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pequena estória "curitibana"

   Eugénio era um homem fechado e desconfiado. Poucos amigos e poucas falas. O merceeiro que lhe trazia os suprimentos à porta, o taberneiro e os nautas do lugar, as damas do bordel no fim da rua, e dois ou três sujeitos que teimavam em cumprimentá-lo e a quem respondia, só para dar troco. Ao seu lado morava o Nicolau, com quem andara na escola, e a quem, por isso, permitia mais liberdades. Por vezes, conversavam um pouco, sentados ambos nos degraus da entrada da casa, entre dois sorvos de tabaco. A Nicolau ofereceu uma vez, não se lembra bem porquê, uma garrafa de licor de medronho que um seu primo lhe trouxe um dia quando veio saber se ainda estava vivo por incumbência do resto da família, e dele recebeu um ou dois livros emprestados e, em troca, emprestou-lhe também alguns dos seus livros.
   A vida parecia correr mais leve e fácil para Eugénio, quando deu pela falta, na estante, dum livro de Gogol.
   - O meu Gogol? - perguntou a Nicolau - o meu Nariz de Gogol?
   - Nunca vi! - respondeu Nicolau.
   Eugénio não se acreditou, e foi o fim da amizade. Deixou de fumar na frente da casa, evitava-o na taberna e na casa das meninas, e começou a fechar as portadas de madeira das janelas da casa em pleno dia, como se lhes fechasse os olhos aos que passavam na rua. Se calhava cruzar-se com ele na rua, Nicolau cumprimentava-o, forçadamente, mas Eugénio, com o estômago a coruscar de azedume, respondia-lhe quase sempre o mesmo: "Cumprimenta antes o meu Gogol!", ou "Tens visto o meu Gogol e a minha aguardente de medronho?".
   Nicolau resignou-se. Ter Eugénio como vizinho, era igual a sabê-lo na Lapónia ou em Marte. 
   Anos volvidos, Nicolau arranjou noiva e casou-se (enfiou o envelope com o convite para a boda por debaixo da porta de Eugénio, mas sabia que ele nunca apareceria), e em menos de cinco anos, tinha já três filhos a barulhar pela casa. Eugénio, por vezes, pensativo, admirava-os a todos da penumbra da sua casa, espectro triste de casa assombrada. Os filhos de Nicolau cresceram sadios, a mulher alargou e ficou muito roliça, mas  ele, ao invés, mostrava-se cada dia mais encurvado e pálido. Do seu retiro, Eugénio assistiu às repetidas visitas do médico à casa do vizinho. Era qualquer coisa nos pulmões, contou-lhe o merceeiro, coisa feia mesmo. As visitas do médico sucediam-se com mais brevidade e uma manhã, pelo coro de gritos e prantos, Eugénio soube que Nicolau se tinha finado.
   Vieram vizinhos, colegas de trabalho da mina, parentela vária. E velaram o corpo ali mesmo, na sala grande da casa, as portas abertas, e a mesa da cozinha recheada de iguarias e petiscos para os que vinham prestar homenagem ao defunto. Eugénio também compareceu, para espanto de todos. Vestia um fato cinzento desbotado com calças ás riscas, e envergava a sua cara de enterro de todos os dias. Deu os sentimentos à viúva de forma irrepreensível, esfregou a mão transpirada nos cabelos dos órfãos e se dissimulou no ir e vir das visitas pelas divisões da casa. Poucos minutos depois, voltou à sala com um ar triunfante. Trazia pela mão o seu livro de Gogol, esfregou-o por segundos na cara do falecido e saiu com ele da casa, no meio da maior consternação.









Ligação:


Uma Vela para Dario, de Dalton Trevisan, uma jóia no mundo dos contos.



Geena

                No rincão das matas enegrecidas, onde as árvores carbonizadas se assemelhavam a costelas fraturadas do corpo de uma ...