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   - Taxista, siga aquele carro!
   O taxista mirou o novo passageiro pelo espelho retrovisor, e encolheu os ombros.
   - É um carro funerário...vai ser uma corrida lenta...
   O passageiro não se deu por achado, puxou dum bloco de notas e  começou a escrever nervosamente. De vez em quando, levantava os olhos para o carro funerário que rolava pela hora da morte, e mergulhava de novo na sua escrita.
   - Deixe-me imaginar, o senhor tem um blogue ou uma coluna de crónicas, e está a colher impressões sobre a experiência da morte, mais coisa, menos coisa.
   - Pode-se dizer que acertou, mas eu estou só a imaginar, a entrar no espírito da coisa. Só a imaginar.
   O taxista sentiu vontade de rir, mas conteve-se, e em poucos segundos, essa vontade esfumou-se por completo quando sentiu um toque gelado na cabeça. Olhou pelo espelho, e deu de caras com um revólver reluzente cujo cano o passageiro lhe encostara à nuca.
   - Não sei qual é o destino do cadáver que segue naquele carro, ou daquele que está a segurar o volante deste, mas estou só a imaginar, a entrar no espírito da coisa.


2

   - Taxista, siga aquele carro!
   O taxista mirou o novo passageiro pelo espelho retrovisor, e encolheu os ombros.
   - É um carro funerário...vai ser uma corrida lenta...
   O passageiro não se deu por achado, puxou dum bloco de notas e começou a escrever nervosamente. De vez em quando, levantava os olhos para o carro funerário que rolava pela hora da morte, e mergulhava de novo na sua escrita.
   - Deixe-me imaginar, o senhor tem um blogue ou uma coluna de crónicas, e está a colher impressões sobre a experiência da morte, mais coisa, menos coisa.
   - Pode-se dizer que acertou, mas eu estou só a imaginar, a entrar no espírito da coisa. Só a imaginar.
   - Então veio ter com a pessoa certa, porque eu conheço toda a gente desta terra, são como uma grande família para mim.
   E como se pretendesse demonstrar o que acabara de afirmar, posicionou o táxi uns poucos metros à frente do cortejo fúnebre, e abandonou o veículo para ir conferenciar com o pessoal da funerária e com os familiares do falecido. Quando voltou para o táxi, não conseguia disfarçar um sorriso de contentamento.
   - Está tudo tratado - anunciou.
   Tratado o quê? Perguntava-se, mas não era hora para oratórias. Tiraram o corpo do falecido do caixão, com extremo cuidado, e sentaram-no no táxi, à frente, no lugar do morto. E o passageiro fez a viagem contrária.
   - Aproveite a oportunidade para imaginar e entrar no espírito da coisa - disse-lhe o taxista, antes de fechar a tampa do caixão sobre os seus olhos apreensivos.



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