No Hospital

- Pai, está-me a ouvir, pai?
- ...
- Sabe quem eu sou, não sabe, pai? Sou um dos seus filhos, um dos seus muitos filhos. Lembra-se de mim, não se lembra?
- ...
- Pai, sou eu, o Rogério, o seu filho, sabe quem eu sou, pai?
- ...
- Pai, tem frio? Quer que chame a enfermeira? Está-me a ouvir, pai?
- ...
- Pai, está-me a ouvir, é o Rogério. Consegue ouvir-me?
-...
- Tem sede pai? Quer água, pai? Sabe o que é a água, não sabe?
- ...
As perguntas sucediam-se sem resposta e repetiram-se durante toda a hora da visita, ecoando no murmurinho discreto dos quartos próximos. No corredor para a saída, uma visita do quarto defronte abordou o Rogério.
- Hoje esteve difícil, não foi?
- Sim, sabe como é - são muitos anos em cima! E ele começou a ficar assim já por alturas do Êxodo...

3 comentários:

  1. Está escrito com maiúscula, como em A Velhice do Padre Eterno, de Guerra Junqueiro.

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  2. Tentei fazer uma pergunta-brinquedo José. Creio que para cada povo que se vai, seu êxodo será maiúsculo.
    Não conheço o livro citado.

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arenga sobre o amor

«Tu és a mulher amada: destrói-me! Tua beleza /Corrói minha carne como um ácido! Teu signo / É o da destruição! Nada resta / Depois de ti ...