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A mostrar mensagens de Setembro, 2011

O rio e as margens

Nuno Sequeira senta-se à sua mesa de trabalho, e o seu olhar amarelece logo com o post-it do director do jornal colado ao monitor. O que seria desta vez? Uma sarau literário na Biblioteca ou uma reunião da Tupperware? Suspirou e foi à sua procura. Descobriu-o ao pé da máquina do café. Um aperto de mão tímido, um toque evasivo no ombro.
   - Em que é que estás a trabalhar agora, Pulitzer?
   A alcunha era inofensiva, mas Nuno Sequeira não gostou, na verdade, nunca gostara de a ouvir.
   - Acabei aquela matéria sobre o torneio de futebol júnior e ia começar a outra que me incumbiu sobre as festas da cidade.
   - E por detrás de tudo isso, o que é que tu andas a magicar?
   - Tenho aí uns dados, um pouco ténues ainda, sobre corrupção no poder local, uma matéria quente que envolve dois vereadores e três construtoras...
   - Uma coisa em grande, como de costume. Seja...não te posso impedir de pensares por ti mesmo nem de seres ambicioso, desde que  isso não interfira com o resto do teu trabalho …

diálogo

- É muito estranho, mãe. E vai-me custar muito, acho que a minha pele não vai aguentar!- É a natureza, filha. Tu és uma moça e isso acontece ás moças enquanto são moças e durante quase toooda a sua vida de mulheres! - Mas não há outra forma? - Não, não há! - E se eu mudasse de sexo? - Não digas disparates. Homem é bicho, e não queres ser bicho, pois não? - Não, mas pelo menos podia voltar a tomar banho só uma vez por ano.

pós-conceito

- Convidas-me para entrar em tua casa?
Ela mirou-o de alto a baixo. Os sapatos pequenos de mais, o volume na perna causado pela cauda enrolada, o chapéu de palhinha na cabeça para ocultar os chifres serrados.
- Não sei se deva...E também tenho visitas em casa!
- Seja! De qualquer forma, fico muito contente. A tua mãe iria gostar de saber que as operações resultaram, e que ninguém te distingue duma humana.

perguntas

«Leonor, minha amiga, sabes que eu sou uma pessoa muito despistada e a milhas de tudo...». começou T., algo ansiosa.
  «Sim, diz o que queres»
  «Sabes se a seiva das árvores pode ser escuro, assim de cor negra ou vermelho escuro...»
  «Não acho que não, é assim de cor creme, ás vezes mais esbranquiçado, outras a fugir para o castanho claro ou...»
  «E a seiva dos pinheiros? - interrompeu-a - a resina, ou lá como é que chamam, que aqueles homens extraem fazendo aqueles cortes horríveis nas árvores. Pode ser dessa cor, negro ou vermelho?»
  «Não, claro que não. Mas porque é que fazes essas perguntas estranhíssimas?»
  «Não te posso dizer...não ias gostar. O que eu te digo, é que nunca mais volto a sair com um homem que se chame Pinheiro!».

Retweet 3 (o outro Dia da Árvore)

Planta uma árvore!
- porque o mundo precisa de livros.  Escreve um livro! 
- porque o mundo precisa de quem os escreva.  Faz um filho! 
- porque o mundo precisa de lenhadores.



(+ chilreios)

retweet 2

Imagem
"...Amas-me! / Não me amas! / Amas-me! / Não me amas!..." - ia entoando, enquanto depilava com uma pinça o sovaco da sua amada, Margarida.




(+ chilreios)

a estratégia

Um monge budista a quem havia sido dito que ainda tinha pela frente, cento e trinta encarnações diferentes, imolou-se pelo fogo para se descartar daquela que cumpria.


E reencarnou numa bela borboleta, que voou para dentro duma fogueira.


...e reencarnou outra vez numa bela borboleta, que voou para dentro duma fogueira...


...e reencarnou outra vez numa bela borboleta, que voou para dentro duma fogueira...


...e reencarnou outra vez  numa bela borboleta, que voou para dentro duma fogueira....


...e reencarnou outra vez numa bela borboleta, que voou para dentro duma fogueira...


...e reencarnou num leão-marinho no Oceano Glacial Árctico.

"sem chama"

No espectáculo de circo todos na aldeia adoraram ver o prolongado número do homem traga-chamas. Na manhã seguinte, uma manhã cinzenta e gelada, ninguém na aldeia tinha fogo. 
   Foi um dia terrível para a chegada das primeiras neves.

