para o descanso. A rua esvazia-se, a casa e os jardins da casa também. Dona Ermelinda e Renato continuam sentados no sofá, ainda esperando, ele, uma recuperação milagrosa. Começa o segundo tempo. A equipa não está a jogar nada, e quase de rajada, entram os golos. Quarto Golo. Quinto. Sexto golo. O jogo descamba, todos têm a cabeça quente, há agressões no campo, batalha campal nas bancadas, carga dos policiais sobre a assistência. Acaba o jogo. Uma derrota por seis bolas a zero. Mãe e filho continuam sentados no sofá, mergulhados num silêncio fundo. Como da primeira vez, Dona Ermelinda não sabe o que fazer para mitigar o sofrimento do filho. Por fim, ele levanta-se sem explicação, vai ao quarto dela e traz um espelho de corpo inteiro que coloca diante dos dois. Olha a mãe pelo reflexo, espera descobrir uma alma do outro mundo, ou uma criatura extraterrestre. Mas não consegue, e decide enfrentá-la. Segura-a pelos ombros, e olha-a bem fundo nos olhos. A sua voz inquire, inquisitorial:
     - Quem és tu? Eu sei que não és a minha mãe! Quem és tu e o que é que fizeste da minha pobre mãe?

memento

   A avó, apesar da idade avançada, mantinha uma invejável saúde física e mental, produto, dizia ela, de ter sido criada com sopa de couves e leite de burra. Nos últimos tempos, no entanto, a avó tem fraquejado, não por ter achaques ou lapsos de memória, mas porque começou a sentir receio, e apenas receio, de se esquecer das coisas, e assim poder decepcionar os outros e a si mesma.
   Vai daí, a avó começou a deixar pela casa, lembretes das tarefas que a esperavam. Se no dia seguinte, pensava fazer sopa (daquelas sopas deliciosas dela, muito caldosas e com sal bem no limite do aceitável), então deixava a panela em cima do bico do fogão. Se era dia de cozer pão no forno de lenha, então bastava a concha da farinha no balcão da cozinha. E outras rotinas eram garantidas por outros sinais. A bandeja com chávenas de chá para a terceira Quinta-Feira do mês, quando o senhor prior vinha visitá-la e jogar uma partida de dominó, as linhas de tricô na véspera de ir visitar a prima Berta que morava quatro casas abaixo na rua, ou a bolsa das moedas quando começava a achar que era altura de ir ao merceeiro. O que nós nunca percebemos, era porque é que, na véspera de aparecer lá por casa o primo Diamantino, ela deixava penduradas na maçaneta da porta do quarto, uma das suas cuecas de gola alta.


Insonhando

   Pela noite dentro, quando o sono era pouco, ou muito à superfície, ele dava por si a nutrir-se de fascínio pelas formas dinâmicas daquele corpo de mulher. Com ela ao seu lado na cama, ele rememorava a facilidade com que se desembaraçavam das roupas, o lirismo da forma como as cuequinhas dela deslizavam pela curva das nádegas, afuselavam nas coxas, para em seguida contornar docemente a barriga das pernas como mãos levíssimas de tecido. Com o peito era o mesmo. Quando lhe despia a camisola, ela esticava os braços sobre a cabeça, costas da mão com costas da mão e o torso arqueado com os seios esticados para ele, e a camisola passava pelos ombros como uma bebida murmurante pelo gargalo escorreito duma garrafa. O próprio acto de despir era uma carícia mais para ambos. E pela noite dentro, quando o sono era pouco, ou muito à superfície, ele dava por si a nutrir-se de fascínio por isso, até o sono sobrevir, ou fugir de vez, alturas em que ele começava a sentir medo de ficar quase-sozinho no escuro como uma criança desamparada e procurava acordá-la para ter companhia.


Reciprocidade

   Viver em sociedade foi para ele uma longa aprendizagem da reciprocidade, e revelou ser nisso um aluno brilhante. Alguém fazia-lhe um favor, ele fazia outro em troca, uma atenção por outra atenção, uma ajuda por outra ajuda, um trabalho pelo pagamento desse trabalho, a lealdade para com aqueles que lhe eram leais, a amizade pelos amigos. Só falhou no nobre exercício da reciprocidade quando um bandalho qualquer o matou.

plano B

   - É fácil de achar, não há como enganar - explicou-lhe o porteiro do prédio - O senhor sobe ao primeiro andar pelo elevador. A partir daí segue as setas indicativas até chegar a um corredor largo com uma janela ao fundo. Na terceira porta desse corredor, à direita, é a Secção de Perdidos e Achados que procura. Se se desviar no caminho ou constatar que anda ás voltas, sente-se no chão do corredor em que se encontra com um ar assustado de animal perdido, que alguém acabará por conduzi-lo lá.

Zapping

Zap. Numa sala espaçosa, com decoração Art déco, uma senhora com óculos de professora olha-me por cima dum livro de poemas de Tennyson.
Zap, uma carrada de burgessos comendo hambúrgueres e batata frita.
Zap, uma criança procurando canais pouco infantis.
Zap, dois namorados a nu a partilhar fluidos.
Zap, um velhote meio caído no sofá a ter uma síncope.
Zap, uma pequena multidão buliçosa num café de rua.
Zap...Zap...
Não se encontra nada de jeito nestas casas.
Zap, uma cara sardenta colada ao écrã. Oh, nnnããooo! Viu-me, e vai apagar a televis...

