INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

   Quando a ninfa Eco se via ao espelho, o seu reflexo não era estático, mas distanciava-se, e ficava mais longe, e mais longe, e mais longe.

a beleza do acordar

   Da mesma forma que algumas televisões, ao serem ligadas, acendem-se no mesmo canal que exibiam quando tinham sido desligadas, também a vida intrínseca ao sono de Ângelo Ibarrúbia seguia um mecanismo idêntico. Há pelo menos trinta e seis anos que Ângelo Ibarrúbia desenvolve o mesmo pesadelo quando dorme, e digo pelo menos, porque o Ângelo não tem uma memória muito precisa dos primeiros meses de vida.



"falsificaciones"

     Em plena Guerra-Fria, os presidentes das duas nações mais poderosas da Terra conversam através do telefone vermelho.
   - Vamos aos cogumelos?
   - Hum! Não sei...Achas que já está no tempo deles?

estratégias de sobrevivência

    A sonda marciana Phoenix desce o declive suave do côncavo duma cratera. Recolhe amostras e faz medições. É uma máquina mas parece solitária como um homem sem amigos e sem família. Mete pena.
   A uma dúzia de metros da sonda estão duas rochas altas, aparentemente comuns, de cor castanha e quase lisas. São dois marcianos que olham para a sonda enquanto esta os filma.
   - Dizemos-lhe alguma coisa? - pergunta um.
   - Não! Levamos muitos séculos a transferir-nos para estas formas duradouras. Seria o nosso fim.

«A Maldição do Faraó», cenas trinta e seis a quarenta e oito.


  O arqueólogo está em sua casa, admirando relíquias egípcias na sua sala aquecida com lareira. Em cima da mesinha de centro estão espalhados daguerreótipos da expedição ao Egipto - os ingleses à porta do túmulo no Vale dos Reis, a tirar o chapéu à esfinge, a cavalgar montados em camelos no meios das dunas.
   A múmia está no exterior, emerge do nevoeiro espesso e mata o cão de guarda, estrangulando-o com um bocado de ligadura, depois os frangos e os gansos do galinheiro, um a um, afogando-os num tanque com água, em seguida, entra em casa pela porta das traseiras. Mata todos os criados, de susto ou por estrangulamento, logo a seguir a esposa do arqueólogo com uma agulha de tricotar, depois a irmã desta sufocando-a com um abraço mortal, e a mãe das duas, a quem prega sustos sucessivos até ela deixar de respirar.
   O arqueólogo continua na sala, e a múmia vingativa persiste na sua matança. No piso superior descobre a jovem filha deste, a tomar banho numa banheira cheia de água. Junta-se a ela, e numa luta feroz dentro de água consegue afogá-la. A vingança estava quase consumada. Faltava o prato principal. Chega à sala, onde entra, encharcado em água e sangue.
   - Quem és tu? - pergunta o arqueólogo a medo.
   - Attchiimm!!

os poros do tempo

   Numa resposta violenta ao silvo da coruja sobre as árvores, ao canto dos grilos e ao quase-choro duma cria de ouriço, deflagrou na noite o alarme electrónico dum carro. Todos os seres reagiram ao som do alarme, animais e  homens, os primeiros remeteram-se a um silêncio prudente, mas as pessoas preferiram interrogar-se sobre a natureza daquele som bizarro. Pessoas como o almocreve que vigiava os cavalos no estábulo, o ferreiro que ainda trabalhava àquelas desoras, a martelar o ferro na bigorna sob a própria luz da fornalha; o moleiro que descia da encosta dos moinhos com uma mula carregada com sacos de farinha.
   Na estrada real, o marquês que empoava o rosto gritou para que o cocheiro detivesse os cavalos, e espreitando à janela do coche perguntou-lhe:
   - Que som infernal era aquele?
   - Não faço ideia, meu senhor, mas às vezes o vento, ou o tempo, prega-nos partidas...


posses

    Aquele pobre homem não tinha nada, não tinha conversa, não tinha graça, não tinha jeito para fazer ou conservar amigos, não tinha educação, não tinha cultura, não tinha sonhos, memória, emoções, impulsos, hábitos, manias, talentos.
   (Mas alguma coisa deveria ter para que tivessem empregado nele, não uma caixa de fósforos sem fósforos, ou uma caixa vazia de jóias, mas um belo caixão em pinho maciço, de tamanho regular).



"O Repouso do Guerreiro", de Mário-Henrique Leiria

   Depois de ter andado bastante tempo de um lado para o outro, voltou a casa, já com 50 anos.
   Trazia um bicho. Uma panterazinha negra de seis meses, cheia de ternura, amizade e dentes.
   Então resolveu ficar sentado, olhando a televisão, os livros, alguma música e várias bebidas.
   Três anos depois ou talvez um pouco mais, não estou agora certo, alguns amigos acharam graça ir visitá-lo.
   Foram.
   Bateram à porta.
   Apareceram dois meninos a abri-la. Dois meninos escuros, com dentes eficazes e sorriso amigo. Rosnavam ternamente.