The Mole

Após anos de investigações e suspeitas dos Serviços Secretos, foi finalmente capturada a Toupeira que operava no Pentágono. Uma operação-relâmpago deteve-a antes que pudesse engolir a cápsula de cianeto que trazia consigo.
   Neste preciso instante, a Toupeira está encarcerada num compartimento de Alta Segurança nos subterrâneos do Pentágono. Os testes de ADN procuram determinar a sua verdadeira identidade e origem, e os cientistas ultimam os exames, antes de cederem o lugar aos agentes que o interrogarão, como aquele que está próximo à Toupeira, um agente estagiário imberbe que consulta as determinações da Convenção de Genebra sobre a tortura.
   Metida numa pequena jaula suspensa do tecto, a Toupeira limita-se a aguardar com uma expressão de angústia no seu focinho cónico, enquanto as mãos polidáctilas de unhas compridas raspam no ferro das grades.

O braço direito

Anton Mustafaj, activista político e lutador contra a o totalitarismo, saiu de sua casa e embrenhou-se nos bosques a poucos quilómetros do Mar Adriático. Procurava um pouco de isolamento para poder reflectir. Naquele momento, era apenas um homem solitário e preocupado, não o político que voltara ao seu país depois de décadas de opressão e cujos escritos inspiraram tantas pessoas a ponto de lhe ser outorgado um Nobel da Paz. Essa foi, aliás, a última vez que foi visto com vida. O seu corpo foi encontrado numa clareira do bosque, num ponto em que se duvidava se ele estava no seu próprio país, ou se o seu corpo tombara em território do Montenegro. 
   Foi desenhada com tinta uma linha de silhueta do corpo e chamaram-se topógrafos para corroborar os dados do GPS. Demoraram muito tempo a lá chegar, porque tiveram de partir da capital. Enquanto o corpo recebia na capital as honras fúnebres oficiais, o veredicto dos topógrafos foi veemente - Anton Mustafaj morrera em solo pátrio, no país q…

...

Ela queria dizer-lhe que o amava e que queria que ele ficasse, mas não o fez. Disse-o por ela, o toque da sua mão, a linguagem inequívoca do seu beijo.
   (O avião inocente a manobrar na pista, pareceu-lhe uma imagem duma violência insuportável).

Cassandra

- Esse vício, um dia, ainda vai ser o teu fim... - censurava-lhe a companheira, de cada vez que o via a segurar uma chávena de café.
   Vício? Qual vício e qual fim? Perguntava-se ele com perplexidade, ele que era um indefectível defensor das virtudes do café e da sua ingestão frequente, que chegava a sentir a contiguidade do paraíso no aroma do café e para quem o doce rilhar do moinho do café equivalia ao som celestial dum coro angélico.
   Profecia ou não, as palavras da companheira provaram ter algum fundamento, quando o cafeinómano foi atropelado por uma carrinha carregada de sacas de cinquenta quilos de café de variedade arábica.

Nacional-ismos

- Já é segunda vez este ano que o router avaria! - resmungou o velhote para o técnico que abria o aparelho para o tentar reparar - A segunda vez! E uma coisa eu lhe garanto, dizem muito mal do Salazar, que ele era isto e ele era aquilo, mas eu tenho a certeza de que no tempo do Salazar isto não acontecia!

Terminologias

Na hora de recreio da escola, o pequeno atreveu-se a roubar um carrinho a um colega.
Carjacking Este não se fez rogado e investiu sobre ele como um touro, humilhando-o à frente de todos.
BULLyng Chamados ao director da escola, este, além de lhes prometer castigos exemplares, mimou-os com hora e meia de prédica sobre a necessidade de disciplina e a auto-preservação da instituição escolar.
Brain fucking

jogos mentais

- Tenho tido umas fantasias de cunho erótico com a minha psicanalista. Ponho-me a imaginar que ela lambe um busto de Freud em chocolate até ele desaparecer por completo...
- Uma fantasia muito estranha...e contaste-lhe, para ela analisar?
- Claro, mas ela não me disse nada ao respeito...Mas reparei que ela trocou o busto de Freud que lá tem pelo busto de um tal Sándor Ferenczi.

Perguntas

Primeiro, assinalou a sua presença:- Estou aqui! Em seguida, assumiu a sua identidade, a medo. - Sou eu! Por fim, apresentou o medo: - Quem está aí no escuro?

On the road

A um dos lados da pista do aeroporto encontravam-se os dois aviões que haviam colidido, um fizera um rombo na outro, próximo à carlinga - havia asas quebradas, e pequenos destroços em cima da pista e na erva da berma. À distância convencionada, ambos os pilotos haviam armado os triângulos e agora, com os coletes reflectores vestidos, preenchiam em sintonia a Declaração Amigável de Acidente.