I've Been Hurting You Too Long

   Estava farta, já era demais! Cada palavra sua era um golpe ou um breve escárnio, e cada frase, uma promessa latente da violência que se ia acumulando. Queria dizer-lhe, que ele não tinha o direito de a tratar daquela maneira, reagir, impor-se. Mas acabou por guardar as palavras, envoltas em silêncio. Guardava-as sempre. O medo falava mais alto.


Morfeu

   Era da parte de manhã, num dia de calendário que não poderia precisar, do mês de Outubro, sim, era Outubro, sabia-o por o ouvir dizer a uma das visitas do seu vizinho de quarto no Hospital. Recapitulando, era Outubro e era manhã. A cama de Morgeu Morfado não era confortável, longe disso, lembrava-lhe uma tábua de passar a ferro. Morgeu estava deitado com a nuca ao lado da almofada. As cores que conseguia reter eram poucas - o creme da armação da cama e o branco fosco das paredes e tecto. Ah, e o marfim amarelado dos dentes de fumadora da enfermeira que se inclinou sobre ele para lhe perguntar se queria comer mais. Para além disso, não havia mais nada. Havia uma janela, mas não a via naquela posição, apenas a sua luz, doentia (até a luz é doentia num hospital).
   E assim estava Morgeu Morfado de olhos a fecharem-se com o sono quando a vida, toda a vida, lhe entrou pelos olhos adentro, inundou-o como uma enchente cromática, encharcou-o de cores, imagens e sons, aturdiu-o com a vontade que sentia de rir e gargalhar e desfazer-se em risos e gargalhadas. Morgeu Morfado pensou que deveria estar a morrer e o Céu descia até ele, e teve um derradeiro pensamento de que a vida lhe fora breve demais, não a usara por inteiro, não lhe vira o fundo como a um copo de vinho que nos oferecem. Quando sentiu as lágrimas humedecerem esse pensamento, viu de novo diante dos seus olhos a cara da enfermeira de dentes amarelos.
   - Perdoe-me, senhor Morgeu, já baixei o som da televisão. Ainda não me habituei a este aparelho.
   Então era isso, a televisão! Pensou Morgeu, e achou que era melhor dormir um pouco, e virou-se de lado na cama, mesmo a tempo de ver a sua bisavó á sua beira, sorrindo e estendendo a mão para lhe fazer festas na cara, como fazia quando ele era rapaz.
   Caramba! A sua bisavó! Quantos anos ela já conta! Para aí uns cento e cinquenta… - calculou de cabeça. 

epi-Sódio burguês *

   Princípio de tarde numa casa de família, na calma tépida dum dia feriado. Soa o telefone e é a mulher do casal quem atende, atirando para cima do sofá o suplemento de Economia que lia.
   - Estou?
   No outro lado da linha, apenas silêncio. Quase se ouve a respiração dalguém no bocal, e a chamada cai.
   Ela volta a pegar no jornal, quase ao mesmo tempo que o telefone volta a tocar. Corre de novo para ele, atende, e a chamada volta a cair. Isto acontece mais duas vezes, até ela se fartar. Já tem a pulga atrás da orelha. Chama alto pelo marido que sobe da cave, onde se entretinha a arrumar a garrafeira.
   - Chamaste-me amor? - inquire.
   - Senta-te - ordena, com uma voz imperiosa, inflexível - ligaram para aqui três vezes seguidas. Devia ser para ti, porque desligavam sempre que eu falava. Devia ser dalguém que se esquecera de que eu, aos feriados, também ando por cá. Quem era, amor? Ou aliás, quem é vaca com que tu andas enrolado agora?
   - Mas...estás enganada! Não há mais ninguém, nunca houve, desde que nos casamos!
   - Cala-te! Sabes que eu detesto mentiras e detesto cobardias e, acima disso, só detesto cobardes que mentem. Fala duma vez!
Ele evade-se ás palavras e começa a chorar intempestivamente. Entre soluços e brados de arrependimento, lá vai contando.
   - Não é ninguém que se compare a ti...não tem importância alguma...eu não queria, mas ela é que se atirou a mim...é só sexo, amor, uma coisa de nada, e nem sequer sabe fazer bicos como tu...
   Volta a soar o telefone, e ela corre, determinada a cuspir fogo. Encosta o telefone à cara e faz um compasso de espera. Mas desta vez, ouve palavras do outro lado.
   - É a Bárbara?
   - Sim...
   - Sou eu, a Edite, a tua sogra. Queres lá saber, ontem vieram cá instalar um telefone novo que é só funções e teclas novas. Não percebo nada disto. Já tinha ligado para aí uma meia dúzia de vezes, e ainda não descobrira se já tinha feito a ligação ou não...





