O Navio dos Loucos



O adolescente vestia calças de ganga e uma t’shirt branca, e jogava sozinho com uma bola de basquetebol no recinto de cimento rodeado por uma rede metálica. Batia com ela no solo, ensaiava alguns passos num bailado caprichoso e arremessava-a, umas vezes para a encestar na argola metálica, outras, para atirá-la com força contra a parede coberta de graffitis que ocupava um dos lados mais pequenos. Jogava sozinho, naquele recinto no coração dos prédios duma urbanização. Naquela silente solidão fez-se ouvir o motor dum jipe que parou junto á rede do recinto com dois militares no interior, e o oficial que viajava no banco de trás, impecavelmente aprumado no seu uniforme, apeou-se e aproximou-se do jovem. Ele parou de jogar quando o sentiu ao seu lado. O oficial apoiou polidamente a mão grande e pesada no seu ombro, num sinal enxuto, desafectado, de apoio.
O jovem era seu filho. Não havia por ali mais jovens com quem ele pudesse jogar. A limpeza étnica estava muito adiantada.

Mensagens populares deste blogue

A viagem

Abril de 1918 - o caminho para uma Primavera de sangue