No Hospital

- Pai, está-me a ouvir, pai?
- ...
- Sabe quem eu sou, não sabe, pai? Sou um dos seus filhos, um dos seus muitos filhos. Lembra-se de mim, não se lembra?
- ...
- Pai, sou eu, o Rogério, o seu filho, sabe quem eu sou, pai?
- ...
- Pai, tem frio? Quer que chame a enfermeira? Está-me a ouvir, pai?
- ...
- Pai, está-me a ouvir, é o Rogério. Consegue ouvir-me?
-...
- Tem sede pai? Quer água, pai? Sabe o que é a água, não sabe?
- ...
As perguntas sucediam-se sem resposta e repetiram-se durante toda a hora da visita, ecoando no murmurinho discreto dos quartos próximos. No corredor para a saída, uma visita do quarto defronte abordou o Rogério.
- Hoje esteve difícil, não foi?
- Sim, sabe como é - são muitos anos em cima! E ele começou a ficar assim já por alturas do Êxodo...

Claque Zoo

As novas do mercado de transferências caíram como uma bomba no bar do estádio: João Romeiro, excelente jogador de futebol, nado e criado como jogador nas escolas do clube, havia assinado contrato com o clube arqui-rival e arqui-execrável. Os ânimos ficaram exaltados. Como é que fora possível o João fazer uma coisa daquelas? O João não era nada quando os olheiros do clube o toparam, trabalhava num supermercado para sustentar a avó com quem vivia, e o clube pagou-lhe tudo, a renda da casa da avó, as passagens para a Academia de Futebol, e um salário invulgar para uma promessa e uma incógnita. Agora que dera provas de ser um bom jogador, em vez de retribuir, mudava-se para o clube rival pela sanha do dinheiro, como um mercenário sem princípios e sem gratidão.
   Isto não pode ficar assim! Quem o dizia era Emerson, o mais inconformado. Juntou cinco amigos e companheiros da claque principal do clube e instigou-os: Vamos dar uma lição ao cabrão'João!
   E foram. Foram de carro e estaciona…
(Os nós bem atados não há quem os desate, a corda e o jugo no pescoço, a grilheta na perna, as promessas de futuro com que nos enrolaram, os sete e mais sete e mais sete anos que servimos os outros em nome de uma Raquel apodrecida que nunca quereremos ter. Os nós bem atados são como os nódulos rijos dos nós da madeira, da madeira dessas árvores a que atiramos a corda para por fim nos pendurarmos, nus de nós).

os nós atados

João e Maria estavam casados para o melhor, só para o melhor, pelo menos, do ângulo do qual João via as coisas. Maria trabalhava pelos dois, ganhava pelos dois, criava os filhos sozinha, definhava sozinha por conta das contas por pagar e do dinheiro que nunca existia. João era um mandrião colaço, era inerente ao ambiente do lar como a mobília ou as paredes, estava em casa, às vezes, apenas enquanto não fora ou já viera da taberna, do jogo de futebol, ou da sueca nas mesas do Parque porque se devia aproveitar o bom tempo. Era o pai e o marido nominal, e mais um filho que Maria sustentava, luxo incomportável que estourava as finanças de Maria.
   Um dia, Maria clamou por liberdade e divorciaram-se. João não saiu da casa, não tinha para onde ir, o coitado, e ela não podia deixar que o pai dos seus filhos dormisse debaixo da ponte ou nas mesas do parque onde antes jogara à sueca. Continuou a morar na casa, nas águas-furtadas, e Maria sustentava-o à mesma, dando-lhe dinheiro, e continuan…

A grande fuga

Às primeiras horas da tarde, quando todos pareciam saciados e tranquilos, Napoleão procurou a imperatriz. Encontrou-a no alpendre largo do palácio, afagando um lenço de fina seda, com os pés a balançar nos degraus como se escutasse alguma música doce.
Sentou-se ao seu lado de forma deliberadamente casual, olhando por cima do ombro o ir e vir dos carcereiros - homens e mulheres de vestimenta branca que espiavam cada gesto deles, cada palavra, cada sopro de respiração.
   - Josefina, minha amada - disse com voz baixa, de olhos fixos no chão - é esta noite que vamos fugir. Um barco espera-nos no centro da enseada e, após uma curta viagem, estarei à frente dum exército de trinta mil homens que nos ajudarão a restaurar o Império.
   Ela sorriu, afastando da testa uma mecha de cabelo grisalho.
   - Pobre pajem sem tino! Vamos remar outra vez para o banco do jardim? Deita a tua cabeça agitada aqui no meu colo, que Madame de Pompadour ajuda-te a esquecer esses disparates!

o centro e a margem

Era uma daquelas pessoas tristes que sofrem por achar que a vida lhes está a passar ao lado. O curso das coisas, transformou-a numa pessoa que carrega a sofrida tristeza de alguém que se sente atropelado pela vida.