* "Na forma metálica o sódio é explosivo, em água é venenoso quando combinado com muitos outros elementos" (Wikipédia)


vocação

    Passeando pela praia, o menino encontrou um castelo de areia sem dono. Foi buscar os seus utensílios de praia e em pouco tempo transformou-o num condomínio privado, com vedações e portão vigiado, piscinas, campos de ténis e de golfe. Foram os primeiros passos dum futuro especulador imobiliário.

estória paralela

(Franz Kafka, de Andy Warhol)

    Franz, jovem franzino e infeliz, ouviu do seu amigo Max Brod uma história pitoresca, e que era mais ou menos a seguinte: Quando o romancista francês Ponson du Terrail criou as aventuras de Rocambole, eram tantos os personagens que participavam do enredo que ele teve a ideia de mandar fazer umas figurinhas em madeira para os representar, figuras que ele dispunha em cima da secretária como peças de xadrez enquanto escrevia. Quando decidia juntar dois personagens, unia-os com uma fita vermelha, quando matava um personagem, deitava-o sobre o tampo da mesa. Fiado nesse método, Ponson du Terrail estruturou toda a trama dos livros de Rocambole, ignorando que a mulher que lhe limpava a casa e que tomava as figuras como vagos bibelôs, anarquizou o método, colocando de pé figuras que encontrava deitadas, e juntando ou separando outras com aquelas insignificantes fitas vermelhas. Era essa razão pela qual as aventuras de Rocambole eram tão confusas, com personagens que voltavam à história depois de terem estado mortas, ou então, que deixavam de aparecer de um capítulo para o outro, como se se tivessem volatilizado, para não mencionar a lista impressionante de casamentos, separações e episódios de viuvez da história, que nenhum leitor era capaz de perceber.


   Inspirado por essa história curiosa contada pelo amigo, Franz Kafka decidiu seguir o exemplo do escritor francês, mas com as devidas precauções. Pediu a um carpinteiro de Praga que recortasse numa fina folha de madeira uma silhueta vagamente humana que, a seu pedido, foi colada e pregada a um pequena calha em él para que se sustivesse em pé; calha, que por sua vez, foi colada e pregada ao tampo da mesa em que Franz habitualmente escrevia. Franz escreveu na figura um capa maiúsculo, como em Kafka, como em Josef K., ou no agrimensor K., e consubstancial a Gregor Samsa e a todas as suas criações intentadas ou pensadas.


   Dessa forma, Kafka nunca perdeu o fio à meada de K., aos seus dramas e desventuras, e é curioso verificar que, tantos anos depois da morte de Kafka, a figura de K. mantém-se de pé sobre o tampo da mesa.

Objectos inanimados (uma fábula bondosa)




   Todos os objectos que rodeavam as pessoas estavam cientes de si e dos seres e substâncias que os rodeavam e preenchiam, mas não havia nem intenção nem sinal de saírem dessa sua inanição. Quando o começaram a fazer, foi com cautelosa timidez, na escuridão da noite e na penumbra dos silêncios. 


   Progressivamente, as pessoas começaram a notar incongruências no seu mundo, bizarrias, que atribuíam a esquecimentos pessoais ou a brincadeiras de terceiros, em carne e osso ou nalguma forma espectral e assustadora. As camas em que dormiam e os móveis domésticos amanheciam em posições inusuais; pela noite fora, conseguia-se ouvir, por vezes, o murmúrio abafado das maçanetas de porta que abriam e fechavam, divertidas; dos talheres que brincavam nas gavetas, da roupa nos armários que se enrolava em jogos fofos.Pela rua fora, acontecia o mesmo.Quando sentiam que não tinham olhos humanos pousados neles, as gruas sob a luz da lua rodavam incessantemente sem sopro de vento, os carros dançavam e chegavam a ser encontrados pela manhã apoiados sobre um dos lados ou sobre o tejadilho. Aliás, todas as ruas e estradas, sobretudo as mais escuras e vazias, eram palco de pequenos fenómenos, desde candeeiros altos de metal que se contorciam por vontade própria, a tampas circulares de esgoto que rodavam pelas ruas como aros conduzidos por crianças invisíveis.


   Era evidente, para quem começava a ter consciência do que se estava a passar, que esse estado de coisas acabaria por ter um fim, por evoluir para uma situação ainda mais grave e incontrolável. E esse dia acabou por chegar, da pior forma possível e de forma simultânea em quase todas as partes do mundo. Uma manhã chegou, em que os objectos não escondiam mais as suas diabruras e exibiam os seus movimentos autóctones diante dos olhos de todos. E as pessoas observaram-nos com terror, rodeados e cercados como estavam, por todos eles. Em incontáveis olhares humanos podia-se ler o medo, o terror gelado e profundo, o desespero que se perlava nas suas lágrimas assustadas.


   Mas não se ouviu ninguém gritar, nenhum humano protestou, pelo menos, de forma clara. Na noite que precedera a manhã do terror, todas as suas línguas haviam sido cortadas pelas tesouras (elas nunca haviam escondido dos outros objectos, as suas pretensões à tirania).

Retweet 4

   O aderecista acordou pela manhã. Abriu a janela, olhou o céu e não gostou do céu que via. Mudou-o.



A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...