(in "Novos Contos do Gin - seguidos de Fábulas do Próximo Futuro", Editorial Estampa, Lisboa, 1978)

Do amor à música


   Se quiser aprender a tocar violino, tire daí a ideia se não tiver violino, arco de violino ou mãos para tocar. Este último item não é de todo incontornável porque pode sempre tentar prender o arco do violino a um dos lados da cabeça e tentar tocar de ouvido. Mas, seja como for, nunca tente aprender a tocar violino se for Sábado e se o seu vizinho de cima se chamar Alfredo dos Santos Cunha, porque esse ser sensível tem mau feitio e sono leve e dorme durante o dia abraçado a uma Mauser carregada.

Desenganado

   Na consulta, e após muita insistência, os médicos anunciaram que ele só tinha mais dois meses de vida. Nada mais errado, e mais um erro crasso da medicina. A única coisa que sucedeu por essa altura, dois meses depois dessa consulta, foi o seu coração parar.



(daqui)

As cotas máximas


     O nosso ser – coração, alma, mente, os humores, tudo reunido – possui uma capacidade limitada para novas aquisições e novas experiências de vida – alegrias, desaires, paixões, agonias. 

  Há um limite, como a capacidade dum reservatório de água ou a memória dum disco rígido. 

  Atingido esse limite, há vários recursos a que podemos lançar mão: seja o negarmos a nós próprios e dessa forma arranjarmos novos espaços para o ser que julgamos ser agora; seja o oblívio inconsciente e necessário, ou a transferência das nossas experiências e memórias para o íntimo de pessoas de quem gostamos e em quem depositamos toda a confiança. 

  Eu, por mim, como outros, logo que me aproximei desse limite, comecei a tentar escrever.


Coração, solitário encarcerado

- Olá, senhor Francisco. Viu a minha mulher por aí? É que eu passei o dia fora e ainda não fui a casa.
- Não, Romão, aqui no café não apareceu e olhe que ela passa sempre aqui; e nem a vi sequer passar na rua.
- Nesse caso é bom sinal, tinha medo que ela conseguisse sair do quarto onde a tranquei à chave.



miúdas

- E o que é essa festa onde tu vais com o teu pai? -perguntou a adolescente à amiga junto à arca dos gelados.. 
- É uma festa branca, faz-se ao pé da praia, cheia de gente bonita e boa música, e todos vamos vestidos de branco! É lindo de morrer!
- Então, porque é que tu dizes que eu não posso lá ir?
- Porque é uma festa para pessoas grandes, assim, jovens, e mais velhos ainda...
- Mas nós temos a mesma idade!

plus ultra

   Depois de ter tido sete sucessos editoriais consecutivos, e tendo dois deles alcançado os tops de vendas nacionais, o escritor de livros de auto-ajuda engoliu o seu orgulho e pediu ajuda à mulher para que ela visse com ele um caroço disforme que lhe aparecera na coxa.

o arrependimento

   Na parede da casa devoluta, diante da casa do amante, no outro lado da rua, ela escrevera a vermelho: Desculpa, André.
   Um pedido sentido de desculpas, um sinal pungente e patético de arrependimento.
   A tinta havia escorrido um pouco das letras por ser um pouco líquida; resultado, talvez, dela ter misturado na tinta um pouco do sangue de André.


enigma

   «Eu sou mais novo do que vocês, meus filhos e netos!» - declarou o Velho Feliz na reunião de família, e logo aclarou o sentido das suas palavras em meio ao espanto geral: «Não é só pela minha alegria em vos ter, é que eu nasci de novo de cada vez que um de vocês nascia».

A invasão

   Quando chegou a casa, deparou com pilhas de magazines de informática a obstruir a porta de entrada. Lá dentro, a devassa continuava, a banheira cheia de revistas de jardinagem e bricolagem, a mesa da sala a servir de expositor para números antigos das Selecções do Reader's Digest, e exemplares de revistas cor-de-rosa dentro da lareira e junto ao caixote de lixo.
   Não havia qualquer dúvida - alguém lhe havia revistado a casa! Informou a polícia e iniciou a reciclagem.

