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Capitão Abécula

   Argonino, pequeno como o mais pequeno dos duendes e,para mais, magro e fraco, era maltratado e torturado pelos rapazes da sua criação. Os diabinhos puxavam-lhe as orelhas, davam-lhe calduços, obrigavam-no a usar orelhas de burro recortadas em papel, e roupas de mulher lavadeira. Argonino acatava os desmandos e obedecia, ruminando por dentro cruentas vinganças. O seu martírio foi tão evidente e prolongado que acabou por encontrar alguém que se apiedou dele, o almocreve da aldeia, uma espécie de bardo e feiticeiro, que recolhia palavras e rezas nas suas longas viagens para as confiar a quem considerasse digno delas. O almocreve ofereceu-se a Argonino para conseguir que ele ficasse tão forte e tão poderoso, que nenhum dos seus importunadores o voltaria a aborrecer, e Argonino aceitou, entusiasmado, como seria de esperar.
   Na manhã do dia seguinte, e tal como ficara combinado com o velho sábio, Argonino compareceu na mansarda - um velho palheiro reaproveitado - onde vivia o almocreve. Por todo o lado se viam pilhas de livros e velhos rolos de papel, objectos que não metiam tanto respeito como as retortas e fornilhos donde se evolava vapor de água e colunas de fumo de cores estranhas.
   O sábio mandou-o deitar-se numa selha larga com o corpo enrolado em posição fetal, e logo em seguida começou a enchê-la com um líquido de cor opalina. Quando quase todo o corpo estava mergulhado nesse preparado, Argonino começou aos gritos no interior da selha, e enquanto maldizia o sábio e as suas loucuras, sentiu o seu corpo transmutar-se em meio a dores atrozes. Quando a experiência terminou, Argonino saiu da selha como um homem diferente, mais alto e cheio de músculos. Nunca se sentira assim tão forte. Sentia que não havia nada que lhe pudesse fazer frente e tinha ganas de usar a sua força. Começou logo ali, erguendo o almocreve nos ares e atirando-o contra a parede da mansarda.
   Saiu para a rua, e deu logo de caras com um dos seus antigos perseguidores, e sem mesmo revelar quem era, pregou-lhe um soco no queixo que o fez girar noventa graus. Sem perder tempo, derrubou a trave que sustentava um alpendre onde fiavam algumas mulheres, esmurrou alguns aldeões fracotes que se cruzavam no seu caminho, e saiu para campo aberto, à procura dalgum touro portentoso a quem pudesse arrancar os chifres como quem desembainha uma espada.
   Foi aí,sem casas e sem árvores por perto, que Argonino viu terminada a sua odisseia, quando foi esborrachado como um caracol pela bota do gigante Gulliver,



Geena

                No rincão das matas enegrecidas, onde as árvores carbonizadas se assemelhavam a costelas fraturadas do corpo de uma ...