Claque Zoo

   As novas do mercado de transferências caíram como uma bomba no bar do estádio: João Romeiro, excelente jogador de futebol, nado e criado como jogador nas escolas do clube, havia assinado contrato com o clube arqui-rival e arqui-execrável. Os ânimos ficaram exaltados. Como é que fora possível o João fazer uma coisa daquelas? O João não era nada quando os olheiros do clube o toparam, trabalhava num supermercado para sustentar a avó com quem vivia, e o clube pagou-lhe tudo, a renda da casa da avó, as passagens para a Academia de Futebol, e um salário invulgar para uma promessa e uma incógnita. Agora que dera provas de ser um bom jogador, em vez de retribuir, mudava-se para o clube rival pela sanha do dinheiro, como um mercenário sem princípios e sem gratidão.
   Isto não pode ficar assim! Quem o dizia era Emerson, o mais inconformado. Juntou cinco amigos e companheiros da claque principal do clube e instigou-os: Vamos dar uma lição ao cabrão'João!
   E foram. Foram de carro e estacionaram frente ao prédio de apartamentos em que João vivia, e esperaram por ele, junto à porta, sem cachecóis ou insígnias da claque para que ele julgasse que era um grupo de novos acólitos. João chegou, num carro que era uma bomba, acompanhado da loura namorada bombástica. Eles aproximaram-se como se fossem pedir um autógrafo e apontaram-lhe uma arma, entrando todos com ele no prédio e no apartamento. O João e a namorada forma manietados e receberam uns tabefes para aprenderem a lição. Vamos comê-la? Ainda perguntou um dos companheiros de claque, mas Emerson achou prudente manter alguma ordem, e os dois foram fechados numa dispensa, enquanto eles iniciavam a destruição.
   E começaram a partir coisas, e relatavam aos outros. Assim, um deitava ao chão três bibelôs de louça e gabava-se:
   - Parti três cacarotes!
   Outro dava quatro pontapés na televisão de plasma e cantava.
   - Dei quatro pontapés no televisão do cabrão'João!
   E outro: Parti dez vinis ao gajo! Ou Mijei duas vezes no quarto deles!
   E diziam aquelas coisas e aqueles números apenas por dizer, porque no universo do futebol o que importava não era ganhar ou ficar à frente, mas competir e participar com muito desportivismo.

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