Capitão Abécula

   Argonino, pequeno como o mais pequeno dos duendes e,para mais, magro e fraco, era maltratado e torturado pelos rapazes da sua criação. Os diabinhos puxavam-lhe as orelhas, davam-lhe calduços, obrigavam-no a usar orelhas de burro recortadas em papel, e roupas de mulher lavadeira. Argonino acatava os desmandos e obedecia, ruminando por dentro cruentas vinganças. O seu martírio foi tão evidente e prolongado que acabou por encontrar alguém que se apiedou dele, o almocreve da aldeia, uma espécie de bardo e feiticeiro, que recolhia palavras e rezas nas suas longas viagens para as confiar a quem considerasse digno delas. O almocreve ofereceu-se a Argonino para conseguir que ele ficasse tão forte e tão poderoso, que nenhum dos seus importunadores o voltaria a aborrecer, e Argonino aceitou, entusiasmado, como seria de esperar.
   Na manhã do dia seguinte, e tal como ficara combinado com o velho sábio, Argonino compareceu na mansarda - um velho palheiro reaproveitado - onde vivia o almocreve. Por todo o lado se viam pilhas de livros e velhos rolos de papel, objectos que não metiam tanto respeito como as retortas e fornilhos donde se evolava vapor de água e colunas de fumo de cores estranhas.
   O sábio mandou-o deitar-se numa selha larga com o corpo enrolado em posição fetal, e logo em seguida começou a enchê-la com um líquido de cor opalina. Quando quase todo o corpo estava mergulhado nesse preparado, Argonino começou aos gritos no interior da selha, e enquanto maldizia o sábio e as suas loucuras, sentiu o seu corpo transmutar-se em meio a dores atrozes. Quando a experiência terminou, Argonino saiu da selha como um homem diferente, mais alto e cheio de músculos. Nunca se sentira assim tão forte. Sentia que não havia nada que lhe pudesse fazer frente e tinha ganas de usar a sua força. Começou logo ali, erguendo o almocreve nos ares e atirando-o contra a parede da mansarda.
   Saiu para a rua, e deu logo de caras com um dos seus antigos perseguidores, e sem mesmo revelar quem era, pregou-lhe um soco no queixo que o fez girar noventa graus. Sem perder tempo, derrubou a trave que sustentava um alpendre onde fiavam algumas mulheres, esmurrou alguns aldeões fracotes que se cruzavam no seu caminho, e saiu para campo aberto, à procura dalgum touro portentoso a quem pudesse arrancar os chifres como quem desembainha uma espada.
   Foi aí,sem casas e sem árvores por perto, que Argonino viu terminada a sua odisseia, quando foi esborrachado como um caracol pela bota do gigante Gulliver,



Medo e resposta

   - Este é o meu cão! - apresentou-lhe o paciente no relvado do sanatório.
   Olhou para onde o homem apontava mas não viu cão nenhum, apenas um canteiro pobre com algumas margaridas com sede.
   - Se olhar bem, pode ver como ele é habilidoso e esperto. Senta-se sobre as patas traseiras e estende a pata. E também abana a cabeça quando assobiamos.
   E assobiou então, de costas para o seu cão.
   - Está a vê-lo? - perguntou.
   - Ele...não está a fazer nada...
   - Claro que não, ele é muito tímido e não o conhece, deve estar a fingir que é uma margarida enquanto você olha para lá com esse seu olhar assustador. Faça-me um favor, afaste-se uns passos como se estivesse a ir embora e então olhe por cima do ombro, se o quer ver a fazer habilidades.
   Obedeceu, com receio de contrariar aquele desconhecido. Afastou-se uns passos, mas não chegou a olhar por cima do ombro porque pôde ouvir uma margarida a rosnar.



estória doméstica


   Na escuridão da noite, os nossos utensílios de cozinha reúnem-se em celebrações secretas. Eu sei, porque assisti a tudo. Foi engraçado ver como as facas imitavam os efeitos sonoros dos filmes de capa e espada, e as colheres a balançar-se como vaidosas mulheres, e os coadores que faziam ecoar os seus cânticos, enquanto, em volta deles, o passe-vite rodava, veloz. Mas o que mais me divertiu, e a todos os outros utensílios, foi ver o esfregão de palha-de-aço a fazer de palhaço.

a jazente sensação de Déjà vu


   O nosso planeta é como um globo ocular gigantesco e vivemos sobre uma retina à escala do planeta. A nossa imagem e existência, como a de todos os seres e objectos é recebida e processada no interior do planeta, mas ao contrário do globo ocular humano, não existe um canal óptico para conduzir as imagens até a um cérebro, estas são antes reflectidas e projectadas num outro lugar da superfície terrestre, a anos e até séculos de distanciamento do estímulo inicial, período de tempo em que as imagens circulam como ínfimas descargas eléctricas através de rochas e lava e líquidos espessos das profundezas, os ossos, sangue e vísceras do nosso planeta. É pois perfeitamente normal que existam miragens e aparições, que se avistem cidades a pairar sobre as águas ou pirâmides de ouro nos cumes das montanhas, tal como não é absurdo que uma imagem nossa brilhe nas antípodas do planeta num tempo distinto do nosso, como um reflexo fiel do que somos num dado momento ou, o que é ainda mais frequente, como a imagem - um animal, uma rocha ou uma estrela - com que fomos percepcionados pelo planeta e que, no fundo, acaba por ser a nossa verdadeira essência, ainda que vivamos uma vida inteira sem nos apercebermos disso...



