O Guia


 

  Segundo dia da expedição espeleológica nos Andes chilenos. Os quatro homens, devidamente equipados, descem abaixo dos quatrocentos metros, iniciando a travessia duma galeria que parte do poço principal daquele sistema de grutas. Analisam o ar, é respirável. Fazem uma pausa para comer antes de prosseguir. Andrés Guzman, espanhol e o único europeu da expedição, não vê necessidade de parar, e avisa os companheiros que vai fazer um pequeno reconhecimento enquanto eles comem. 
   Avança na galeria uns cinquenta metros, e num dos lados distingue uma abertura longitudinal. Curiosamente, as suas linhas lembram-lhe a vulva duma mulher. Sorri, e aproxima-se para examinar a abertura. Com a luz da lanterna, distingue uma pequena galeria secundária que se afunda na diagonal, até a um cotovelo a uns meros três metros de profundidade. Procura o comunicador para falar com os seus colegas, e  um dos seus pés resvala na borda da cavidade, fazendo todo o seu corpo cair na gruta, deslizando por ela enquanto a sua cabeça e os seus membros embatem dolorosamente contra as protuberâncias rochosas da cavidade.
   No final da queda, o seu corpo mergulha nas águas geladas dum rio subterrâneo. Luta com denodo, e consegue manter-se à tona, apesar do peso do equipamento. Esbracejando como pode consegue atingir a margem rochosa, onde emerge com dores lancinantes em todo o corpo. Analisa a situação, palpa os membros doridos e conclui que não tem nada partido, apesar das dores. O sangue escorre duma escoriação no ombro e contém a hemorragia atando-lhe por cima o ensopado lenço do pescoço.
   Prepara-se para encontrar um caminho de regresso. Abre a mochila, e aliena todo o equipamento que não é indispensável, kits de recolha de amostras, amostras já ensacadas de minerais e rochas, um contador Geiger. Sente um alento de esperança quando consegue ligar novamente a lanterna. A margem do rio é estreita, e estende-se nas duas direcções. Ergue-se apoiado no bastão metálico e tenta a sorte, retirando uma moeda dum bolsilho do colete. Prepara-se para a atirar ao ar quando distingue uma forma a movimentar-se perto de si. Aponta a lanterna e fica espantado com o que vê: um corvo, um corvo de penas brancas, lindo e hierático como uma estátua de Hórus. Está pousado numa estalagmite de reflexos vítreos, e olha na sua direcção. Assemelhava-se a uma aparição, ou a um delírio alucinatório.
   Não tem como documentá-lo, nem procura racionalizar o achado. Guarda a moeda e e encaminha-se na sua direcção. O corvo levanta voo, pousa um pouco mais adiante e espera. Aproxima-se novamente, e de novo o corvo levanta voo, para pousar mais à frente, como se o esperasse. "Estou a ser guiado!" pensou para consigo, sem qualquer temor ou sombra de superstição, até porque se sente inundado duma vibrante alegria e as dores parecem ter desaparecido por completo.
   Estes pequenos voos do corvo branco repetem-se uma e outra e outra vez, até deixar de o ver. Ouve o som de água em queda, e avança com cautela. O rio ao seu lado mergulha num abismo um pouco mais à frente. Tendo bem presente a forma descuidada como antes caíra, aproxima-se agora com mil cuidados da berma do abismo.
   Não é um abismo no sentido geral, mas um poço semelhante àquele em que eles haviam realizado a descida, mas este é distinto. Calcula que o diâmetro é muito maior, e neste, as paredes emanam uma pálida luminescência, que não consegue explicar. 
   Cogita agora que a galeria em que se encontra, poderia estar a contaminá-lo com radioactividade, afectando o seu cérebro, e originando as sensações de euforia e a visão bizarra daquele corvo branco. Corvo que agora reaparece, esvoaçando à sua frente, no centro do poço subterrâneo. Enquanto o fita, escuta o murmúrio confuso de vozes e risos, e perpassam pelo seu campo de visão sombras prateadas de contorno humano, que teima e recusa-se em interpretar como espectros."É a radioactividade, ou os gases tóxicos das profundezas, que causam estas visões" - tenta ainda reflectir, reagindo à euforia que o inunda como uma maré luminosa.
   «This is the End, Beautiful friend» - cantarola, pondo-se por fim, de pé, na berma. Não sentia dores, não podia estar vivo. Abre os braços e salta em frente.

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