O braço direito

   Anton Mustafaj, activista político e lutador contra a o totalitarismo, saiu de sua casa e embrenhou-se nos bosques a poucos quilómetros do Mar Adriático. Procurava um pouco de isolamento para poder reflectir. Naquele momento, era apenas um homem solitário e preocupado, não o político que voltara ao seu país depois de décadas de opressão e cujos escritos inspiraram tantas pessoas a ponto de lhe ser outorgado um Nobel da Paz. Essa foi, aliás, a última vez que foi visto com vida. O seu corpo foi encontrado numa clareira do bosque, num ponto em que se duvidava se ele estava no seu próprio país, ou se o seu corpo tombara em território do Montenegro. 
   Foi desenhada com tinta uma linha de silhueta do corpo e chamaram-se topógrafos para corroborar os dados do GPS. Demoraram muito tempo a lá chegar, porque tiveram de partir da capital. Enquanto o corpo recebia na capital as honras fúnebres oficiais, o veredicto dos topógrafos foi veemente - Anton Mustafaj morrera em solo pátrio, no país que tanto amava e onde era venerado como um paladino da liberdade. Apenas um dos braços, o direito, estava em território do Montenegro, o que não era relevante, mesmo porque Mustafaj era esquerdino a escrever.
   Enquanto patriotas e democratas choravam a sua morte (tão novo, e de coração tão fraco!), e chegavam ao país condolências de estadistas de todo o mundo; uma cadeia de telefonemas internos felicitava de forma encriptada o sucesso do estrangulamento de Mustafaj, ao mesmo tempo que censuravam aquele detalhe do lugar em que caiu, apenas contornado pelo pintar duma segunda silhueta a quilómetros do ponto em que o corpo fora descoberto.

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