vida suspensa

- Tenho tido problemas com o computador, com a net do telemóvel, com o leitor de Ebooks...
- E porque é que estás tão agitado? Não passaste bem sem tudo isso?
- Não, claro que não! Tu falas porque nunca soubeste o que é estar ligado ás máquinas...



um belo achado:

o
de José de La Colina

(e uma chamada de atenção para o blog de Juan Yanes que, por si mesmo, merece uma leitura demorada)

o que não esquece

   Na linha de identificação da polícia, diversos facínoras estão alinhados. Vestem calças de tirilene, camisas de manga curta, botas de mato, e uma espingarda desmuniciada ao ombro. Na cabeça de cada, um chapéu colonial bege. Do outro lado do vidro, na sala reservada ás testemunhas, um elefante sem presas estuda-os atentamente.

milonga

   Diego Albornoz adormece na sua sala, a ouvir uma milonga no estéreo. Adormece e sonha com noites fogosas de bebida e mulheres, e duelos de punhais por mulheres e bebidas. Diego acorda, aliviado, mais incomodado pelo sonho do que pelo punhal que tem cravado no peito.


movimento ilusório

   O navio de passageiros que iria abandonar o país fez soar a sua sirene no porto, saindo deste em marcha-ré para que os seus passageiros não se consumissem com a dor das despedidas.

piedade

   Digno de dó era o Antunes, a passear pela cidade com o seu fato surreal de casaco cinzento a fazer conjunto com umas calças dum branco impoluto, puxando o fumo dos seus charutos enquanto os seus sabujos faziam o trabalho sujo que lhe enchia a conta bancária e os bolsos. 
   Sempre tive (tivemos) pena dele, do ar de Job em sofrimento atroz com que comparecia a reuniões e festas mundanas, da sua majestade sofrida de crucificado, quando olhava as pessoas cá em baixo a partir do seu camarote cativo na ópera. E essa piedade exacerbada que o Antunes despertava em nós teve o seu auge quando uma alma caridosa fez, cristãmente, um furo no seu crânio para tentar que, ao menos dessa forma,o Antunes pudesse por cá para fora todas as lágrimas contidas da sua miséria e sofrimento extremos. 
   Mas penso que esse gesto não o ajudou em nada, porque o Antunes,mesmo depois disso, continuou sem chorar e sem aliviar o seu sofrimento, embora tivesse deixado de comparecer na ópera para nos poupar ao espectáculo deprimente do seu calvário pessoal.

pedir um desejo

A estrela iniciara a sua queda.
- Pede um desejo, rápido! - incitou a companheira.
Formulou um desejo, com a rapidez que se lhe exigia.
No palco, a estrela, perfeitamente alcoolizada, já não se sustinha nas pernas e desabou sobre o cenário como uma árvore cortada.

Orelhão

   Dia pleno numa das artérias mais movimentadas da minha cidade, muitas pessoas nos passeios a entrar e sair de lojas e cafés. Ao princípio da rua, havia um orelhão com um telefone clássico de cor cinzenta, uns vinte metros mais abaixo, um outro orelhão e um outro igual a igual distância deste. Uma senhora sai duma loja, muito apressada, aventura-se a atravessar a rua na diagonal e leva um encosto violento dum carro que segue caminho depois de a derrubar. Fica deitada aos gritos na berma do passeio. Havia muitas pessoas nos passeios a entrar e sair de lojas e cafés. Mas nenhum dos orelhões pareceu ouvi-la.

empreendedores

   A família, por unanimidade, decidiu enveredar pelo ramo da hotelaria. Haviam herdado uns barracões que haviam servido em tempos de cavalariças, e meteram mãos à obra para transformá-los num Hotel rural. Limparam os restos de palha, deram caça ás ratazanas, e lavaram tudo com água canforada para matar (ou deprimir) as pulgas que infestavam o lugar. 
   Enquanto desenrolavam pelo chão os finos colchões de esponja que serviriam de cama aos hóspedes, João Soito, patriarca da família, recebeu uma tarefa muito especial. A ele, que era o única pessoa presente com talento para desenhar uma figura humana com mais de cinco traços e um círculo, foi confiada a missão de pintar as letras de H-O-T-E-L sobre a porta principal e, por baixo, desenhadas e pintadas com muito desvelo, cinco bonitas estrelas cheias.

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...