O rio e as margens

   Nuno Sequeira senta-se à sua mesa de trabalho, e o seu olhar amarelece logo com o post-it do director do jornal colado ao monitor. O que seria desta vez? Uma sarau literário na Biblioteca ou uma reunião da Tupperware? Suspirou e foi à sua procura. Descobriu-o ao pé da máquina do café. Um aperto de mão tímido, um toque evasivo no ombro.
   - Em que é que estás a trabalhar agora, Pulitzer?
   A alcunha era inofensiva, mas Nuno Sequeira não gostou, na verdade, nunca gostara de a ouvir.
   - Acabei aquela matéria sobre o torneio de futebol júnior e ia começar a outra que me incumbiu sobre as festas da cidade.
   - E por detrás de tudo isso, o que é que tu andas a magicar?
   - Tenho aí uns dados, um pouco ténues ainda, sobre corrupção no poder local, uma matéria quente que envolve dois vereadores e três construtoras...
   - Uma coisa em grande, como de costume. Seja...não te posso impedir de pensares por ti mesmo nem de seres ambicioso, desde que  isso não interfira com o resto do teu trabalho neste jornal. Sabes disso, não sabes?
   Sabia, como sabia o que se iria seguir.
   - O que temos aqui é um jornal pequeno, um jornal de cidade pequena e da sua região, e gosto que as pessoas nos leiam como quem recebe um membro da família que tem um monte de novidades para contar. Uma das primeiras coisas que as pessoas lêem neste jornal é a secção da necrologia, porque é o seu reduto identitário; a cidade pode crescer, transformar-se e deformar-se mas aí elas reencontram as figuras da sua memória de vida e de cidade, os seus personagens e os bons e os maus sentimentos que eles lhes inspiravam em vida...
   - Eu percebo isso e tenho tentado corresponder a essa visão das coisas - interveio, para abreviar o discurso.
   - Claro que sim, e agora vou pedir-te mais uma demonstração da tua lealdade, se assim podemos chamar, um trabalho talhado para um profissional como tu que escreve melhor do que média de jornalistas.
   - Qual é o tema?
   - Morreu um carteiro na cidade, foi atropelado por uma camioneta de passageiros quando rodava na sua bicicleta. Não quero que seja apenas um rectângulo na secção de necrologia. Eu conhecia-o, e era um carteiro à moda antiga, um homem bom que falava com as pessoas e as conhecia. Quero de ti um artigo extenso com densidade humana, vou dar-te um ou dois nomes de pessoas a quem podes entrevistar, e estruturas a matéria a partir daí. E já que gostas de mistérios, aceno-te com um - o saco de couro do carteiro desapareceu, suponho que terá sido roubado por algum ganancioso esperançado em encontrar um envelope com dinheiro, mas acho que conseguirás deslindar isso, Pulitzer.
   - Obrigado pela oportunidade, patrão - agradeceu, sem ponta de ironia, já intrigado, como o director esperava, pelo detalhe do saco desaparecido.


