piedade

   Digno de dó era o Antunes, a passear pela cidade com o seu fato surreal de casaco cinzento a fazer conjunto com umas calças dum branco impoluto, puxando o fumo dos seus charutos enquanto os seus sabujos faziam o trabalho sujo que lhe enchia a conta bancária e os bolsos. 
   Sempre tive (tivemos) pena dele, do ar de Job em sofrimento atroz com que comparecia a reuniões e festas mundanas, da sua majestade sofrida de crucificado, quando olhava as pessoas cá em baixo a partir do seu camarote cativo na ópera. E essa piedade exacerbada que o Antunes despertava em nós teve o seu auge quando uma alma caridosa fez, cristãmente, um furo no seu crânio para tentar que, ao menos dessa forma,o Antunes pudesse por cá para fora todas as lágrimas contidas da sua miséria e sofrimento extremos. 
   Mas penso que esse gesto não o ajudou em nada, porque o Antunes,mesmo depois disso, continuou sem chorar e sem aliviar o seu sofrimento, embora tivesse deixado de comparecer na ópera para nos poupar ao espectáculo deprimente do seu calvário pessoal.

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