*

   A sua primeira entrevista foi à Dona Ermelinda, uma viúva que vivia desde sempre no bairro. Se ela conhecia o carteiro? Claro que sim, todos o conheciam e gostavam dele. O senhor Almeida era atencioso e simpático. No dia em que era habitual os reformados como ela receberem a sua pensão, ele fazia questão em alterar a sua volta para entregar em mãos as pensões, antes de tratar do resto da correspondência. E vira-o no dia do acidente? Não, não o vira, mas sabia que ele havia passado pela rua porque tinha uma carta da nora na caixa de correio do prédio. Quem lhe poderia falar melhor sobre o carteiro Almeida, era o senhor Arlindo, da mercearia ao princípio da rua, porque os dois eram amicíssimos - indicou.
   Seguiu o conselho e pediu ao senhor Arlindo da mercearia para lhe fazer umas perguntas. O Almeida? O Almeida era uma jóia de pessoa, declarou, e a sua morte tinha sido uma coisa trágica, muito triste mesmo, declarou-lhe com a voz embargada. Desculpe estar a remexer no assunto, mas vira-o no dia do acidente? Sim, claro, viu o Almeida a subir a rua com o seu saco, mas vinha a butes, devia ter tido algum furo na roda da bicicleta. Ainda lhe acenara para lhe perguntar se queria beber alguma coisa fresca, mas o Almeida encolheu os ombros e sorriu, que era um tique que ele tinha quando queria dizer a alguém que tinha muitas coisas para fazer. Como estava muito calor e continuou na sombra fresca do alpendre, o Arlindo pode observar que o Almeida ainda fora bater à porta dos Ramos, um casal que tinha uma casa térrea a meio da rua, com o número dezassete. O Arlindo observou que ele enfiara correio na ranhura da caixa e que trocara algumas palavras com o casal que estava sentado cá fora no pequeno jardim fronteiro.
   Agradeceu-lhe, tomou notas, fez um croquis sumário da rua, e foi bater à porta dos Ramos. 
   Disse ao que vinha e mandaram-no entrar para o pequeno jardim. Sentou-se ao lado da senhora Ramos num banco formado por uma tábua carunchosa pregada a dois socos de raiz de árvore. O marido perguntou-lhe se queria tomar alguma cerveja e, como ele recusasse, ele voltou para o que estava a fazer, a sachar as ervas entre os canteiros. Viram o Almeida no dia em que morrera? Sim, vimos, estávamos cá fora, como agora, respondeu a mulher; pôs o correio na caixa, e eu disse-lhe que devia estar cheio de calor, porque era meio-dia, e ele andava assim a subir e descer ruas. Ele riu-se e abanou o saco por cima da cabeça, e disse-nos que acabara o trabalho porque a nossa era a última carta a ser entregue. O meu marido ainda lhe ofereceu uma cerveja, mas ele recusou e voltou a afastar-se com pé ligeiro. Foi a última vez que o vimos, deve ter sido atropelado quando voltava para casa, o coitado. Nunca mais vai haver por aqui outro como ele. Os carteiros mais novos só gostam de fazer barulho com as motas e andam tão depressa que não vêm nem falam com ninguém.
   Nuno agradeceu-lhe e dirigiu-se ao carro. Já tinha densidades humanas que chegassem, e agora só precisava duns quantos factos para alinhavar o artigo. Dirigiu até à esquadra da Polícia para os obter. Reatara relações com a Sandra, uma agente temperamental mas tremendamente desejável mas, infelizmente, ela não se encontrava presente na esquadra. Passou ao plano bê, bê de Botas, o nome do agente com quem tinha mais confiança ali dentro. Chamou-o à parte. Vais Sábado ao ginásio? Perguntou-lhe. Podíamos jogar umas partidas de squash, e depois bebíamos uma cerveja ou duas no bar. O que é que precisas, perguntou o Botas com o ar mais natural do mundo, e Nuno explicou-lhe. O Botas sabia do carteiro atropelado, podia-lhe arranjar uma cópia do auto e enviar-lhe por fax, se ele quisesse. Nuno deu-lhe o número de fax e de telefone de casa, e pediu-lhe para tentar saber alguma coisa sobre o saco desaparecido do carteiro. Caso ele não pudesse, ele pedia depois à Sandra. O Botas prontificou-se a ajudá-lo. Depois digo-te alguma coisa, assegura.
   Nuno ruma directamente para casa. Está exausto e todo transpirado. Toma um bom banho, veste um fato de treino e serve-se dum uísque com duas pedras de gelo. Envia um SMS à Sandra a perguntar-lhe se não queria passar por lá mais tarde, ele fazia uma salada para acompanhar um excelente vinho branco que lhe tinham oferecido e podiam ficar por ali, ou sair e ficar por ali. Envia a mensagem, e ordena as notas que tomara naquela tarde. Rebobina o gravador. Sandra responde, também por SMS - "és um querido, eu levo-me a mim mesma, sem embrulhos. Beijos". Sorri, é quase felicidade. Toca o telefone. É o Botas. É pá! - diz-lhe - o saco do carteiro apareceu, vazio, como a gente esperava, roubaram tudo. E adivinha onde é que o encontraram? Pendurado na vedação da casa do carteiro! Nem mais. Olha, já te mandei o fax. Depois, a gente vê-se no ginásio. Bye!
   Levantou-se e foi buscar a folha ao fax com o auto do acidente. Sentou-se. Pesadamente. Tinha de se sentar. A primeira coisa que os olhos descobriram na folha, foi a hora do acidente mortal - 9:15 da manhã! Quase três horas antes dele entregar a carta ao casal Ramos.
   Encostou o copo gelado à cara. Havia coisas do caraças!

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